Saturday, November 30, 2013

Porque eu também sou mãe



 Eu entendo a sua dor porque também sou mãe.

 Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
 Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
 Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o primeiro momento.
 Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, no que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
 E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
 E eu o amamentei até que ele não precisasse mais.
 Estive com ele em suas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
 Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranqüilo, cheio de sonhos leves.
 Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
 Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
 Ainda guardo na memória cada pedacinho nosso, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
 Eu estive sempre com o meu menino.
 (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
 Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
 Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta de profissão.
 Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
 Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
 Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
 E é por isto que entendo a sua dor de mãe que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
 Aquele meu menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
 Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
 Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Deus para onde.
 Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu...
 Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções de paz.
 Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
 Osama Bin Laden me chama de mãe.
 Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
 Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
 Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de um outro tirano qualquer.
 Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
 Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
 Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora.
 Entendo, porque também sou mãe.
 E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.

11 comments:

Indigo Horizonte said...

Una belleza de esas que tú tan bien sabes hilar. Duele pero es tan bella... Abrazo grande, Roberto.

Tania regina Contreiras said...


Ai, de doer! Retrato-falado de tristes realidades...

Beijo, Beto!

Adriana Riess Karnal said...

nossa, esse texto é um golpe.

Mariangela Alvarez said...

Emocionante Beto... vivo essa dor diáriamente...
Só vc pode traduzilá-la em palavras... códigos humanitários...
Te admiro muito..Cada vez mais..
Um dia te falei que vc lembrava , meu falecido irmão... agora tenho certeza !
Beijos
Grata por essa maravilha!

Sônia Brandão said...

Emocionante, Roberto.
Só uma mãe pode entender perfeitamente a dor de outra mãe. Não nos é possível medir a dor do outro. Pode até ser que a dor da mãe do algoz seja igual, ou talvez maior, do que a da mãe da vítima.

bjs

Bell R said...

Ufaa. Esqueceu que " mães " estariam lendo seu texto? Acho que você já foi mãe,de alguma forma!Estou emocionada,me vejo em cada palavra ,em cada alegria,em cada dor,em cada sonho aqui descrito!Me policiava ate nos pensamentos enquanto gravida! A espera mais absoluta,solitária e feliz a dois (em um)!Certeza,só meu enquanto gravida. Ansiedades,abraçar,ver, cheirar,beijar,dividir,sonhar junto! Febre me faz pequena, sem direção,mas se necessário cresço, viro bicho, pago mico!Parabéns Roberto, lindo texto!Bem assim,amor muito mais alem!Homenagem a todas as MÃES mais que merecida! Brigadim

Assis Freitas said...

todas as mortes dentro da morte



abração

Adri Aleixo said...

Uau, Beto! De torar e de chorar muito.

somos mãe, somos vulneráveis.

Beijo!!!

flor de lótus said...

INPRESSIONANTE!

Ira Buscacio said...

isso não é uma crônica, é porrada na cabeça que faz olho chorar.

Foda!!!!!

bj, Beto

jorge pimenta said...

vida e morte: amigos inseparáveis no lirismo absurdo da humanidade.

que texto, robertílimo! para todas as mães e filhos que somos todos nós, afinal.

abracílimo!