Monday, December 30, 2013

Palavras esquecidas


Algumas palavras foram esquecidas com o passar do tempo.
Elas foram amontoadas a um canto do nosso vocabulário como se tivessem contraído uma doença antiga.
Doenças como a lepra e o escorbuto, que parecem ter sido erradicadas também do dicionário.
Com a modernização da humanidade e o desaparecimento de algumas atividades profissionais, elas foram morar em um quarto escuro. Tristes com este esquecimento, elas adormeceram para sempre.
É por isto que ninguém mais se orienta por bússola ou astrolábio.
Ninguém mais sofreu de banzo.
E a prosaica disenteria, que nos deixava literalmente “descompletos”, ou incompletos, como manda a grafia?
O que foi feito dela e dos pés destroncados?
O que foi feito das palavras sarampo e varicela?
Mesmo a caxumba. Onde foi parar?
Há mais de vinte anos que não escuto ninguém dizer que está com caxumba. Ou que tem catapora.
Terão sido apenas um surto de nossa língua?
Ninguém mais precisa de alfarrabista, leiteiro, datilógrafo, telegrafista ou fotógrafo de lambe-lambe.
Com a preferência pelo asfalto ou por blocos de concreto pré-fabricados, os calceteiros sumiram.
Nos enterros modernos, só se chora de verdadeira emoção.
E assim desapareceram as carpideiras, doces senhoras que choravam por dinheiro.
E as normalistas?
Onde foram parar as normalistas?

Ah, como eram bonitas! Nelson Rodrigues tinha fetiche por normalistas.
Neste mundo de pessoas cada vez menos normais, elas fazem falta,  ainda que existam dentro de outra roupa.
A normalista é aquela moça que ia para para a escola normal fazer normalismo.
Era a estudante do curso pedagógico, que formava professoras para o ensino primário em todo o Brasil.
Com o passar dos anos a educação mudou-se para uma outra escola e, como um aluno que se muda com a família para uma outra cidade, ela teve que se readaptar.
A madureza foi uma prima balzaqueana do supletivo. Mas ambos levaram bomba.

E mesmo na moda. Já notaram?
Há quanto tempo você não vê uma pessoa vestindo japona ou calçando polainas?
Os suspensórios, ao que parece, foram suspensos pelos fashionistas e só existem agora no guarda-roupa de Jô Soares.
As moças já não usam rouge, pó de arroz ou carmim.
E os homens não sabem o que representou a brilhantina ou as calças de brim.
Para compensar, homens e mulheres inventaram algumas palavras para se referirem a coisas que já existiam com outro nome.
A bunduda virou popozuda, o derrame virou AVC, a costureira é estilista, a rádio patrulha é viatura policial.
Flertar é dar mole, caramba é caraca, namoro é pegação e o rapaz atlético ficou sarado.
Gafe virou pagar mico, galanteio virou chaveco e travesti é traveco.
Faxineira é diarista, ginecologista é gineco e baterista é batera.
Desculpe e foi mal são a mesma coisa.
E muito obrigado fica pago com um valeu.
Ir embora é vazar.
O que me dá a certeza de que algumas palavras vazaram da nossa língua.

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16 comments:

Joelma B. said...

Me fez lembrar da anágua, que as senhoras tinham o maior pudor em deixar bem escondida... Hoje não se usa mais, assim como a vergonha em mostrar o fundo da calcinha!

:)

Beijo!

Bandys said...

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não, não para

Feliz 2014, moço!

Tania regina Contreiras said...


Ó, está aparecendo catapora por aqui. Acho que as pessoas continuam muito "normais", mas felizmente tenho, cada vez mais, me encontrado com gente que foge das normas. No mais, é sempre uma delícia ler suas crônicas, tão legítimas crônicas, como as conheci, quando me apaixonei por elas. E pode tentar novamente comentar no meu blogue, que lá sua presença é um luxo só pra mim... :-)
Beijos

Anonymous said...

Very nice!! But, when I've been to Virginia Beach and NY city, lots of people had mumps and chickenpox!!

E o que dizer do "broto", "pão", "filé"!!

Velhos tempos, belos dias!!

Alípio

cirandeira said...

Passando para não deixar vazar a palavra AMIZADE, para que em 2014 continuemos a cultivá-la mais e mais!

Um grande abraço e beijos

Sônia Brandão said...

Pior é que muitas desas palavras novas parecem tão sem sentido.

bjs

140a1e9a-733f-11e3-a041-000bcdcb471e said...

Bombril virou palha de aço e neguinho virou pequeno afro descendente.
Belíssima cronica, ZB. Vai sair no Voz de Minas.

Primeira Pessoa said...

Francisco,
pode publicar. esta e quantas mais você quiser.

são suas.
beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

soninha,
qualquer dia destes, o homem e a mulher terão sido esquecidos por eles próprios.
prestemos bastante atenção.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

Cirandeira,
pessoa querida-queridíssima,
sinto sua mão na minha.
sigamos de mãos dadas, então, como quis Drummond. Como queremos nós.

beijão já no ano novo,

r.

Primeira Pessoa said...

é verdade, alípio, eu tinha me esquecido de que a catapora também "dá" por aqui e tem esse nome "bonito" cickenpox.

fico feliz pela sua presença desde parauapebas, trazendo luz a este minifúndio de afeições.

abraço grando do

r.

Primeira Pessoa said...

taninha,
ando obcecado com aquela crônica dos louquinhos. preciso que me fale um pouco sobre Dona Verde.
vou ao seu blog tentar novamente.

beijo grande,
r.

Verso Aberto said...

Meu pai usava uma palavra estranha: suquífelas... nunca soube o que era e por isso não consigo empregá-la. Ah, havia outra: nequífelas. Ele dizia e ria... e eu também!

Para que mais servem as palavras? kkkk

Estas foram com ele

Belíssima crônica Beto

jorge pimenta said...

é a língua a desprender-se do tempo e a esquecer o corpo...
haja gente lúcida a conhecer o verdadeiro sentido da memória - como tu e como todos aqueles que vivem pelos afetos - porque tudo o mais é resíduo agarrado ao bojo do tempo.

um abracílimo!

Adri Aleixo said...

Muuuuuito bom!!!

Como professora de Linguagens, adoro essa temática.

P.S.: Ainda podemos comprar uma Cibalena.

Beijos, amigo!

bispo filho said...

Ótima crônica, mano. Também sinto muita falta das palavras antigas! Elas moram naquele armazém da memória, como você disse, amontoadas. Mas têm o seu valor. Abração!