Sunday, December 15, 2013

Uma Crônica Para Isabella



(Para a Bebel)
Ela tem poucos minutos de vida, mas já realizou o que quase quatro décadas de experiências, euforias, pequenas conquistas e grandes desastres não conseguiram.
Ela ainda aprende a respirar fora da barriga da mãe, mas já mudou a vida de um homem cético, petrificado por casuísmos de uma existência marcada pelas mazelas da luta cotidiana.
Com apenas alguns minutos de vida ela o faz redescobrir um gosto novo pelo ofício de existir. E resgata nele o desejo da imortalidade.
Ela acaba de transformá-lo em pai.
Durante os nove meses de espera e inquietações este pai a imaginou de tantas maneiras, menos desta com que veio.
Ela não tem os lábios dele e nem o contorno do queixo da mãe.
Não se sabe a cor de seus cabelos – ainda envoltos em líquido amniótico –, e seus olhos permanecem fechados, estranhando a luz artificial do mundo exterior.
O médico diz que ela tem saúde perfeita. E isto é motivo de júbilo, de despreocupação.
A enfermeira que testemunhou seu nascimento reafirma o que ele registrou desde o primeiro momento em que a viu: sim, ela é uma menina linda.
Seu corpinho franzino, de face rosada e mãos minuciosas, ainda se espreguiça no berço estufa do Hospital Saint Barnabas e ela não sabe do milagre que acaba de operar.
Ela chora pela primeira vez, e ele preocupa-se imediatamente, sem entender que esse choro foi despertado pela mudança súbita de universos.
Há menos de cinco minutos, estava protegida pela fortaleza do ventre materno.
Agora, está nua, fragilizada diante de um mundo simbolizado pela expressão confusa de seu pai.
E o choro novo que enche o ar da sala de parto é um aviso firme:
    - Preste bem atenção em mim, papai! Cheguei para te povoar!
Seus olhos abertos iluminam a encruzilhada existencial deste marinheiro de primeiríssima viagem, com a potência de um farol mostrando rumo a um barco no meio de uma tempestade.
Numa ordem inversa de coisas é a filha que chega ensinando o pai.
É ela quem indica a estrada a seguir e sabe-se, de antemão, que já não existirá um atalho para o futuro.
Mudou tudo num segundo.
Encantamento, magia, esperança e responsabilidade substituem palavras de um dicionário que jamais será o mesmo.
E o pai também chora, tentando esconder detrás dos óculos de grau o inocultável.
Ele que não chorou na última derrota de seu time numa final de campeonato.
Ele que não se emocionou na perda de um tio querido, recentemente.
Ele que evita filmes melodramáticos por não lhes reconhecer serventia.
Ele que, consumido pela luta do pão de cada dia, às vezes se esquece de ligar regularmente para seus pais e pedir-lhes a necessária benção.
Ele, o autossuficiente.
Ele, o rei de um reino que gira em torno de seu umbigo.
Impassível, até aqui, este senhor.
Diante dos olhos deste homem impenetrável, revolve-se uma trajetória que está prestes a entrar num novo período de sua história.
E esta metamorfose vai tomando força, acontecendo lentamente, como uma borboleta saindo do intransponível casulo.
Este homem sou eu. Isabella acaba de me fazer pai.
Ainda estou na sala de parto e um turbilhão de indescritíveis emoções vai ganhando - cada vez mais -, terreno em meu coração.
Não sei se rio ou se choro. E é tudo de alegria.
Um frenesi diferente de um grito de gol.
Um eu te amo mais profundo do que todos que eu já disse a qualquer mulher.
A meu pai ou a minha mãe.
Ou a quem quer que seja.
Na noite de 27 de outubro de 2001, escrevi – a quatro mãos com Fabianne – minha grande crônica até aqui.
Meu melhor poema.
Minha grande letra de canção.
Na expressão serena desta criança que nasceu também de mim, sinto-me lívido, pacificado, a um passo de Deus.


26 comments:

Verso Aberto said...


a mais bela
como Bebel

abs paizão

Rogério Martins said...

Te prepara meu velho... Está indo encontrar com você um homem mais calmo,menos duro... Um avô se aproxima. Ai sim, vai vislumbrar, conhecer ou quem sabe, reconhecer o céu, nos olhos da sua descendência!

Magnolia said...

Tens um calcanhar de Aquiles muito bonito... :)

Joelma B. said...

crônica essa em formato de amor crônico, não é? Esse amor que nunca acaba...

beijo!

Luciana Marinho said...

ao ler-te, tão belamente amoroso, não creio na tua distância, nem de um passo, de deus.

beijos.

Lídia Borges said...


Um hino à Vida! Tanto,quando somos "povoados" por uma criança.

LINDA, a sua menina, um poema mesmo!

Daqui, de Braga, um beijo carinhoso para ela e para os pais.

Lídia

Adri Aleixo said...

Nossa Beto, que bela declaração de amor! Muito, muito linda mesmo.
Foi essa lindeza que disse que você tem panturrilhas incríveis? rsrs
Lembrei que você nos contou esse fato lá no Palácio da Artes.

Há lugares dentro de nós em que somente algumas pessoas conseguem chegar. Beijo!

Ira Buscacio said...

vi amores de mães transbordarem
- os meus, definitivamente, não param de inundar as meninas, as minhas -
vi filhas tropeçarem nos próprios pés quando mães se descobriram
- eu mesma tropecei 2 vzs -
e aí vem vc, pedra fixa do reino masculino, rolando vida acima até cair sobre o ventre e, como qualquer mãe santificada, chora o choro feliz do amor incondicional
penso: ah, é possível um homem parir!
Beto, me emocionei demais e te abraço bem apertado

bispo filho said...

Sem dúvida, digna de tantas emoções e do choro (contido na derrota do time mas, agora, afinal, desatado por um justificadíssimo motivo)! Bebel é minha sobrinha predileta, mesmo sem conhecê-la ainda. E o assoalho do Hospital Saint Barnabás tem meu suor, meus calos, meu esforço diário. Trabalhei nele meses a fio carregando e assentando tapetes, tailes e placas de mármore. Bom saber que a Bebel nasceu por lá. Só isso justifica todo o trabalho árduo que fiz! Beijocas na menina do Padrim Zezé!

flor de lótus said...

Parabéns pela filha linda! Toda a felicidade do mundo para os dois.

jorge pimenta said...

tocar os céus, pelos seus, nessa babel que nos deixa a um passo de deus: é sempre assim quando alguém chega para nos povoar.

abracílimo, meu amigo roberto de minas, de jersey, de braga e dos lugares que não sei dizer.

Primeira Pessoa said...

jorgíssimo,
tu que me povoas, amigo querido.
posto que este coração é casa tua.

saudades.
precisamos nos falar antes do fim do ano. ano que foi difícxil, mas me deu Tibães, deu Margarida Figueiredo, Deu Gon, Maggie e Anabela.

deu o mapa rodoviário até paulo padeiro, deu-nos uma viagem inesquecível a compostela (até hoje reverbera aquele nosso almoço naquele restaurante de porão, com concha rousia... as cervejas... o copo roubado...rs)

rapaz...
a gente precisa se falar (antes do ano virar fumaça).

beijão,
r.


Primeira Pessoa said...

para nós, flor de lotus,
para nós.

beijão...

r.

Primeira Pessoa said...

bebel e cissa nasceram lá, bispo filho.
sobre aquele assoalho que você espalhou.
bem pertinho aqui de casa, sabia?
ha doze anos eu respiro em Livingston.


beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

é muito louco isto de amor pelos filhos.
é um trem tão grande, tão maior que não dá nem pra colocar em palavras.
não para diletantes, como eu.

abraçou apertadim, apertadim, Ira...

beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

adri,
cê é uma querida.
nunca vou me esquecer de que esteve no palácio das artes e levou um abraço do tamanho de minas gerais pra nós.

bispo filho que me perdoe.
guardei o abraço todinho pra mim.

:-)

Primeira Pessoa said...

lidia borges,
o grande barato das coisas é que somos povoados também por amigos, pessoas especiais e importantes como você.

ainda voltarei a braga, viu?

beijão do

r.

Primeira Pessoa said...

Luciana,
cê não tem idéia da falta que você faz.
vira e mexe eu fico me perguntando por onde anda você.
onde andam seus olhos...

vinicicamente.... rs

saudades, viu?

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

amor que nunca acaba, joelma.
acho que cê matou a charade numa frase.
nascente de rio perene.

é isso que é.

beijo grande,

r.

Primeira Pessoa said...

magonolia,
o calcanhar às vezes dói...rs

tão bom te ver por aqui.

beijo beijo,


r.

Primeira Pessoa said...

rogerio,
tenho uma filha de 33 anos, a emilia.
acho que ela está me poupando. rs

é incrivel, como tenho varios amigos, contemporaneous, já avós...

e sua é doido demais. e é maior, sim.
a semente da semente.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

marquim,
voce com filhos adultos e amigos seus.
eu to chegando lá.
demais, né?

beijão,
r.

Dois Rios said...

Enquanto lia o teu amor em forma de crônica, buscava uma palavra que, de alguma forma, dissesse da emoção que as tuas palavras me causaram. Não encontrei, Roberto! Resta-me, então, enlear-me, em silêncio, nos laços desse teu imenso e profundo querer.

Beijos,

Tania regina Contreiras said...


Nossa, emocionei-me! Pai é mãe, quem disse que não?

Beijos, Beto!

marlene edir severino said...

Não somente teu melhor poema.
O mais lindo!

Lindeza de flor a Bebel!

Beijocas aos poeta e musa!

Bandys said...

De novo foi eu ter chegado ate aqui um dia...
Esbanje a luz intensa que mora dentro do seu peito e
diga aos céus que o tempo é de recomeçar e semear boas novas.
Fazendo sempre o melhor!
Crescendo e seguindo lado a lado no ano que esta chegando.
Feliz 2014! Quem tem que ser diferente é a gente o resto é tudo igual.
Beijos