Tuesday, April 2, 2013

Homens como tigres de papel

 
 
Ela acha o chope da Kaizer ruim. Prefere o da Brahma.
Sim, ela é uma mulher que bebe chope.
E vai ao Mineirão - sempre que pode -, e torce pelo Cruzeiro.
Já lhe disseram que é atleticana e que ainda não sabe disto. Mas ela prefere não se explicar. Cansou-se de discussões que não levam a lugar nenhum.
Seu sangue é azul como o inigualável céu de suas Minas Geraes.
Nasceu no Vale do Aço.
Tem aço nas veias.
Ferros no coração.
Desfralda uma bandeira de Minas de seus lábios toda vez que fala.
O sotaque não nega: Libertas Quae Sera Tamem.
No recatamento, na forma como cruza as pernas, no jeito de andar e de existir, é toda Minas Gerais.
Parece franzina, pequenina, mas se agiganta nos momentos que a vida lhe exige isto.
Adora os Beatles, mesmo sem ter sido contemporânea do quarteto de Liverpool. Mas hoje acende velas para o U2.
Bono Vox é mais que um mito em seu caderno recheado de pessoas do bem. Ela prefere estas, às pessoas de bens.
Em seu caderno de mitologias, figuras como as do Dalai Lama, Chico Xavier, Betinho e São Judas Tadeu repartem um pedaço de pão, compartilham um chá...
Essa moça sabe separar o joio da jóia. Sempre soube.
Carrega um quê de irmã carmelita, o que explica certos tabus.
Certos receios.
Certas limitações.
O seu coração é generoso. Ela é emotiva.
Uma mulher que canta e dança e se emociona.
Mas que nos últimos tempos reaprendeu a chorar.
Chora durante filmes, assiste novela, é romântica, lê e faz parte de uma espécie em extinção: o das pessoas que lêem e apreciam poesia.
E ela reconhece poesia numa pedra do chão e nas pétalas de uma margarida.
Em algum lugar de sua casa ergueu um oratório para Carlos Drummond de Andrade. E outro para os iguais a Albert Einstein:
Um admirador lhe ofereceu, certa vez, uma estrela do céu. Ela aceitou.
Hoje sabe dizer o nome da constelação e em qual galáxia pulsa e brilha esta zelação.
Parte de sua vida é drama. A outra, genoma.
Ultimamente anda triste, esta moça.
Caminha com os olhos presos ao chão, está decepcionada.
Perdeu a crença nas pessoas e a esperança no amor.
Perdeu a esperança no Brasil.
Era petista de colar cartaz, mas a turma do presidente Lula tirou dela muito mais que a vontade de testemunhar - em vida - um governo feito por gente do povo.
Essa cambada de políticos que aí vemos, roubou dela o sonho e a fé na existência de um governo que não rouba e não deixa roubar.
E o seu amor pelo rapaz com quem um dia ela planejou construir uma casa no campo, diluiu-se na fraqueza desses homens de papel que habitam a superfície do século XXI.
A ver, vamos, dona moça...
A ver, vamos... ele diz.
Que Deus se apiede destes homens fracos das Minas Gerais.

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37 comments:

Dois Rios said...

Mas lá pelas Geraes ainda há homens que não roubam sonhos, que escrevem bonito e que curtem poesia e música das boas. Ainda há luz no céu de diamantes.

Beijos,

Tania regina Contreiras said...

Essa moça é encantadora. Acho que sim, porque você faz todas as moças tornarem-se encantadoras. E o escritor sabe fazer isso como ninguém. Mas creio em você. Que bom que essa moça existe e que alguém com tamanha sensibilidade possa falar sobre ela.

Beijos,beto.

Índigo said...

Una crónica sobre la poesía, sobre el desencanto, sobre el lirismo, sobre la lágrima, sobre la belleza, sobre lo que esa mujer de Minas Gerais va buscando, mientras se busca, o busca, se encuentra, o encuentra. Una crónica lírica, como todas las tuyas, de trozos que se dispersan en una búsqueda que ya no busca y que, sin embargo, nunca cesa. Y la realidad, que se incrusta y rasga más de una vez las venas. Me encantó.

Abrazo grande, Roberto.

Concha Rousia said...

Belo texto, embora com sua melancolia e sua tristeza que leva a moça mineira a reaprender a chorar, está excelente esta crónica, a realidade é sempre um bom material, né? mas conseguiste converter em literatura. Gostei muito, abraço.

Concha da Galiza

Adri Aleixo said...

Esse é de chorar um balde...

Meu abraço nessa moça.

Betina Moraes said...

Roberto,

essa aí passou a ser a minha Heroína! adorei a mulher tão possível e divinal que você descreveu (criou?), sem medo dos mitos, cirando em si própria a mitologia.

Um beijo.

Assis Freitas said...

segundo Millor: acreditar que não acreditamos em nada é crer na crença do descrer


abração broda

Rossana Masiero said...

Eu entendo tudo o que está sentindo essa moça.
Cronica bonita, Roberto.
Bjs

Rossana

Primeira Pessoa said...

rossana,
os sentimentos são universais.
só mudam as ruas e as casas.
e as pessoas dentro destas.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

zé de assis,
é como cê deve ter escutado lá em buenos aires:
"Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay "

abrazos...

roberto.

Primeira Pessoa said...

betina,
felizmente o mundo ainda tem muitas heroínas, pessoas capazes de nos emocionar.

abração do

roberto.

Primeira Pessoa said...

ô, adriana...
como diria o Arthur Hamilton...
Cry me a River...

beijão,
r.

Ira Buscacio said...

Posso ser a dona moça?!

A certeza dessa vida me encanta

crônica bela de boniteza e melancolia
bj grande

byTONHO said...



"Esperança Lima é o nome dela?"

Uma linda mulher a espera de um mundo possível!

:o)

eurico portugal said...

robertílimo,
e eu que pensei que esta mulher assim tão mulher, esta mulher-mulher, existisse apenas nos sonetos de camões ou de petrarca. há vida para além das páginas e do olhar que as lê, seguramente (ainda que tenhamos a fatal tendência para o esquecer amiúde), vida que talvez se escreva com a tinta azul desse teu coração enorme de minas gerais!

um abraço amigo!

Mary Yamin said...

Essa moça é brasileira, não só mineira..

Refletiu o universo atual das mulheres desse país..

Sensível demais. Cê tá pior que o Chico Buarque para alma feminina

Beijão da Mary

Andrea de Godoy Neto said...

tão bonita crônica...

e essa mulher, espelho de tantas mulheres que aprendem a fazer origamis para lidar com seus tigres de papel, depois os penduram num móbile para que a memória não esqueça, e para que sirvam para alguma coisa, nem que seja enfeitar a janela num dia de pouco vento.

beijo

Primeira Pessoa said...

ô, inês,
você, como sempre, muito querida, muito gentil.
em minas os homens parecem ser mais mansos, e as mulheres mais cheias de fibra.
mas o brasil é grandioso. tem gente assim e assado, do oiapoque ao chuí.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
esta cronica tem mais de 15 anos, sabia?
é uma das poucas que consegui resgatar após ter perdido mais de 20 anos de crônicas no Brazilian voice, numa destas panes de computador que enlouquecem a gente.

já a republiquei algumjas vezes, sempre tirando alguma "gordurinha".
daqui a pouco, só sobra o título.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

dea,
como disse pra taninha, trata-se de uma croniqueta bem antiguinha, que surgiu a partir de um desafio feito por Roberto Drummond, que era de ferros (Santana dos ferros...)...

fico feliz que tenha agradado.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

mariângela,
é claro que esta moça é universao.
como o são os moços covardes.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

eurico,euriquíssimo,
quando você for a minas comigo, conhecerá mineiros e mineiras.
e sera um de nós.
voltar para braga sera um problema.
esperando por você tem uma camisa dez, do cruzeiro, e um prato de pão de queijo.

bora lá???

abração,
r.

Primeira Pessoa said...

mulher de la mancha,
digamos que esta seja a mulher universal.
como as mulheres azuis do conto A Morte de DJ em Paris (vou ver se lhe consigo este livro).

grande abraço do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

concha rousia,
poeta de Europa frança e Bahia...
o que seria da poesia sem a melancolia?

beijo grande do
Roberto.

Primeira Pessoa said...

ira,
mas é claro que cê é a dona moça.
este é o grande barato do universo das palavras.
a gente se veste delas, como se provasse um vestido bonito, elas, um terno bem cortado, eles.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

tonho,
já pensou se o mundo fosse um lugar perfeito?
ja pensou que bom que seria?

dor, só para os masoquistas...rs

beijão do seu amigo

r.

Tatiana said...

Com toda essa prenda, logo a moça vai encontrar um homem feito leão que a mereça.. Até lá, se distrairá com livros, pão de queijo, doce de leite, e uma boa galinha com quiabo - que cura como canja! Quicá nesse interim o Cruzeiro não volta a ser campeão? :)
Já o PT.. Bom, alguma decepção temos que levar para sempre, né?

Sônia Brandão said...

Essa parece mineira de corpo e alma. Mas também pode ser mulher de um lugar qualquer.
Bela crônica, Roberto.
bj

eurico portugal said...

robertílimo,
minas é já uma parte do meu minúsculo, quase impercetível, mundo. porque somos tudo o que aqueles de quem gostamos são. quanto à camisa 10, a do craque, essa já a tens tu no dorsal - aliás, comigo combina melhor a 3 ou a 4, que sou daqueles que jogam cá atrás a dar pau na bola -, mas do pão com queijo, ai disso não abdico. e braga pode seguramente esperar.

abracílimo, amigo de tantos lugares!

Parole said...

Enquanto faz uma bela descrição das moças da sua terra, vai contando um pouco da cultura e das raízes de Minas.Raízes fortes... Deve ser por isso que nunca conheci nenhum mineiro.rs

Gostei muito.

Beijinho.

Primeira Pessoa said...

Parole,
tão bom registrar sua presença aqui, entre os meus.
uai, cumé que cê não conhece nenhum mineiro? você diz aí no sul?
aqui nos eua tá cheím deles...rs


beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

euriquíssimo,
lembrei-me muito de ti, hoje.
é que anunciaram um novo livro de fotos do sebastião salgado...
e já estou no encalço.
aguarde-me.

abraço deste teu irmão bracarense fora de braga, o

r.

Primeira Pessoa said...

claro,
sônia... concordo com você:
o brasil tem destas moças do oiapoque ao chuí.

sua presença aqui, sempre um luxo pra mim.

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

To, tati,
fui lendo sua mensagem com a alegria de sempre, mas na parte do Cruzeiro campeão, quase dei um pulo da cadeira.
onde é que eu assino? rs
me perdoe pela demora na resposta. é que ando correndo atrás da vida.

beijão,
r.

Índigo said...

Mujeres azules de cuento... si lo consigues, estupendo. Gracias, Roberto.

Primeira Pessoa said...

estou tentando, Indigo...
e vou conseguir.

beijão,
r.

Índigo said...

Y yo que me alegro. Abrazo grande, Roberto.