Monday, May 19, 2014

Polícia mineira

 
Meu pai era policial em Minas Gerais. Era soldado da PM. 
Aliás, ainda é.
Seu Antonio é reformado, o que dá no mesmo que aposentado noutras profissões.
Cresci vendo meu velho enfiado numa farda de cor cáqui, a esfinge de Tiradentes no distintivo do braço, os sapatos bem lustrados, os cabelos meticulosamente penteados para trás.
Papai achava que tinha serventia para a sociedade e que aquilo que fazia era importante para o país.
E era tão respeitado naqueles cafundós de Minas Gerais, que a única promoção que teve na vida - semialfabetizado que era e é -, foi concedida pela população.
Era o cabo Lima para muita gente. E cabo ele não era. Mas, enfim...

Meu pai já havia saído da ativa quando veio aos Estados Unidos nos visitar pela primeira vez.
Interiorano, sem instrução, jamais havia viajado de avião.
Entrou em um boeing da Varig no Rio de Janeiro e foi como boi de matadouro, entrando de fila em fila.
Fila do check in, fila de número tal - já dentro da aeronave -, assento tal, fila da imigração, fila da alfândega...

Eu e meu irmão o aguardávamos no aeroporto JFK e o avistamos de longe.

Vimos quando ele foi abordado por um homem de turbante - provavelmente indiano ou paquistanês - e levado para fora do aeroporto por uma porta adjacente.
Meu irmão e eu corremos, apressados, já temendo uma grande confusão.
Demos a volta por meio terminal e chegamos ao local onde estava parada a limousine. Chegamos esbaforidos, mas a tempo de ver o motorista retirando a bagagem de Seu Antonio do porta-malas.
Ao lado dele, vermelho, cara de bravo, nosso pai segurava na mão sua carteira de policial.

- Eu vinha andando para encontrar vocês, quando este fio de uma égua me puxou pelo braço. Inicialmente, pensei que ele trabalhava para o aeroporto. Quando vi, ele já tinha colocado minha mala no bagageiro do carro. Eu falei pra ele que não precisava, que vocês estavam me esperando, mas ele não quis saber. E ficava falando comigo nesta língua embolada dele. Na terceira vez que ele falou e eu não entendi, tive que fazer valer a minha autoridade.

- Como assim, pai?
    E ele:
-  Uai! A carteira da polícia de Minas Gerais vale em todo o território nacional.
Meu irmão riu e explicou:
- Aqui é outro país, pai.
- Então a carteira já está valendo por aqui também. Foi só eu xingá-lo de fio d'uma égua e mostrar-lhe a carteira de polícia mineira com cara de brabo, que ele saiu do carro rapidinho e devolveu a minha mala.
 

4 comments:

Sinval Santos da Silveira said...

Boa noite!

Gostei muito de conhecer teu trabalho.

Parabéns
Abraço
Sinval

Maria Andrade said...

muito bom, ri feito criança! um abraço.

Dalva M. Ferreira said...

Coitadinho. O fidumaégua deve ter confundido ele com algum magnata. Vai saber.

Liziane Rocha said...

Hola! He visto el periódico online "Jornal Brazilian Voice" y me ha gustado mucho. Estaré atenta para futuras publicaciones. Un saludo!