Tuesday, February 18, 2014

Bom mesmo é ser cachorro


(Para a Silvana Guimarães, 
que ainda aguarda o retorno da fujona Doze)
  
O cão sempre foi o melhor amigo do homem. De uns tempos para cá começou a haver reciprocidade.
E o resultado de tantos anos sem apreciação é que tem gente, hoje, que gosta mais de cachorro do que de gente.
Dizem que é porque são mais sinceros, os cães.
Quando ele não vai com a cara de alguém, late e rosna. O ser humano, não.
Os cães ainda não aprenderam a fingir.
E ninguém demonstra alegria pelo acolhimento de forma tão expressiva quanto o cão.
Por mais feliz que fique o dono da casa com a chegada de alguém, o rabo abanando do cão é insuperável.
O homem não aprenderia a sorrir com o rabo, nem se tivesse um.
Mas é com a mulher, que os cães se dão melhor. Afinal, a mãe do cachorro não cozinha melhor que ela. E nem nota que ela engordou.
Os cães adoram passear com suas donas e não passam domingos inteiros assistindo futebol.
Não existe um único cão flamenguista neste mundo.
Você ainda pode argumentar que cachorro não deixa a toalha molhada sobre a cama e nem briga pelo controle remoto da TV.
Dizem por aí que o homem só confia no cão, porque este ainda não conhece dinheiro.
Pode ser verdade, pois os cães ainda não aprenderam a contar. Mas já existem milhares de homens ‘cachorreiros’ por aí. E os cachorrões. Mas este é outro assunto.
Tamanho apreço pelos bichos acabou significando uma ótima oportunidade de negócios, já que o homem não dá ponto sem nó.
  E aí surgiu uma indústria milionária - e crescente - que explora com olhar cirúrgico este afeto entre bípedes e quadrúpede. O que acabou acarretando também uma sensível mudança de costumes.
Já notaram que os cães não comem mais o que sobrou do almoço dos humanos.
Osso?
Nem pensar.
Só se fore macio, criado após estudos científicos, sendo os mais sofisticados feitos a partir de chifre de antílope. Do contrário pode perfurar o estômago.
Para barrigas mais sensíveis criaram um cardápio com salmão, arroz integral, ovelha, vitela, frango ou peru.
E como andam cheirosos os cães de hoje...
Eles são escovados e tomam banho com xampu feito de produtos orgânicos.
Ganharam lojas especializadas e seções inteiras nos supermercados.
Nos pet-shops existem departamentos para diferentes estágios de suas vidas. Eles ganharam brinquedos, roupas, adereços e cosméticos.
Os cachorros do dia de hoje vestem roupa de gente.
Aqui nos EUA eles calçam bota de neve, têm capa de chuva, coleira com cristais Swarovski e outros luxos que o dinheiro pode comprar.
Cachorro bem cuidado tem cabeleireiro e hora marcada no spa para banho e tosa. Ele tem médico e dentista.
O que fez surgir uma novidade: o seguro médico e dentário canino.
Cachorro do dia de hoje tem hotel cheio de regalias e conforto, para quando o dono viaja. Nas cidades grandes, ganhou parques específicos, para onde leva o seu dono pra passear.
Os cidadãos mais abastados contratam o passeador de cachorro, que é a mais nova profissão do mercado. Ouvi dizer que ganham bem.
E já não é preciso ser uma madame para ter um cachorrinho de madame.
Abundam yorkshires terrier, poodles, chihuahuas, malteses e shih tzus em casas de trabalhadores comuns.
Pesquisei na internet e descobri que existe tratamento holístico para depressão canina. Devem ter aprendido com o homem, o truque da tristeza.
Existem também programas de televisão para que os donos entendam como funcionam seus bichos, e treinadores que ensinam a caminhar com coleira, rolar no chão e dar a patinha.
Têm ainda seriados veterinários que arrancam lágrimas durante procedimentos cirúrgicos arriscados e coisas assim.

O que me faz lembrar, nostálgico, dos totós e titius que conheci nesta vida. Eles deram lugares a animais com nome e costumes de gente.
Eu já não vejo um vira-lata vagabundeando pelas ruas da cidade desde o tempo em que havia vira-latas.
Ao contrário do ser humano, o cachorro parece ser uma raça em franca evolução.


24 comments:

Sônia Brandão said...

Saudades dos vira-latas.
Gosto de cachorros, mas não gosto de vê-los tratados como gente. Acho que eles também não gostam disso.
bj

Dois Rios said...

Bonitinho, Roberto! Você, como sempre, tem o dom de transformar um assunto "simplinho" em algo interessante e gostoso de ler.


Beijo,

Emilia Vaz said...

Perdi minha cachorrinha gravida essa semana...envenenada.
Sem muito a dizer...
Parabéns pelo texto.

Namaste!

Assis Freitas said...

cachorro de nordestino é bicho do mar ou peixe: é tainha, robalo, piau e baleia.



abração

Ribeiro Pedreira said...

haverá o dia em que abrirão templos religiosos aos cães?

Batom e poesias said...

Você esqueceu de falar dos florais para cães. Até isso tem...
Eu tenho uma vira-latas (Guiomar, vulgo Guigui), daquelas bem mau caráter...rss
Desconfiada e é lá suspeitosíssima principalmente quando o assunto é comida e crianças. Não gosta e ponto.
Gosto de cachorros, mas continua achando que cachorro é cachorro e tem seu lugar.
Acho que vou para o inferno dos cachorros.
Bjs

Rossana

Jorge Pimenta said...

conheci um sujeito, velho e já de tino meio perdido, que me dizia entender melhor os cães do que os homens... porque estes eram sempre cachorros e aqueles já o não eram...

um abracílimo!

Tania regina Contreiras said...


Lembrei de Hillman, que afirmou haver uma tristeza ancestral no olhar dos cães...Eu também acho.

Beijos, Beto.

cirandeira said...

A raça do cachorro pode até estar em franca evolução, quanto a raça humana...!?

:) beijo

Ira Buscacio said...

que os cachorros continuem sendo cachorros,pq se evoluírem a potência do homem...

que merda, pobres cachorros!

bj

Primeira Pessoa said...

ira,
depois que escrevi esta cronica tive um sonho muito doido. nele eu estava caminhando "de quatro", enquanto uma das cadelinhas daqui de casa me puxava pela coleira...

não fiz xixi no poste e nem no colchão... deve ser a abstinência de álcol...

só pode...rs

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

coitados de nós, cirandeira...
coitados, que somos...

vivemos e não aprendemos.

saudades de te ler por aqui.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

taninha, conheço cães de olhos alegres.
triste mesmo é o o olhar do boi e sua sina de matadouro.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

um homem velho e de tino já meio perdido, jorgíssimo?
tem certeza de que não está falando de mim?

tem dias que braga doi tanto, amigo.
mas doi.... e doi e doi...

saudades, meu irmão.

abraço apertado do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

guiomar, vira laa de caráter duvidoso?
conheço centenas de pessoas assim, rossana. rs

aqui em casa sou minoria. penso como você. às vezes acho que o cão sou eu.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

já imaginou um edir macedo dos cachorrinhos?
que cachorrada seria, dado.... que cachorrada... rs


abração,

r.

Primeira Pessoa said...

a cachorra baleia de Vidas Secas é um dos personagens animais de que mais me lembro, Zé de Assis.

Aqui em casa, cachorro tem nome de gente.
são sempre meninas.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

emiliana,
a estupidez humana é algo que foge à minha incompreensão.
envenenar um animalzinho a troco de que?
animais, estas pessoas de coração ruim.

é bom te ver por aqui.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

inês,
Segundo minha filha Bebel, cachorro é assunto sério.
muito sério.

então, a gente tenta caprichar.

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

Sonia,
eu ainda não havia pensado sob este prisma.
no outro dia comentei aqui em casa qaue os 'cãs" ainda não sabem que são "cãs".

só falta comerem com garfo e faca.

beijo grande,

r.

Paulinho Saturnino Figueiredo said...

Cá estou, amigo, novamente abanando o rabo para os seus belos textos.

Verso Aberto said...


cão como gente
é descanino?

kkk
abração Beto

Indigo Horizonte said...

Más allá de las exageraciones de algunos, yo, que tengo una perrita en casa, he de decir que sabe más porque intuye más... porque no se deja embaucar. Su instinto le indica el camino. El hombre y la mujer olvidamos algo que el perro no ha olvidado aún: desarrollar el olfato y oler lo que los demás nos dicen cuando no nos dicen nada, o cuando nos dicen algo.

Abrazo grande, Roberto.

Lu Dantas said...

Às vezes, eu gosto mais dos cães do que de gente realmente...ser racional não é sinônimo de racionalizar as atitudes..infelizmente...

Abs