Friday, August 15, 2014

A Bigorna

(Para Celso Adolfo)
No outro dia peguei uns sapatos que gosto muito, mas com as solas já bastante gastas pelo tempo e saí procurando um sapateiro. Missão impossível.
Onde foram parar os sapateiros?
Neste mundo cada vez mais estranho, certas profissões desapareceram e foram morar no dicionário.
Ou melhor, exilaram-se no Google e na Wikipedia.
Os sapatos, assim como os barbeadores, os computadores e telefones celulares entraram na era do descartável.
Já não dá para fazer um remendo, uma meia-sola ou substituir a rebimbola da parafuseta.
É como se as pessoas já não se apegassem a mais nada (e a ninguém). O dinheiro virou capim. Tudo perde o seu valor instantaneamente.
No início deste século XXI ainda em fraldas - descartáveis, obviamente - as coisas já não são feitas para durar. A indústria é bruta.
Eternos, só os diamantes, como diz o reclame na televisão:
 "Diamonds are forever".
O amor, não.  

 O casamento acabou, mas o diamante do anel ficou.
Com a noiva, claro.
Nada mais justo.
Este é mais um dos privilégios concedido às ex-esposas desta era industrial.
Segundo um amigo de uísque, ser esposa é hoje um ótimo negócio. Com o que romanticamente discordo.
Recém-divorciado, ele garante que ex-esposa é uma das melhores profissões que existem. Rio dele.
 E ser esposa? - pergunto:
Nem tanto, ele admite.

 Mas eu falava dos meus sapatos, confortáveis, presente de aniversário de 45 anos, couro macio, Made in China, apesar do nome italiano no avesso da língua:
Altobelli.
Pego nos sapatos, apalpo, fito-os e penso nos lugares que caminhamos juntos.
Fomos a festas, reuniões importantes e até a um congresso realizado no Rio de Janeiro.
Aqueles sapatos pretos pisaram as areias sagradas de Copacabana, apesar do olhar de reprovação dos banhistas.
Juntos, fomos a casamentos e a um funeral.
Não gostaria de me desfazer deles, que estão bem conservados na parte de cima. É só trocar os cadarços, penso eu. Com capricho e cera, ficam novinhos em folha.
Mas não tenho quem lhe troque o solado ou, na pior das hipóteses, faça-lhe uma meia-sola, aquele tratamento em que uma nova camada de couro é colada à velha.
Neste momento me dá saudade de Seu Haroldo, homem de poucas palavras e torcedor do Botafogo, pai de Schubert, um amigo de infância que o bairro inteiro chamava de Chumbo ou, mais carinhosamente, Chumbinho.
Seu Haroldo passava tardes inteiras escutando música clássica e reparando os sapatos e sandálias daquele povo humilde que habitou a minha infância.
Ele tinha seu comércio onde deveria ser a sala da casa, com a palavra "sapateiro", escrita por ele mesmo na porta da rua.
Lá dentro tinha um banquinho - que devia fazer mal para as costas -, onde ele se sentava curvado de frente para a bigorna, tendo ao alcance da mão uma caixa de madeira em que armazenava pregos e tachinhas de diferentes tamanhos.
A bigorna, para quem não sabe, é uma engenhoca de ferro maciço com uma extremidade em formato de pé. Ele enfiava ali o sapato, que era para dar a necessária firmeza na hora da martelada.
Os sapatos recauchutados, lustrados, ficavam em uma prateleira ao alcance dos olhos do freguês.
Uma vez entregues, “duravam até acabar”, como ele garantia.
O cheiro da sala de seu Haroldo é algo que não consegui esquecer e que ficou impregnado em minha memória depois de todos estes anos.
Ficou o cheiro rude do couro, que ele comprava em peças inteiras e chamava de "sola".
O cheiro de tinta de pintar sapato.
E graxa de engraxar, naquelas latinhas lindas da marca Nugget.
E o cheiro da inocente cola, que viraria entorpecente nas mãos de meninos sem futuro em todo o Brasil.
Este futuro descartável em que vivemos agora.
Presente sem poesia e sapateiro.

30 comments:

Mariani Lima said...

Aqui em minha cidade tem uma grande loja de consertos de sapato, mas chama-se hospital do tênis. Não tem o ambiente apertado, lusco fusco, bagunçado, cheirando a couro do sapateiro da minha infância, mas se quiser...só mandar os sapatos rsrsrs...

Belo texto. Como de costume.
Abraços.

Celso Adolfo said...

Roberto Lima, uma das coisas que pretendo fazer é compor músicas inspiradas em profissões que desapareceram ou correm o risco de desaparecer. As lembranças de algumas delas estão vivas comigo: o ferreiro, o fogueteiro de festas interioranas, o alfaiate, a costureira. E o sapateiro. Aquele da sua crônica é o meu e de muita gente. Nela buscarei alguns dos elementos reveladores de um tempo diferente. O lirismo que há no seu texto ressalta a precisão de quem sabe contar uma história preservando suas emoções principais. Minha'alma pratiana está em frangalhos depois disso. Será que Haroldo me faria uma meia-sola nela? Obrigado por dividir comigo a sua viagem.

Primeira Pessoa said...

Mariani,
quero internar meus velhos Altobelli no hospital do tênis.
E conto com você.

Grande abraço do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Celso Adolfo,
o pai de nosso amigo Kiko (que neste momento vive na alvissareira e serelepe Ritápolis) era pirotécnico, como costumava se apresentar às pessoas. Seu Tião Fogueteiro é um grande contador de causos e você precisa conhecê-lo. Eu apresento.

Noves fora nada, tenho certeza de que, caprichoso artesão da arte da composição musical (como li num certo diploma pratiano) vai sair tudo bonito demais.

Saudades, amigo. Pra mais de metro.

R.

Suzana Guimarães said...

Suas crônicas são muito boas, Roberto.

Um abraço,

Suzana Guimarães, Lily.

Zélia Guardiano said...



Show, amigo Roberto!
Tudo transitório, efêmero demais...
Abraço apertado, querido.

marlene edir severino said...

Gosto muito dessas sutis delicadezas, Roberto!

Envia-me os ditos e mando consertar aqui na city.

Beijão!

cirandeira said...

Pois é, Roberto, o capitalismo não deixa pedra sobre pedra, como dizia Marx, "tudo o que é sólido se desmancha no ar". A nós só nos restam as lembranças, infelizmente!

Beijos

Primeira Pessoa said...

e não haverá de deixar pedro sobre pedro, segundo um amigo meu. o mundo está se tornando um iceberg, de frio.

beijo tão grande, só seu.

r.

Primeira Pessoa said...

Marlene,
quando eu for a Itajaí pra gente comer aquele peixinho no Mercado (que eu adoro... acho lindo), levarei outros sapatos.
Estes aí foram pro saco.
:-(

beijão,
r.

Primeira Pessoa said...

zelinha guardian,
poeta dos versos bonitos, tô doidim pra ler o seu Caderno de Desapontamentos.

fico feliz demais quando cê vem aqui.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

suzana,
fico tão feliz quando cê escreve isto, porque sua opinião me
valida, me dá serventia.

beijo grande

r.

Celso Adolfo said...

Quando e como ouvir as histórias de Tião Foqueteiro? Iluminem-se os céus com as chispas dele, e com algumas nossas!

Primeira Pessoa said...

Tião Fogueteiro é maravilhoso, Celso Adolso. Arranjemos isto pra outubro.

lembra da estória do tocador de tuba que entubou o bispo Dom Eugênio Sales? (ou seria Dom Lucas? já não 'se' lembro bem)... o tocador de tuba era ele...

vamos armar este encontro em ritápolis.

abs,

r.

Paulinho Saturnino Figueiredo said...

Nostalgia é sentimento de quando olhamos pra frente, enxergando pra trás. Mas, se olhamos para os lados, a ansiedade arrefece. Hippies, artesãos e outros alternativos se ocupam dos ofícios que o consumismo nosso de cada dia, expurgou.
Se o sapateiro se fez operário, seu neto, um deles, pródigo, fumará um mato diverso, se ornará com o penteado vistoso, e fará sandálias, colares, e, se pedido com jeito, te entregará lustroso o seu pisante chinês, mesmo o achando o mais ridículo dos objetos.
E você verá que o "ao lado" existe para que as saudades possam ser vividas aqui mesmo, nessa criação irrefreável que é a vida.

Ana P said...

Muito bonito

Pólen Radioativo said...

Que beleza! A gente acaba nem se dando conta da raridade dessas profissões. Aqui em SL ainda encontramos um ou outro cuja clientela ainda é a mesma da vida inteira. Beijos...

Primeira Pessoa said...

saudades de te ler aqui, Drika.
saudades, também, de ler seus poemas bonitos.

beijos,

r.

Primeira Pessoa said...

Que bom que cê gostou, Ana P.

Quero notícia das chuvas do Alentejo e do cheiro da maresia na ilha da Madeira.

Grande beijo do

r.

Sandra Cristina de Carvalho said...

Nossa, Roberto Lima, adorei o seu blog e o seu estilo. Fiquei muito comovida de ver que você me seguiu, logo eu, uma estreante blogueira, um cronista maravilhoso como você, conheceu o meu humilde cantinho, o espaço onde me expando em sonhos e fantasias. Que bom! Quando li o seu texto 'A Bigorna,' fiz uma comparação com alguns sentimentos meus, dos quais não abro mão, mas que me deixam encabulada em relação a eles: Sinto-me como se viesse de tempos de outrora, onde os sapateiros faziam seus pontos de trabalho, e a qualquer lugar que fôssemos, os encontrávamos facilmente. Parece que estive andando por essas calçadas por muitos anos. Essa sensação não resultam somente das literaturas consumidas desde a infância, por mim, e nem tampouco dos filmes de épocas, dos quais sou admiradora. Essas sensações nasceram comigo. Talvez por eu crer que viemos de outras existências. Amei o seu conto, me senti como se fizesse parte do cenário.
Uma ótima semana abençoada pra você. Obrigada.

Além da Porteira said...

Manim,

A gente que tem essa veia romântica ... a gente sofre viu...
Outro dia levei um par de sapatos como os seus, ao sapateiro aqui da minha rua (a Vila Mariana ainda resiste...). Olhei feliz nos olhos do sapateiro como quem coloca um filho nos braços de um padre para o batismo. E ele:
"- Isso aqui num presta pra nada não..."
Foi-se o romantismo, e com ele meu par de sapatos preferido...

Saudades manim!
Beijo
Diubs

Primeira Pessoa said...

maninha,
no caso do seu sapateiro, quem desapreceu é o homem dentro do ofício. aqui nos EUA os mecânicos não consertam mais nada. eles substituem uma peça defeituosa por uma nova. não deveriam ser chamados de mecânicos, mas de substituidores automotivos... algo assim...
sei exaamente o que você sentou. tomara que não tenha sido aquele sapatim do bico chato da fotografia... lembra qual?

beijo,

r.

Primeira Pessoa said...

Sandra,
fico feliz que tenha vindo. sinta-se em casa.
este é um cantinho para os amigos. esteja a vontade, a casa é sua.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

Paulinho Saturnino,
você é uma pessoa muito especial e que me ensina muito.
Sua presença no blog me traz imensa alegria.

tá marcado aquele almoço na casa de seu totoca. já tenho até a data.

beijão,

r.

Primeira Pessoa said...

Criandeira,
a resposta de "pedro sobre pedro" é procê, viu?

beijão,

r.

Adri Aleixo said...

Tocou-me muito, sobretudo pela questão do casamento. Adoro suas crônicas.

Beijo!

Primeira Pessoa said...

adri,
fico feliz que tenha gostado. mais feliz ainda por ter merecido uma visita sua.

ó, prestenção: amanhã será um dia de sol.

beijão,

r.

Sônia Brandão said...

Tenho mais sorte. Aqui na minha cidade ainda há um bom sapateiro (não sei por quanto tempo).
E tenho guardada entre minhas relíquias uma dessas bigornas. A minha tem três pés com tamanhos diferentes.

Beijo

Primeira Pessoa said...

Sonia,
a bigorna de seu Haroldo tinha três pés, como a sua. Um dos pés para calçado de crianças. vi claramente aqui, naquilo que te li.

beijo grande do

r.

d'Angelo said...

Mais um texto delicioso, Roberto. Aqui em Pouso Alegre (MG) ainda temos alguns sapateiros, costureiras que reformam roupas, engraxates com suas caixas, carroceiros, mas não demora e serão lembranças em fotografias.