Tuesday, October 30, 2012

peixes fora d'água...


nós, que respiramos nesta região deste hemisfério ficamos assim, como este barco, após a passagem do furacão, na noite de ontem.
e hoje foi dia de reagrupar, de contar os mortos e olhar além.
felizmente,
amanhã começa um dia novinho em folha e eu prometo fazer a minha parte.
quero escrever um novo capítulo a partir deste marco zero e, sem ressentimentos ou choramingos, tecer um texto branco como a flor de fibra que, em algum lugar,  desabrochou hoje da semente do algodão.
sobrevivi.
estou aqui para contar.
e não estou sozinho.

beijão do

r.

foto da associated press: barco arrastado até trilho de trens em Ossining, Nova York

Monday, October 29, 2012

Quem tem c* tem medo...


Sandy acaba de chegar à terra, chegou estremecendo Atlantic City.
Vou desligar isto aqui e me aquietar um pouco.
Assim que a "poeira" baixar e se ainda tiver energia elétrica na casa, venho aqui dar um alô.

Só pode ser Photoshop....

 
Olho da minha janela e tá tudo escuro...
eu, hein!!!

Como eu não tenho mais Facebook...


Vou usando o bloguim para me comunicar com meus amigos.
João Vianna, amigo querido de Newark, mandou-me há pouco este "sinal"...
E eu "cometi" uma fritada de pastéis, que ficou até mais ou menos...

 
Melhor que pastel de carne, só pão com linguiça.
Neste meio tempo, as autoridades fecharam dois dos túneis de acesso a Nova York, e a cidade vizinha à minha já está sem energia e gás. No furacão irene, bem mais brando, algumas cidades chegaram a ficar 5 dias sem luz e gás. O jeito é esperar.
Enquanto tiver luz por aqui, vou postando por aqui...

Sandy ainda não chegou... Só chegará em aproximadamente 5 horas...mas já faz um tremendo estrago

Sea Bright, NJ


Sea Bright, NJ


Cape May, NJ


Queens, bairro de Nova York onde vivem muitos brasileiros



Sandy já dá o ar de sua desgraça


Ainda nem chegou direito, mas o inferno já começou.
Estou fechando o escritório e liberando o pessoal. Serão 24 horas de muita apreensão e medo.
Voltaremos amanhã.
Em 25 anos de atividade, nem nas piores nevascas eu fechei o Brazilian Voice.

* Imagem de casa em Toms River-NJ, por volta de 11 hoaras da manhã de hoje (29 de outubro).

Thursday, October 25, 2012

20 Poemas Recitados na Casa de Fernando Pessoa


Al Berto, um dos maiores poetas da língua portuguesa de todos os tempos, dizendo poema na Casa de Fernando Pessoa, em Lisboa.

Wednesday, October 24, 2012



Cromo

andamos pelo mundo
experimentando a morte
dos brancos cabelos das palavras
atravessamos a vida com o nome do medo
e o consolo dalgum vinho que nos sustém
a urgência de escrever
não se sabe para quem

o fogo a seiva das plantas eivada de astros
a vida policopiada e distribuída assim
através da língua... gratuitamente
o amargo sabor deste país contaminado
as manchas de tinta na boca ferida dos tigres de papel

enquanto durmo à velocidade dos pipelines
esboço cromos para uma colecção de sonhos lunares
e ao acordar... a incoerente cidade odeia
quem deveria amar

o tempo escoa-se na música silente deste mar
ah meu amigo... como invejo essa tarde de fogo
em que apetecia morrer e voltar

Al Berto,
in 'Salsugem'


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Monday, October 22, 2012


Pequeno mapa do medo

 A ansiedade é a véspera do medo. O pavor, a ênfase.
Quando não domesticado, o medo pode se transformar em doença, uma péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza, desiluminada pela dor.
Sou defensor da tese de que, em doses homeopáticas, ele pode jogar a nosso favor.
Pode demarcar limites benéficos e, assim, nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira - de segurança.
Na infância eu tive um amiguinho, que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de Motefobia de que tive notícia.
Ele viu uma borboleta – das criaturas de Deus, uma das mais belas – em uma aula de ciências e se assustou.
A mesma borboleta que um dia enfeitou a primavera e que pousou em flores.
Bela e colorida, vista bem de pertinho num microscópio, era um mostro horroroso, vestido de falsa alegoria.
Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito.
Ninguém é tão bonito. Ninguém!
Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.
Mas eu temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.
Por isto nunca pescava sozinho.
Veio daí essa tendência gregária, esse hábito de só andar em bando.
A vida tem tantos medos, constataria, à medida que molhava meus pés na água. Ela tem mais medos do que certezas, concluí.
Medo da cuca, que vem pegar.
Medo de andar de avião. Medo de andar.
Medo de lugares fechados.
Medo do elevador despencar.
Medo de dirigir um automóvel.
Medo de entrar na multidão.
Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.
Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito.
Medo de seguir em frente.
Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias civil e militar.
Medo do ladrão e de quem se parece com um.
Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.
Temos medo de qualquer um.
Às vezes temos medo de nós próprios.
Medo. Muito medo.
Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.
Medo de Deus.
O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.
Medo de morrer e ir pro inferno.
Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu pontiagudo tridente.
Medo do fracasso.
Medo de broxar.
Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.
Medo de se libertar.
Medo da autonomia.
Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.
Tudo é medo, medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.
Mas existem muitos outros, comprova a ciência.
O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.
Posso garantir e passar recibo, meus amigos, não existe medo pior.
 
 
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