Saturday, October 26, 2013

Porque hoje é quinta

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Acordei no horário de sempre, preparei café e parece que algo está acontecendo à minha volta. Tem sempre alguma coisa acontecendo, não é mesmo?
Mas hoje é quinta-feira e nada de importante - ou maior - acontece nas quintas-feiras.
Roberto Drummond escreveu que este é o dia mais neutro da semana.
Tão neutro, que poderia ser riscado do calendário e ninguém daria por sua falta.
Ninguém presta atenção nas coisas, às quintas-feiras.
Ninguém faz vigília.
Ninguém fica de prontidão.
Ninguém dá plantão.
É o dia propício para o crime perfeito ou para a fuga do inferno, porque ninguém estará atento.
Ninguém nasce, ninguem morre numa quinta.
Ninguém adoece, ninguém se cura.
A dor fica dormente.
A alegria anestesia-se.
E a felicidade se exila num outro código postal.
É quando as cartas importantes extraviam ou são entregues em endereço errado.
Perceberam que nenhum feriado cai numa quinta?
E ela chega sempre um dia depois das cinzas do carnaval.
Chega sem alegoria, sem enredo, sem fantasia, nem samba no pé.
Não existem golpes de estado neste dia.
As rebeliões se aquietam.
Os motins dormem numa rede.
Não conheço uma única flor das quintas-feiras.
As árvores não farfalham, o vento não venta e o mar desencrespa.
O vulcão arrefece.
Não existem feiras, nas quintas.
O amor não se reconhece no espelho e o ódio abranda.
Ninguem se casa entre a quarta e a sexta.
A areia movediça se firma enquanto o luar também clareia a lama.
E ninguém é engolido.
Ninguém vomita.
Ninguém tem taquicardia.
( o coração mente quietudes).
E, aí, é seguro dizer que ninguém se entope de barbitúricos.
Ninguém dança um bolero. Ninguém rodopia no salão.
Ninguém vende a salvação. Ninguém se salva.
(Até mesmo porque ninguém se salvará).
Ninguém sabe da missa um quinto, na quinta, posto que não existe missa neste dia.
Ninguém canta, ninguém ora, ninguém chora as suas amargas pitangas.
Isto tudo, porque, nas quintas-feiras, Deus e o diabo descansam dentro da gente.
E a gente nem percebe, porque nas quintas-feiras as coisas se desapercebem de nós.

12 comments:

Wilson Torres Nanini said...

Roberto, espero nunca perder a sensibilidade para detectar as nuances de cada dia da semana. A quinta-feira tem algo de suspenso, estranho, desprovida de charme. O melhor período? A manhã de domingo (restos de sábado, missa, almoço): um ressarcimento antecipado pela melancolia da tarde dominical.

Fortíssimo abraço, meu querido amigo!

Ingrid said...

ótima leitura...
para refletir ..e reler..e reler..
abraço.

Tania regina Contreiras said...


Será por tudo isso que gosto tanto das quintas? :-)

Muito boa a crônica e a quinta...

Beijos, Beto.

Indigo Horizonte said...

La leía en tus Meninos... pronto una crónica tuya y un poema de Bispo en castellano en mi horizonte. No os diré cuáles. Tendréis que esperar para leerlos, o mejor dicho, releerlos, pero en castellano. Un abrazo a ti y a él, con el corazón y la peonza en la mano.

lectorwall said...

Gostei de ler. Quinta-feira inexistente - o dia dos mortos, da ausência.

jorge pimenta said...

parafraseando (a adaptando) antónio lobo antunes: não é quinta-feira quem quer :)

abracílimo, roberus augustus de uma bracara que é todos os dias da semana!

p.s. os meninos devem continuar a girar mais depressa e para mais lugares do que todos os piões do mundo juntos, verdade? estou a aguardar novas dessa ítaca de tantas viagens.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
cheguei ontem do brasil, daí a demora. nossa pequena tour de lançamento Meninos de São Raimundo foi muito boa e terminou em grande estilo, na Casa das Rosas, em São Paulo, um lugar emblemático para a literatura brasileira.
falei de você, lá, falei de Tibães (e me emociono novamente, aqui, ao te escrever, agora)...
renasce uma urgência de estar junto aos Padron, aí, aqui, ou onde o destino escolher.

abraços deste seu irmão lá das montanhas mineiras, o

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Indigo,
mandarei ao Leo Minax a sua versao em espanhol da crônica.
farei uma proposta indecente a ele.

me aguarde.

beijao

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
é procê que eu escrevo.
me aguarde, to entrando numa fase muito legal e cê continua musa.

bneijão,

r.

marlene edir severino said...

Roberto,

é meu dia preferido! Passa incólume.
Nos meandros dessa inadequação.
E gosto. Também da tua crônica.

Beijão!

Dois Rios said...

Adorei a tua crônica, Roberto! Nunca tinha "olhado" as quintas-feiras por essa prisma, rs. Se nada acontece nesse dia, pelo menos ele tem algo de bom: é vespera da sexta. Isso sem levar em conta que há dias, como hoje (segunda), por exemplo, que eu me sinto a própria quinta-feira, rs.

Acho que agora estou em dia com os comentários. Só volto a fazê-los depois que responderes um a um, rs.

Beijos

Fernando Campanella said...

Nas quintas há sopro neutro, os extremos se anulam. Não há o fogo, nem o gelo. Somos como árvore à beira do rio nas quintas: as águas passam, passam, e a imobilidade do céu, do azul do céu, dá o tom. Abração, meu querido amigo.