Wednesday, December 11, 2013

A música que quase faz chorar


Mergulhei no filme De Pai Para Filho - que conta a história turbulenta da convivência de Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha -, e passou um outro filme em minha cabeça (e em meu coração).
E este outro filme remonta ao ano 1988 e eu estou em minha casa, quase almoçando, quando um amigo que produzia o show de Gonzaguinha em New Jersey telefonou, apavorado:

   - Estou com um pepino na mão. Peguei o Gonzaguinha no aeroporto, ontem, mas ele é seco de corte. Já tentei de tudo quanto é jeito entabular uma conversa com ele, mas o cara é uma casa sem portas ou janelas.

Fiquei animado com a possibilidade de conhecer o ídolo, mas bastante receoso.
Afinal, sabia de dezenas de estórias a respeito de um dos meus compositores favoritos.
E todas elas falavam de um cara interessantíssimo, mas de difícil trato.
Genioso, introvertido, politizado, inteligente e absurdamente “seco” com as pessoas, o que diziam ser resultado de sua difícil relação com o pai, o Rei do Baião.
Noves fora nada, Gonzaguinha ainda ficava incomodado com o assédio dos fãs.

Para ilustrar o seu ponto, meu amigo contou que no dia anterior estiveram em uma loja da Rua 46 e Gonzaguinha espinafrou o gerente, que pediu para tirar uma foto com ele.
A polaroid seria para colocar na “parede da fama”, que continha fotografias de todas as personalidades brasileiras que passaram por lá.
Gonzaguinha teria permitido a foto, mas apenas depois de desconcertar o gerente com uma cátedra sobre uso de imagem e suas indevidas ramificações.
    - Você vai vender mais eletrônicos com a minha fotografia na sua parede e eu ganho o que? - teria dito o compositor de tantas canções bonitas.

Corajoso, eu fui ao encontro.
E eles me esperavam numa mesa ao fundo do Scorpio’s, em Elizabeth.
Fomos apresentados e a empatia foi imediata.
Gonzaguinha havia abdicado do cavanhaque, usava agora um bigodão que se esparramava até o queixo.
No braço, um relógio do tamanho de um despertador e as mangas da camisa arregaçadas, como nas capas de seus discos.
Pedimos uma cerveja, duas, três.
Pedimos tantas, que não me lembro mais quantas. E as dele, ele deixava esquentando sobre a mesa, antes de começar a bebê-las, mornas.
    - Quem bebe cerveja estupidamente gelada – como num comercial de TV que havia no Brasil no final dos setenta – só pode ser um estúpido, dizia ele.
Ao que eu, diplomaticamente, respondia:
    - Questão de gosto. Quente? Só sopa e mulher.
    E ele ria.
 
Falamos de tudo.
Futebol, política, família, mulheres bonitas, culturas diferentes, Morro de São Carlos, Morro da Orelha (em São Raimundo) e sei lá quantos outros assuntos e morros. Tudo, menos música.
Já estávamos naquela prosa havia pelo menos sete horas, quando dei uma vacilada e disse que gostava muito de suas canções, e em especial de uma delas, que quase me fazia chorar.
Levei uma descompostura imediata do astro, que deixou claro que era desnecessário bajulá-lo, e que “aquilo” era um desatino meu.
Tremi.
Eu havia dado vinte litros de leite e um coice no balde.

Vendo a cara de tacho e desapontamento, ele resolveu me dar uma segunda chance, perguntando que canção era aquela que "quase me fazia chorar".
Deu um branco na hora.
Pode ter sido a cerveja. Ou a força do coice.
 
- Eu não me lembro, Gonzaga.
- Vê? E eu achando você um cara legal.

E continuou o massacre:

- Você chega e me ganha, depois estraga tudo dizendo que é meu fã e não sabe sequer o nome da tal música que quase te faz chorar.
Aí também, não.
Olhei pra ele, cheio de brios, e retruquei:

- Eu me esqueci do nome da música, mas sei cantá-la.
E ele, desafiante:
- Sabe? Então canta pra mim.
Tomei um gole de cerveja, pigarreei para limpar a goela e comecei a gaguejar, timidamente:

Hoje eu sei, eu aprendi que a festa e a solidão
Andam juntas, dançam juntas, no mesmo salão
Se acarinham, amam, brincam num só coração
Num só coração
Meu coração/ Meu coração/ Meu coração
Meu grande coração
(...)


Gonzaguinha me tomou a canção, emocionado e continuou a cantá-la, os dois homens de olhos marejados, um momento genuíno acontecendo ali:

Um terreiro embandeirado, foguetes, fogueira,
Lua, lindo céu lavado, delírio, roleira,
Fim de brasa, sombra a cinza, é borra, é prata
Cola, gruda, permanece no chão da sapata
No chão da sapata/ Chão da sapata/ Chão da sapata
Chão da minha sapata
(...)

Quando Gonzaguinha terminou de cantar eu estava completamente à mercê da beleza daquele momento.
E ele também.
O compositor me deu um abraço afetuoso e sussurrou, com a cabeça pousada em meu ombro:
- O nome desta música é Festa e Solidão. Nunca mais se esqueça disto.

E eu nunca mais me esqueci.

35 comments:

Daniela Delias said...

Só de pensar em Gonzaguinha, me dá vontade de chorar. Basta colocar um segundinho dele cantando. Por dentro tudo tão regado, tão florido, nem importava essa secura de fora. Ele, o menino com o brilho do sol.

Adoro a história de vocês. Sabes :)

Beijo

Rossana Masiero said...

Linda crônica, Roberto.
Conheci Gonzaguinha e em todas as vezes que nos encontramos(festivais, gravações, etc), ele foi um doce.

Bjs

ro

Primeira Pessoa said...

Ô, Dani
melhor ainda é te ver aqui, num lugar que é seu. Aquela cadeira lá, bem pertinho da cabeceira, pertim do bule de café e do prato de pão de queijo.

beijo procê,

r.

Primeira Pessoa said...

e era, rossana.
um doce de laranja amarga.
de batata doce (como na canção de sá & guarabyra).

beijão,
r.

rosa-branca said...

Meu amigo, esses momentos são momentos únicos e há que guardá-los com todo o carinho, num cantinho da alma. Adorei sua história. Beijos com carinho

Sônia Brandão said...

E dá pra esquecer?
Como é gostoso lembrar esses momentos, não é Roberto? Muito bom também quando você compartilha. Gosto desse teu jeito de contar. Fico agradecida.
bjs

Anonymous said...

What a wonderful world!

Excelente!

Alípio

Vavá Ribeiro said...

Quanta inveja branca!!
Daria um pouco do pouco que tenho por um momento assim!!
Definitivamente, meu mais incrível ídolo! Um bela história, Beto! Com H mesmo!!

Flávio Assis said...

Que momento lindo, Erê! Parabéns pela beleza e delicadeza da crônica! Abraços!

Tania regina Contreiras said...


Amo essa história. Mostra como ambos, você e ele, são (no presente pra ele também, bem vivo) especiais. Gonzaguinha embalou tantos momentos meus. Era ele, e só ele, que conseguia dizer-me. E eu cantava alto junto com os primeiros vinis dele. Não foi. Quem era como ele era e é...morre não!
Beijos, mano!

Ribeiro Pedreira said...

vê, Roberto, Gonzaquinha é um ídolo meu (que ele nunca saiba disso rsrs) e que contradição: esse artista tem um dos raros semblantes que me transmite grande paz. deliciosa crônica!

Primeira Pessoa said...

Rosa Branca,
pudesse, eu teria um chapéu cheio destes momentos.
Beijo grande do

R.

Primeira Pessoa said...

Soninha, costumo dizer que passo a vida andando em círculos, como um cachorro tentando morder o próprio rabo.

Beijão,

R.

Primeira Pessoa said...

Obrigado, Alípio.
A vida é bela, sim.
Maravilhosa!

abraço grande do

R.

Primeira Pessoa said...

Meu Erê Flávio Assis,
que o nosso próximo encontro não tarde a chegar.

Saudade grande do

R.

Primeira Pessoa said...

Babá Rivero,
meu querido amigo e embaixador de Oeiras no mundo, conheci você abrindo shows de Belchior.
Do imenso Belchior!

Quer história mais bonita???

Beijão,

R.

Primeira Pessoa said...

O homem morre, fica a obra, Taninha.
Este é o legado. herdamos muito de Gonzaguinha.

Beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

ribeiro,
acho que com gonzaguinha era um lance mais de auto-preservação, de insegurança diante do mundo.

ele tinha um sorriso bom.

abração do

r.

Ira Buscacio said...

penso que seja isso msm, Beto, uma questão de auto-preservação. um cara com essa alma teme quem não é menino no fundo do peito
Gonzaguinha, linda lembrança!

bj meu

Sílc said...

Obrigada Roberto. Amo 'um tudo' de Gonzaguinha... Nascemos no mesmo ano e sempre acompanhei suas letras, em especial, pelo conteúdo tão intenso e próprio para o contexto da época em que as escrevia... Soube que a letra "Sangrando" ele fez para o Pai dele na esperança de melhor compreensão no relacionamento entre eles... Sabemos tão pouco sobre nós... O melhor e apreciar esse 'um tudo' que ele nos deixou como Festa e Solidão... Beijos meu querido amigo Roberto e muito obrigada.
Com carinho,
Sílvia

jorge pimenta said...

há encontros assim, abraços assim... onde até o tempo parece parar para anoitecer sobre os homens.

abracílimo!

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
há certos abraços que são como grossos casacos de lã, indispensáveis neste eterno frio, que é a vida.
um abraço que aqueça.
como aqueles de braga.

como este aqui,ó!

R.

Primeira Pessoa said...

Silc,
não sei dizer o motivo do nascimento da música Sangrando, mas sei que é uma de minhas favoritas. Adoro.
Esta canção sempre me emocionou muito.

Beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

Ira,
fiquei sabendo de outras situações, de fontes seguras, de situações desagradáveis envolvendo Gonzaguinha.
Como num show no interior do nordeste (não me lembro a cidade, mas posso descobrir) em que um garoto pediu a ele para colocar no peito um button do PT...

um garoto nordestino nos seus 12, 13 anos, foi trucidado atrás do caminhão-palco onde Gonzaguinha se apresentaria com outros nomes da MPB...

a sessão de tortura teria começado com "você sabe o que quer dizer isto que quer espetar no meu peito?"...

beijo meu,

r.

Joelma B. said...

A imagem que o menino me deu
(a Roberto Lima)

menino primeiro
foi galanteador
de nuvem

prendia as afobadas
em seu encalço
pra que não fossem
amor de verão

depois se perdeu
no céu
por entre pernas
de chuvas movediças

(Joelma B.)

Joelma B. said...

A imagem que o menino me deu
(a Roberto Lima)


menino primeiro
foi galanteador
de nuvens

prendia as afobadas
em seu encalço
pra que não fossem
amor de verão

depois se perdeu
do céu
por entre pernas
de chuvas movediças

(Joelma B.)

Primeira Pessoa said...

ganhei poema?
ganhei flor.

beijo grande, Joelma B.


r.

MA FERREIRA said...

Bacana demais ler a sua cronica... ainda em se tratando de Gozaguinha..
E a vida.. e bonita, e bonita.
Bonita por esses encontros e por outros.
Que bom que voce dividiu conosco este momento tao especial de sua vida.
Beijo,
Ma

Primeira Pessoa said...

Ma,
gonzaguinha é um dos artistas que mais me marcaram. Na juventude, vi vários (VÁRIOS!) shows dele. sabia de cor as canções.

beijão,

r.

Ana Cecilia Romeu said...

Moço simpaticão das Gerais!
Não venho te vender quichutes, tá bom?

Vou ser tri-sincera contigo, ando com uma dificuldade tremenda para me concentrar. Agora, aqui no RS também já são 3h23 (em cada blog escrevo o horário e já passa 1h que comento hehe e não vou ter outro dia para isso) e ainda venho de uma festa de clientes regada a Campari (que amo!), tinha que estar aqui conosco menino!

Apenas te digo que Gonzaguinha me marcou muito, como poucos da MPB conseguiram.

Grande beijo dos Pampas para ti e um excelente fim de semana!
(dias com praia, carnaval e Disney rsrs tudo o que você gosta!) - brincadeirinha boba de insone.

cirandeira said...

Esse teu encontro com Gonzaguinha foi mesmo muito especial, sempre vale a pena relembrá-lo. Foi essa canção que tentaste enviar-me? Não conseguí acessá-la, mas agora, com o título dela vou buscar no you tube : )

beijão, e obrigada!!!

lectorwall said...

Gostei muito.
Cptºs

dade amorim said...

Fui fã de Gonzaguinha toda a minha vida. Quando ele foi embora, chorei de dor por ele, que era um grande compositor.

Beijo pra vc.

Luciana Marinho said...

tal qual certas músicas, certas crônicas também nos fazem chorar.. que linda, roberto! gonzaguinha é de uma beleza só. e eu nunca o havia imaginado assim, seco no trato... mas sensibilíssimo nas canções.

beijoca.

Lázara papandrea said...

momento único, escrita única, a forma cativa e o assunto interessa , aí fica bom à beça!abraços