Monday, October 22, 2012


Pequeno mapa do medo

 A ansiedade é a véspera do medo. O pavor, a ênfase.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em doença, uma péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza, desiluminada pela dor.
Sou defensor da tese de que, em doses homeopáticas, ele pode jogar a nosso favor.
Pode demarcar limites benéficos e, assim, nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho, que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de Motefobia de que tive notícia.
Ele viu uma borboleta – das criaturas de Deus, uma das mais belas – em uma aula de ciências e se assustou.
A mesma borboleta que um dia enfeitou a primavera e que pousou em flores.
Bela e colorida, vista bem de pertinho num microscópio, era um mostro horroroso, vestido de falsa alegoria.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito.
Ninguém é tão bonito. Ninguém!
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
Mas eu temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos medos, constataria, à medida que molhava meus pés na água. Ela tem mais medos do que certezas, concluí.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião. Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo do elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias civil e militar.
Medo do ladrão e de quem se parece com um.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um.
Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir pro inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu pontiagudo tridente.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo de se libertar.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
Mas existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, não existe medo pior.
 
 
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24 comments:

Tania regina Contreiras said...


Beto, maninho querido, você foi oportuníssimo e competente e sensível na escolha do tema e na forma (sempre) como coloca as palavras. Sim, são tantos medos (lembrei da Déa e o medo da borboleta), tantos e tantos, dos quais precisamos nos libertar, e sem dúvida o maior deles é o de ser feliz. O medo de amar verdadeiramente está embutido aí. E como esquecer o outro Beto (Guedes), com o seu "o medo de amar é é o medo de ser livre para o que der e vier....". Tenho me trabalhado, me esforçado muito para perder o medo de ser feliz e tenho dado alguns passos nessa direção. Amei a crônica e a sua volta em alto estilo.

Beijos,

Moacir Willmondes said...

Aceito o recibado, pois concordo com a tese...

Ótima semana para você!

Índigo said...

Me alegro de tu vuelta. Tal vez ya volviste antes... No estoy segura. En todo caso, hoy sólo vengo para decirte eso: me alegro de volverte a leer por aquí. No tengo tiempo de más... pero quería estar aquí, hoy. Besos en añil, Roberto.

Dois Rios said...

Voltaste em grande estilo, Roberto!

Que bom!

I.

Wilson Torres Nanini said...

Tanto medo, meu amigo!

Se eu fosse enumerar os meus medos...

Mas de ser feliz eu não tenho medo não, irmão! Eu agarantio!

Abraços!

Verso Aberto said...

estiquei um pouco mais o fio que você puxou
nossa
quantos medos nos cercam Beto

da verborragia à verbofobia
precisamos nos libertar da biofobia

"Gente que ser feliz
Gente quer respirar ar pelo nariz
Não, meu nego, não traia nunca
Essa força não
Essa força que mora em seu coração" - Caetano

forte abraço mano

Primeira Pessoa said...

marquinho,
tenho medo de injeção e de gente maldosa, lobo travestido de cordeiro.
desses, eu me pelo de medo... e caio na capoeira, correndinho, que só....

gordim, como eu tô, seria (e sou) presa fácil.

estive com o bispo em bh na semana passada.
falamos de você.
falamos com saudade de você.

e o livro ficou pra 2013. vai ser mais que pefeito e você tá dentro.

dentríssimo.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

nanini,
cê ja escutou falar do caboquim d'água?
seo aristides, vizinho meu e de bispo filho em são raimundo, e cabo da puliça (essa sua e de meu pai, seo totoca)... pois bem, ele, seo aristides, apareceu todo arranhado em casa, vítima do coboquim... e sem vários tufos do já ralo cabelo...

o mistério foi elucidado, algum tempo depois.
chamava-se zilda, o caboquim... e era a mulher mais braba da zona boêmia da vila isa, bairro vizinho...
o cabo véio não quis pagar pelos serviços prestados e ficou no prejuízo...rs
e o caboquim d'água levou a fama...

abraço bederente desse seu amigo,

o roberto.

Primeira Pessoa said...

ah,
inês...

to que nem a dilma, decidio retomar minhas coisas...

meu blog, minha vida.

memo que eu sofra e tropece nete início, acho que vai dar certo. sempre fui muito otimista, nesta vida.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha, ainda que seja por um segundo...
quando você sai, fica tudo muito azul.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

moacir,
este blog (e todas as teses de botequim) já é teu.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

todas as TESES, moacir...rs

Primeira Pessoa said...

taninha, minha maninha...
se você soubesse de mim, dos caquim que eu ando... se você soubesse...
ah, maninha, se você soubesse...

mas, sim, eu voltei,claro.
eu voltei.
to aqui.

beijos,
r.

Dois Rios said...

Se fazes falta pra gente, imagino, então, pra tua vida, meu querido Roberto! Abrir parênteses "vezenquando" é necessário, mas o texto precisa ser concluído , né mesmo?

Bem-vindíssimo!

Beijo,
I.

Primeira Pessoa said...

vezensempre...
será que seria isso, Inês?
pode ser que sim.
mas guimarães rosa matou a charada e nem é de hoje: "o que a vida quer da gente é coragem".
coragem pra se ser, coragem pra mudar de opinião e, principalmente, coragem pra se contentar, pra se enfelizar, se é que palavra e tal estado de alma existem pra gente se benzer.

beijão,

r.

Andrea de Godoy Neto said...

ah, como disse a Tânia, eu tenho medo de borboleta... e foi a primeira coisa que me prendeu no texto...rs (já não é o pavor de antes, mas tenho medo sim, de borboletas e seus parentes)

tenho medo de injeção e de dentista - e olha que o meu é um lindo e querido.

tenho medo de ficar perdida dentro de mim e não achar a saída, por isso, me ensinou ariadne, prendo sempre um fiozinho na beira dos meus abismos

tenho medo de desacreditar tanto dos outros, que passe a pensar que as pessoas não valem a pena - esse é um grande medo

tenho medo de me tornar indiferente, ou forte demais, e me fazer outra coisa que não gente

tenho muitos medos.
Não tenho medo da morte, nem da vida, nem de céu ou inferno. Não tenho medo de ser feliz, nem de ser triste.
tenho medo de ser covarde, talvez por isso me lance sempre aos precipícios...

Bom te ver por aqui, beto.
linda crônica.

um beijo

Tatiana said...

Pessoa, o que é a coragem, se não o medo que foi na frente?

Welcome back!!

Primeira Pessoa said...

pode ser, tati... pode ser...
mas nem isso saberei explicar, o sentido vetorial do medo...rs

bom mesmo era ov elho guimarães rosa, que assumia não saber de nada, mas desconfiava de muita coisa...



beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

dea,
fiquei muito feliz de te ler no meu blog. muito mesmo.
você e taninha (junto com outras pessoas) são as grandes "culpadas" pela existência deste blog, já que foram vocês a me incentivar naquele início das coisas.

eu não sabia que pessoas poderiam ter medo de borboleta, até ser informado disto na semana passada.
"ainda se fosse de besouro", pensei que meus botões...

essas crianças nos passam lições fabulosas e, se prestarmos atenção, podemos até aprender com elas.
a imagem da borboleta (linda!) vista de longe é o oposto do que se vê de seu rosto, bem de pertinho.

não fique tanto tempo sem voltar por aqui, tá?

beijoca do

r.

Lara Amaral said...

Para cada passo que resolvermos dar sem medo, sempre existirão os passos do outro, que nos chegará censurando, perguntando de que mundo destemido somos nós.

Beijo, Roberto.

Primeira Pessoa said...

larinha,
ainda não somos senhores de nossos medos.
no outro dia, eu até pensei que seria maravilhoso se nós pudessemos comprar o nosso medo e, após sugá-lo enquanto houvesse tutano, desligá-lo de nossas vidas como quem joga fora o bagaço de uma laranja.

ou, como algumas pessoas fazem conosco. sacumé?


beijão, minha sobrinha.

r.

Eckhartianum said...

Caro Roberto,

Excelente mapa deste que Thomas Hobbes dizia ser seu irmão gêmeo.

Meu abraço,

Matheus.

PS: Também escrevi sobre o medo e vejo, ao te ler, que somos solidários nisso.

http://cronicasexilicas.blogspot.com.br/2012/09/eu-que-nao-sei-quase-nada-do-mar.html

Primeira Pessoa said...

matheus,
aprendi que, se o menino não é senhor dos seus medos, muito menos o será o homem.

no que lhe respondo, brota uma frase: o menino é a véspera do homem.
o medo é o cobertor que desagasalha os dois.

vou ler o seu texto.
sua presença aqui é motivo de alegria.

abração do

r.

Janice Adja said...

Tenho medo de muitas coisas, uma delas nem sei dizer se tem nome. Tenho medo de ficar ouvindo a voz humana sem saber de onde vem ou que fala. Só sei que tenho medo mesmo sabendo depois de saber quem fala. Eu tenho medo de não ver quem está falando.
Acho que o mais comum dos medos, é o medo de Deus. Se faz tanto terror que acabamos com medo daquele que deveríamos ter afeição, pois castra o desejo lutar para o encontro da felicidade.
Beijos!!!