Tuesday, April 1, 2014

Frágil coração de poeta



Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que, se cair, pode quebrar.
O meu deu um grande susto na semana que passou.
Eu estava deitado, encafifado com um mote qualquer, quando senti aquela fisgadinha no peito. Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre. Não era. Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.


Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer. Fez massagem, compressa de toalha molhada, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parava. O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha. Veio a bateria de exames de coração e a coleta de sangue suficiente para escrever um poema em um muro. O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.


Enfarte é uma palavra tabu. Como a brochada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.

No escuro do quarto de hospital depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, tem medo.

Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho para ter sobre suas mesas um pedaço de pão, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu ‘corner’. Custou a amanhecer.

Sabino Torre, um italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso.
Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico, enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava minha virilha – o que muito me constrangia -, ele chegou ao meu ouvido e cantou a bola.


     - “Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio.
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias. Eu não havia, verdadeiramente, enfartado. Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.


O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é identificada por exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte.
Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado. As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos descendo a serra, abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido.  Por  pouco não virou festa.


Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates qualquer dia destes. Junto com meu pedido de desculpas.

Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca.
Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.


Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.

Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.

Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística. Com sorte, serei parceiro de Kleiton & Kledir em uma canção.

Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.

Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivírus no coração. Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um Kaspersky, ou de outra marca qualquer.

Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire.

Esses, sim, os antivírus mais adequados para coração de poeta.

 

11 comments:

Tania regina Contreiras said...


Lembro...rs Muito bacana...

Beijos

Verso Aberto said...

putz
que susto

concordo com os hábitos saudáveis
e também com os cortes
menos o sexo
que é dos melhores antivírus
kkk

SAÚDE MANO!!!

flor de lótus said...

ADOREI!




flor de lótus said...

ADOREI!




flor de lótus said...

ADOREI!




flor de lótus said...

ADOREI!




Sílc said...

....chorei miúdo...
Saudades.
Síl

Lázara papandrea said...

lendo aqui com mais calma. texto leve, lúcido, bem humorado, bem escrito, tudo de bom! Isso é melhor que viajar! abraços

Roberto Schiavon said...

Muito bom seu blog. Abraços!!

Sinval Santos da Silveira said...

Boa noite!
Fiquei encantado com teu blog
Este texto então...maravilhoso.
Abraços
Sinval

Pólen Radioativo said...

Isso foi, na verdade, um efeito colateral do que chamamos de VIVER, meu amigo. E tu o fazes com todas as letras maiúsculas. Graças a Deus, enquanto não chegamos ao final, vai tudo dando certo. Um beijinho e um apoio moral para as caminhadas que têm que ser diárias, viu!!!!