Saturday, June 30, 2012

O verdadeiro peso da Terra





(Para Líria Porto e Andrea Godoy Neto)

E se tudo o que disseram tiver sido mentira? E se não houver, finalmente, vida após a morte? Já imaginaram?
De um instante para o outro a chama da vida se extingue e, como uma vela apagada, deixaremos de iluminar a escuridão à nossa volta.
Assim, de repente, não mais que de repente e, como que reagindo ao movimento do dedo no interruptor, ou no botão onde Deus escreveu, em inglês, a palavra Off, chegamos ao fim.
Cessa o movimento do corpo, a memória se apaga e a estrada da vida chega ao seu final.
Acabou.
The End.
Fim.
Não há mais acerto de contas, nem purgatório, nem dono do inferno ou senhor do céu.
Não haverá São Pedro, nem Satanás para dar as boas-vindas à porta da próxima parada.
Nem céu, nem inferno, apenas o buraco negro do nada e a matéria se desintegrando, gradualmente, pasto de vermes.
Este é o ponto final. Todo mundo desce aqui.
A partir daqui, só o silêncio, a escuridão, a inércia, nada mais.
Já imaginaram?
Eu, que imaginei e fiz as contas, considero-me no lucro. Se não houver nada além, já terá valido a pena.
E valeu, porque andei de pés descalços sobre a grama orvalhada, mergulhei no doce das águas de um rio e no sal das ondas do mar.
Vi o sol nascer e se pôr; conheci  o amor, gerei crianças perfeitas, lindas.
Fui abraçado por mornas manhãs, fiz serenatas em noites de lua cheia, recebi o afago do vento e tomei banhos de chuva.
Li livros bons e ruins; conheci pessoas interessantes, gritei “gol”.
Chorei de alegria e de dor. Gargalhei, sorri.
Bebi a poesia de Neruda, Drummond e Lorca. Sonhei mudar o mundo e acordei, pacificado e nu, diante de um imenso deserto.
Não conheci a fome ou equivalente flagelo. Sempre existiu um cobertor para me proteger do frio e um teto como abrigo às tempestades.
Decifrei - menino ainda - o significado da palavra lar.
Fiz amigos, muitos.
E inimigos que não enchem uma mão.
Comi pão com mortadela de padaria, colhi fruta madura no pé, senti o perfume de um jasmineiro em noite de estrelas.
Nunca roubei, matei ou envergonhei quem me trouxe ao mundo.
Fui abençoado por ter vindo de onde e de quem vim.
Ao longo dos anos tentei vencer a inveja e a mesquinhez. Não sei se consegui.
Mas meus pecados podem ser considerados menores, e os medos nunca me assustaram além da conta.
Saí de minha aldeia, corri trecho, visitei mundos - que imaginava longínquos demais -, paisagens tiradas de páginas impossíveis.
Fui e voltei.
Aprendi a me arrepender dos erros e a pedir perdão, uma das tarefas mais difíceis para o ser humano.
Obra em andamento, eu sei que ainda tenho muito o que melhorar. Mas não perdi a esperança.
Se tudo o que disseram durante toda a vida tiver sido mentira, não terei mais perguntas a fazer. Nem queixumes.
E me darei por satisfeito se tiver conseguido melhorar o produto final, quando tiver chegado àquela hora de ir desta para lugar nenhum.
Reduzido a simples matéria, sei que a terra me será leve, muito leve.




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28 comments:

Janice Adja said...

Não haverá escuridão nem buraco negro. Acaba ali. Se a pessoa não tem mais sentidos como vai para purgatório ou outro lugar que seja.
A vida daquele individuo é que acaba. Como uma coisa que vai para o lixo, o corpo vai para o cemitério para não deixar mal cheiro na cidade.
Beijos!

Prisca said...

Lindo demais! Fiquei sem palavras de falar e de escrever. Mas foram lindas palavras para ler antes de adormecer...Aqui por quem anda Alé-Mar. Em dias onde as palavras saem com dificuldades, no pleno sentido da palavra dificuldade. Onde quem nunca esperou ouvir e ver a realidade atual (conforme o tão discutido acordo ortográfico), onde agora é melhor pensar exatamente assim: se chegar a última palvra, será somente isso, uma última palavra e um adormecer, aquietar do corpo e da alma. Obrigada!

Gisa said...

Um excelente texto. Compartilho das dúvidas, mas penso que quando minha chama se apagar por aqui deixarei o seu brilho em muitas lembranças que me são caras e para as quais também acho que serei.
Um grande bj

Andrea de Godoy Neto said...

crônica das mais lindas, beto!
destas que comovem e deixam um nó na garganta...

não poderia haver presente melhor, e que dissesse tanto de mim mesma.

Ver meu nome ali em cima é uma honra. Mas tenha certeza de que honra maior é te ter entre os meus e saber que, de alguma forma, figuro entre os teus.

um beijo, pessoa

Lara Amaral said...

Nossa, deve ser bom poder dizer tudo isso.

Beijo!

Verso Aberto said...

hora em que se esvazia todos os bolsos rsrsrs

a gente vai e volta
sempre

crônica de mestre

abs mano

Luciana Marinho said...

roberto,

fiquei sentindo, sentindo, a tua última frase, já que eu de imediato diria 'reduzida a simples matéria, sei que a terra me será pesada, muito pesada'. adorei teu texto. aliás, sempre gosto bastante de vir aqui.

beijos, querido!

Tania regina Contreiras said...

Beto, tua dúvida não é minha, que creio em eternidades. Mas se no fim só houvesse o fim, sim, tanto valeria, valeria a tua vida, o teu lirismo, valeria tu, ter de lido e visto tanto da eternidade através de tua alma.

Beijão,

Adriana Aleixo said...

Querido Roberto,

tão lindo e leve texto que aborda o grande questionamento humano. Você é um grande afortunado, pois dentre tudo que narrou, poder decifrar ainda pequeno a palavra "lar", é para mim a maior dádiva. Eu só entendi o que era isso muito tarde.
Quanta, mas quanta falta faz...
Que riqueza meu amigo, pudera o vento, o sol, o mar e o lar serem os grandes questionamentos humanos.

Beijo beijo

Tati said...

Também gosto da idéia do nada - depois da morte. Viver parece mais grandioso do que qualquer explicação sobre o fim.

Primeira Pessoa said...

Tati,
viver é tudo o que eu conheço.
então, não quero nem dar palpite como poderia ser depois da derradeira pá de cal.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

adriana,
tenho certeza mais do que absoluta que você fez muito mal. de errado, só essa estória de torcer pro galo.
isso aí eu não quis experimentar.
nem fumei crack...rs'

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
cê não tem a mínima idéia da falta que você.
você é a linha, a agilha e a boa vontade que nos mantém costurados uns ao outros.

fico muito feliz de ver aqui.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

Luciana MArinho,
você foi das primeiras pessoas que li na blogosfera. Gostei logo de cara, e eu ficava intrigado com a sua habilidade de costurar palavra e imagem.
aí cê vem aqui e elogia, gosta de vir aqui e eu fico com a cara vermelha....

é sério.

beijo grande procê, do

r.

Primeira Pessoa said...

marquinho,
essa frase do bolso é muuuuito bolsa.
eu tenho um amigo super perdulário que costuma dizer que caixão não tem gaveta, toda vex que me esquivo de um restaurante mais caro...rs

beijo grande procê, do

r.

Primeira Pessoa said...

dea,
então - com os devidos pedidos de desculpas pelo atraso na resposta -, saiba você que a dedicatória é mais do que merecida.
e é assim que estará no livro que Bispo Filho e eu estamos preparando.

beijo grande do

r.

Primeira Pessoa said...

larinha,
você que já nasceu com 15 anos, quando chegar à minha idade (e cê sabe, titio é véio... se sente véio) , você terá feito muito mais.

beijo grande do tio

roberto.

Primeira Pessoa said...

gisa,
acho que é bem por aí....
a gente é o que fez, o que viu, o que experimentou... nessa mesma linha de idéias...

o resto são cinzas.


abração do

r.

Primeira Pessoa said...

prisca,
estive em seu espaço, aderi e curtiu o petardo cantado por bono vox e mary j... aquele belíssimo vozeirão....

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

janice,
às vezes penso coisas diferentes.
que tenho até medo de falar...
sou meio medroso, às vezes.

mas a verdade é uma só: eu gosto daqui.
gosto muito daqui.

abração do

roberto.

Amigos Virtuais! said...

Nossa!
Que texto lindo!
Teu blog é muito interessante!
Vem pra cá também e seja um dos meus amigos virtuais.
Cheiros
Eu! Leilinha

Dois Rios said...

És lindo, Roberto!
Basta assim.

Beijos,
I.

Anonymous said...

Que lindo texto, Roberto. Cronista de primeira, sim, e da crônica faz sua eternidade. Abração.

Fernando Campanella

líria porto said...

cadê-te????

Primeira Pessoa said...

aqui, liroca. não me vê?

Primeira Pessoa said...

fernando,
suas fotos são pura poesia.

beijào do

r.

Primeira Pessoa said...

leilinha,
seja bem vinda entre os meus.
a casa é sua.

abração do
roberto.

Primeira Pessoa said...

inês,
o Dois Rios é um de meus blogs favoritos, sabia?
saudades de te ler por aqui.

beijão do

r.