Sunday, July 14, 2013

O Mito (Leia o poema, escute na voz de Drummond)


Sequer conheço Fulana,
 vejo Fulana tão curto
 Fulana jamais me vê,
 mas como eu amo Fulana.

Amarei mesmo Fulana?
 ou é ilusão de sexo?
 talvez a linha do busto,
 da perna, talvez o ombro.

Amo Fulana tão forte,
 amo Fulana tão dor,
 que todo me despedaço
 e choro,menino, choro

Mas Fulana vai se rindo...
 Vejam Fulana dançando
 No esporte ele está sozinha
 No bar, quão acompanhada.

E Fulana diz mistérios,
 diz marxismo, rimmel, gás.
 Fulana me bombardeia,
 no entanto sequer me vê.

E sequer nos compreendemos,
 É dama de alta fidúcia,
 tem latifúndios, iates,
 sustenta cinco mil pobres,

Menos eu... que de orgulhoso
 me basto pensando nela
 Pensando com unha, plasma,
 fúria, gilete, desânimo.

Amor tão disparatado,
 Desbaratado é que é...
 Nunca a sentei no meu colo
 nem vi pela fechadura.

mas eu sei quanto me custa
 manter esse gelo digno,
 essa indiferença gaia,
 e não gritar: Vem, Fulana!

Como deixar de invadir
 sua casa de mil fechos
 e sua veste arrancando
 mostrá-la depois ao povo

tal como é, ou deve ser:
 branca, intacta, neutra, rara,
 feita de pedra translúcida,
 de ausência e ruivos ornatos.

Mas como será Fulana,
 digamos, no seu banheiro?
 Só de pensar em seu corpo,
 o meu se punge...Pois sim.

Porque preciso do corpo
 para mendigar Fulana,
 rogar-lhe que pise em mim,
 Que me maltrate... Assim não.

Mas Fulana será gente?
 Estará somente em ópera?
 Será figura de livros?
 Será bicho? Saberei?

Não saberei? Só pegando,
 pedindo: Dona, desculpe,
 O seu vestido esconde algo?
 tem coxas reais? cintura?

Fulana às vezes existe
 demais: até me apavora.
 Vou sozinho pela rua,
 eis que Fulana me roça.

Olho: não tem mais Fulana.
 Povo se rindo de mim.
 (Na curva do seu sapato
 o calcanhar rosa e puro.)

E eu insonte, pervagando
 em ruas de peixe e lágrima
 Aos operários: a vistes?
 Não, dizem os operários.

Aos boiadeiros: A vistes?
 Dizem não os boiadeiros.
 Acaso a vistes, doutores?
 Mas eles respondem: Não!

Pois é possível? pergunto
 aos jornais: todos calados.
 Não sabemos se Fulana
 passou. De nada sabemos.

E são onze horas da noite,
 são onze rodas de chope,
 onze vezes dei a volta
 de minha sede; e Fulana

talvez dance no cassino
 ou, e será mais provável,
 talvez beije no Leblon,
 talvez se banhe na Cólquida;

talvez se pinte no espelho
 do táxi; talvez aplauda
 certa peça miserável
 num teatro barroco e louco;

talvez cruze a perna e beba,
 talvez corte figurinhas,
 talvez fume de piteira,
 talvez ria, talvez minta.

Esse insuportável riso
 de Fulana de mil dentes
 (anúncio de dentifrício)
 é faca me escavacando.

Me ponho a correr na praia.
 Venha o mar! Venham cações!
 Que o farol me denuncie!
 Que a fortaleza me ataque!

Quero morrer sufocado,
 quero das mortes a hedionda,
 quero voltar repelido
 pela salsugem do largo,

já sem cabeça e sem perna,
 à porta do apartamento,
 para feder: de propósito,
 somente para Fulana.

E Fulana apelará
 para os frascos de perfume.
 Abre-os todos: mas de todos
 eu salto, e ofendo, e sujo.

E Fulana correrá
 (nem se cobriu; vai chispando)
 talvez se atire lá do alto.
 Seu grito é: socorro! e deus.

Mas não quero nada disso.
 Para que chatear Fulana?
 Pancada na sua nuca
 na minha é que vai doer.

E daí não sou criança.
 Fulana estuda meu rosto.
 Coitado: de raça branca.
 Tadinho: tinha gravata.

Já morto, me quererá?
 Esconjuro se é necrófila...
 Fulana é vida, ama as flores,
 as artérias e as debêntures.

Sei que jamais me perdoara
 matar-me para servi-la.
 Fulana quer homens fortes,
 couraçados, invasores.

Fulana é toda dinâmica,
 tem um motor na barriga.
 Suas unhas são elétricas,
 seus beijos refrigerados,

desinfetados, gravados
 em máquina multilite.
 Fulana, como é sadia!
 Os enfermos somos nós.

Sou eu, o poeta precário
 que fez de Fulana um mito,
 nutrindo-me de Petrarca,
 Ronsard, Camões e Capim;

Que a sei embebida em leite,
 carne, tomate, ginástica,
 e lhe colo metafísicas,
 enigmas, causas primeiras.

Mas, se tentasse construir
 outra Fulana que não
 essa de burguês sorriso
 e de tão burro esplendor?

Mudo-lhe o nome; recorto-lhe
 um traje de transparência;
 já perde a carência humana;
 e bato-a; de tirar sangue.

E lhe dou todas as faces
 de meu sonho que especula;
 e abolimos a cidade
 já sem peso e nitidez.

E vadeamos a ciência,
 mar de hipóteses. A lua
 fica sendo nosso esquema
 de um território mais justo.

E colocamos os dados
 de um mundo sem classes e imposto;
 e nesse mundo instalamos
 os nossos irmãos vingados.

E nessa fase gloriosa,
 de contradições extintas,
 eu e Fulana, abrasados,
 queremos... que mais queremos?

E digo a Fulana: Amiga,
 afinal nos compreedemos.
 Já não sofro, já não brilhas,
 mas somos a mesma coisa.

(Uma coisa tão diversa
 da que pensava que fôssemos.)


* Carlos Drummond de Andrade


5 comments:

Tania regina Contreiras said...

Sempre uma emoção ouvi a voz do Drummond em poemas seus. Ouvi novamente agora e, nossa: eu vejo tantos senhores com o rosto do poeta nas ruas, mas não lhe ouço a voz, o poema. Adorei o post, Beto.

beijos,

lectorwall said...

Gostei muito de ler e escutar este poema. A nossa procura parte sempre de um mito.
Cptºs

dade amorim said...

Ele é incrível, não é?
Capaz de fazer um poema desse tamanho, que não nos cansamos de ler e ouvir - tão real!

Abração, R.

Pólen Radioativo said...

Fulana passeia em cada um dos meus desejos, Roberto.
Eu tenho um caso de amor com esse poema.

Um beijo!

eurico portugal said...

o mito: síntese perfeita entre utopia e distopia!

abracílimo, amigo de meus setembros!

p.s. acaba de chegar um presente de são paulo; hoje de tarde espero fazer a foto prometida num cenário escolhido a dedo :) nossa maggie estará comigo!