Monday, November 11, 2013

Papoulas de Kandahar


(Para Tavares Dias)

Como na letra de Trocando em Miúdos (Chico Buarque), nós caímos na armadilha da mesquinhez e passamos a não abrir mão do disco de Pixinguinha e a exigir a devolução do Neruda que o outro não leu.
E o que era “meu bem” passou a ser “meus bens”.
Até aquela canção que fazia o coração bater mais rápido e arrepiava a pele , já não toca mais no rádio.
Ela já não lhe “toca”.
E nunca mais tocará.
E se tocar, por engano, dedos ágeis mudarão a estação.
Nossos ouvidos ficaram  moucos, pois o desamor provoca a surdez e a cegueira, e extermina sumariamente todos os sentidos que despertam a felicidade nos seres humanos.

O que resta depois do “não dá mais” é esta mistura de desassossego e paz.

Paz, porque já não temos mais que conviver com os defeitos e imperfeições  do outro.
Desassosego, pela falta das essenciais virtudes que o outro tem e que nos completaram até aqui.
Ou, porque o amor (ou o seu fim) é como um leito de rio e sua relação essencial entre terra e água, com sua urgência de completude.
É assim que ele desassossega o homem e a mulher.

E quando o sentimento de pesar alia-se ao desmedido medir   - custo/benefício - de emoções e afetos, posicionamentos e coisas materiais, tudo se enfeia.
É neste momento que descobrimos o quanto é mesquinha a alma do outro.
É quando nos sentimos tão injustiçados, que nem percebemos que o outro descobriu exatamente o mesmo a nosso respeito.

Depois que baixa a poeira e faz aquele silêncio pós grande explosão – e, imagine-se aqui um cogumelo atômico – dentro de nós cantará um grilo, uma cigarra, ou uma gralha se esganando na distância.
E tudo doerá.
Descobriremos a nossa vocação para Hiroshima e tudo que nos diz respeito ficará contaminado para sempre.
Como ficaram os pelicanos do Golfo do México e as papoulas de Kandahar.
E é assim, maculados, que permaneceremos juntos às uvas de Chernobyl e as inocências roubadas de Columbine, até o fim.
As linhas do destino na palma da mão de ambos se transformarão em cicatrizes invisíveis, que o olho nu da cigana já não conseguirá ler.

O futuro ruiu.
Tudo erodiu.
Já foi.

Mas restaram estes botões de rosa nas mãos sujas de um menino sobrevivente do massacre da Candelária.
Ficaram estes ratos roendo por dentro, como se tivéssemos uma úlcera na alma.
A partir de agora passou a ser cada um por si.
E o diabo por todos.

19 comments:

Tania regina Contreiras said...


Ai, acho tão triste as relações terminarem assim! :-( Bem, mas é bem assim que a maioria termina. Gosto mesmo é da poesia que retrata o que dói com beleza. E tu bem sabe fazer isso: o belo, o alegre, fica esplendoroso, com a sua pena, e o feio,triste, vira lirismo, e a gente acaba se perdendo nessas águas que, se eram para ser turvas, tornam-se límpidas. Coisas de quem é alquimista! :-)
Beijos, Beto.

Adri Aleixo said...

Este é sem dúvida seu melhor texto.
Gosto muito dele.
Ele sempre me vem à mente.

Beijooo

Batom e poesias said...

Quando apesar da feiura de medir-se os custos-benefícios, decide-se sublimas, fechar os olhos e habitar as ruínas.

Lindo texto. Denso e tenso.
Bjs

Rossana

Ana Cecilia Romeu said...

Moço simpaticão das Gerais,
Roberto,
venho aqui porque você me chamou, tô meio fora estes dias dessa coisa chamada "blogosfera", mas cê chama, venho.
Quando eu postar, te chamo também, tá bom? Vai ser ainda em novembro.

Como disse o poeta: "o amor é a coisa mais triste quando se desfaz", ... e o mais triste mesmo é quando se desfaz e ainda existe amor, e a coisa fica e fica... já passei por isso, Roberto, e só alguns quilos de dulce de leche uruguaio para curar: meu melhor psicólogo :)
E que do amor, sobre o humor, não o rumor.

Beijos e te cuida! Boa noitchê!

Ana Cecilia Romeu said...

Moço simpaticão das Gerais,
Roberto,
venho aqui porque você me chamou, tô meio fora estes dias dessa coisa chamada "blogosfera", mas cê chama, venho.
Quando eu postar, te chamo também, tá bom? Vai ser ainda em novembro.

Como disse o poeta: "o amor é a coisa mais triste quando se desfaz", ... e o mais triste mesmo é quando se desfaz e ainda existe amor, e a coisa fica e fica... já passei por isso, Roberto, e só alguns quilos de dulce de leche uruguaio para curar: meu melhor psicólogo :)
E que do amor, sobre o humor, não o rumor.

Beijos e te cuida! Boa noitchê!

Ana Cecilia Romeu said...

Simpaticão,
voltei para deixar um presente daqueles... de fossa, muita fossa, mas bem latina, como gosto :)
Beijos de até!

Neste link, espero que goste:
http://www.youtube.com/watch?v=4kNpWJH1viQ

Boa noitchê!

Indigo Horizonte said...

Yo sé de ese dolor del que hablas porque lo he vivido. Yo sé de ese desgarro en las manos del alma, de esa pérdida infinita, de ese dolor dolorido... de ya no ser dos sino uno, solo uno, de que todo se vaya al diablo, hasta uno mismo pero, alma cándida que soy, aunque sigo siendo sola y una, tengo la gran, la gran suerte, de seguir siendo niña, menina, de seguir siendo inocente, de seguir emocionándome, de seguir amando, aunque esté sola, soliña, de seguir siendo una y muchos. El amor, el de verdad, no lo mata nadie porque te abrasa por dentro aunque no haya nadie concreto para recibirlo. Doy fe de eso, Roberto, pero ya sabes es que, aunque vaya camino de los 50, nací mujer y moriré niña. Un abrazo enorme, pero ENORME.

Paulo Jorge Dumaresq said...

Bob, para quase tudo isso que relataste no texto, nascemos.
Porquanto somos humanos, imperfeitos, medíocres e recalcados. Mesmo com toda a desgraceira do mundo, ainda nos encantamos com textos desse quilate.
Parabéns e aquele abraço da Esquina da América.

Lídia Borges said...


"O futuro ruiu.
Tudo erodiu.
Já foi."

É uma crónica que vai ficar "a roer por dentro", pode crer.

Li o "Meninos de São Raimundo".
Bonito, mesmo! Meninos de muitos lugares.

Um beijo

Primeira Pessoa said...

Lidia,
depois voce dá uma olhada na crônica anterior a esta, aqui no PP.
Foi um dos presentes que Braga me deu.

Beijo grande do

R.

Primeira Pessoa said...

Paulo peta,
imperador da esquina do continente e arredores.
hoje eu tava escutando Aqualung, do jetro thull e me lembrando de você.

um dia destes aí tomamos um chope no bardallos.

abração do seu amigo mineiro

r.

Primeira Pessoa said...

indigo,
Fernando sabino, grande escritor mineiro (escrevia cronicas maravilhosas, bem como romances e contos) tem uma crônica especialíssima em que ele diz que, em sua lápide, quando morresse, escreveria: nasci homem, morri menino.

ameninou-se, o nosso Fernando.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

curtiu demais o maná, simpaticona ana cecília...rs
ja conhecia a banda de outros carnavais, fazem sucesso aqui na comuna latina dos eua.

valeu demais.

beijos,

r.

Bell R said...

Filme que todos de alguma maneira verão,viverão e talvez ainda alguns poucos conseguirão segurar nas mãos rosas brancas por mais tempo sem explosões,ouvir Chico, Pichiguinha ou ate mesmo reler Neruda. Perceber ainda o sabor de uma poesia a dois! Lindo texto Roberto.Senti dor, saudades não sei do que ou de quem !Emocionei como sempre, com a sensibilidade do grande escrevinhador que você é!Grande menino de são Raimundo, gosto de ler você! Beijo no coração e luz!

Verso Aberto said...

uma dor
aquela dor
em que tudo
para sempre
doerá

caraca, que saudade do Tavares

MA FERREIRA said...

Real a triste o tema que voce com toda sua sensibilidade escreveu.
Nessas horas o ser humano mostra o seu lado mais mesquinho, talvez por orgulho...
Nem me sinto a altura para comentar. Parabéns por mais esta bela crônica.
Mas te lendo, me veio a música cantada por Bethânia..Lágrimas..

http://www.youtube.com/watch?v=tGVL8cR9IY8

Beijo!

Sônia Brandão said...

Nascemos para o encanto, mas o desencanto nos ronda, nos lambe a todo momento.

Parabéns por esta beleza, Roberto.
bjs

jorge pimenta said...

cada um por si e o diabo por todos - e as manhãs, alguma vez desaprenderão elas de ressuscitar, primitivas, verdadeiras, elas mesmas, nesse sopro de humanidade que multiplica e expande? enquanto houver palavras, como as tuas, que incendeiem o coração das pedras depondo pétalas de rosa nas suas mãos frias, haverá sempre uma segunda oportunidade - quanto mais não seja, a da esperança. ou não fosse eu adepto do clube que tem a máxima "et pluribus unum" :)

somos campeões, robertílimo, neste instante em tons de azul, em maio em tons de encarnado - assim o espero :)

abraço com saudades de ti, de tibães, de boa prosa, de cerveja gelada, de candeias a alumiar o asfalto...
p.s.2. fui convidado para publicar umas quantas fotos num livro de fotografia em regime de coautoria. se avançar (como penso, espero e desejo), haverá lançamento. em tibães!? prepara as passagens :)

abracílimo!

Dois Rios said...

É incrível como o fim de uma relação devasta com tudo o que, um dia, foi promessa de futuro.

Com raras exceções, o fim de um amor, outrora tido como "eterno", tatua a vida de seus personagens com inextinguíveis símbolos de dor.

Lindo texto, Roberto!

Bjs.