Saturday, December 6, 2014

Partagas, Montecristos...




(Para Afonso Borges)

A primeira vez que me deparei com um charuto era menino. Foi numa encruzilhada e ele estava lá, sugestivo, ao lado de uma galinha assada e uma garrafa de Velho Barreiro. Fiquei intrigado.
Na nossa casa a comida era servida sobre a mesa e os cigarros de papai, apesar de igualmente sem filtro, eram mais finos e curtos.
Dona Rute explicou que aquilo era uma oferenda, colocada ali como atestado da fé de alguém, um agradecimento, talvez um pedido de ajuda.
O tempo passou e eu demoraria a me deparar com outro charuto.
Oferendas em encruzilhadas, voltaria a ver. Muitas.
Algumas tinham farofa, outras tinham frutas, o que me faz lembrar de um episódio pitoresco.

O roqueiro Ozzy Osbourne, de passagem pelo Brasil  em 1985, subia uma trilha na mata para chegar ao Cristo Redentor,  quando deu de cara com uma insinuante bandeja de frutas colocada ao pé de uma cachoeira.
Para espanto da entourage, o homem que já arrancou a cabeça de uma pomba com a boca durante um show, não tomou conhecimento dos alertas de mau agouro feitos pelo guia.
Sentou-se tranquilamente sobre uma pedra e  devorou a oferenda. Não morreu. Nem parou de fazer sucesso.
Mas, eu  falava de charutos.

Ah, os charutos possuem um certo charme, um èlan... 
Quem nunca viu a foto de Che Guevara relaxado, sublimado pela fumaça de um Partagas?
De memória, evoco a imagem da atriz Sharon Stone nas páginas da revista Cigar Aficcionado.
Ou a de Belchior, na capa de Todos os Sentidos, um de seus melhores discos.
Bill Clinton quase deu ao charuto uma má reputação, admito. Mas estes são outros quinhentos.

Assim como eu, o escritor Afonso Borges também fuma charutos. Sempre que vou ao Brasil, trato de presenteá-lo com Cohibas e Montecristos, suas marcas favoritas. O que não é muito bem visto por Tatyana, sua mulher.
É que nem todo mundo gosta do cheiro de tabaco, mas Afonso é capaz de muitos sacrifícios para desfrutar deste prazer proibido em sua casa.
Toda vez que fuma, submete-se a um verdadeiro ritual de purificação, que inclui mandar a roupa para a lavanderia, bochechar a boca com produtos que podem ir de Listerine a água sanitária.
Em seguida, toma um banho demorado, escova os dentes  três vezes e se esbalda em bom perfume francês.
Mesmo assim, Tatyana o fareja à distância:

-  Fumou charuto outra vez?.

Resignado, exila-se no quarto de visitas.

Nestas noites,  ele sonha com a brisa do mar de Havana e o hálito cítrico dos mojitos da Bodeguita del Medio, compartilhados fraternalmente com o fantasma de Ernest Hemingway.

 
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8 comments:

Tania regina Contreiras said...

Ué, tu achou galinha assada na macumba? Eu só sabia de galinha morta, mas não assada. Mas, ando por fora das macumbas. Aliás, antigamente colocava-se dinheiro. Mas já não se faz macumba como antigamente. Dinheiro em macumba até eu arriscaria. E, quanto aos charutos, acho charmoso fumar e desses seus, cheirosos. Uma vez me chamaram pra tomar um "passe" numa casa de umbanda, fiquei enebriada pelo cheiro do charuto do pai-se-santo, que estava encorporado com Obaluaê. Perto de mim, e aquele cheiro gostoso... Não deu outra: antes de saí pedi um. Nem consegui dar uma tragada. Acho que o preto-velho que encostou em mim foi embora e a vontade passou... :-) Bela, gostosa, deliciosa crônica, sempre é! beijos, Beto.

Eleonora Marino Duarte said...

Roberto,
que delícia de texto!
embora não apoie o uso de tabaco, nada mais elegante do que um homem e seu charuto, fumado em boa biblioteca, acompanhado de um conhaque, ou uma "Providência", a la JK :)

beijo.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Uma crônica assim dá vontade de... fumar, muitas vezes; de tão leve entre os dedos. Quando digo que cê pinta com as tintas de Rubem e Renoir, ninguém me pode desdizer. Olha, no dia mesmo que fui intimado rabisquei um textículo para a-postar lá no site da Cultura, mas desisti depois de várias variadas tentativas: nunca dava certo, e não sei pourquois; aliás, sei: a informática e eu ainda não nos apresentaram devidamente. Vai-o aqui, de toda maneira:

"Meninos de São Raimundo é livro como os outros, composto de páginas, mas, feito nenhum outro, compõe-se das crônicas belíssimas de Roberto Lima, e dos lindíssimos poemas de Bispo Filho, que, em sendo lido, parece que quem o escreveu, e o vai reescrevendo, deliciosamente, página por página, lembrança por lembrança, é o leitor que o tem à mão, em mãos, enquanto os pés já se vão longe, pra lá da terceira nuvem. É o livro que todo mundo gostaria de escrever, a sós ou em companhia do melhor amigo: esse artigo raro que só o afeto pode comprar. Compre logo o seu Meninos de São Raimundo e depois me conte, e reconte a seus melhores amigos."

Abração, Betoímã.

Primeira Pessoa said...

Da Rama,depois daqueles gols contra de cabeça, está na hora de fazer um golaço pro nosso time.
Tente de novo, por favor.
Peça ajuda aos universitários, se preciso for.
Ficou bacana demais o texto.
Um dia destes celebraremos juntos. Escreve aí.

Beijão
R.

Primeira Pessoa said...

Eleonora,
moça que reina em Ponta Delgada, minha eterna companheira de viagem, adorei o texto que me indicou e aprendi um tantão sobre charutos.
obrigado, muitão.

Beijos,

r.

Primeira Pessoa said...

Taninha,
seu comentário me colocou dentro do centro de macumba. Senti até o odor da fumaça, vi as cores das pessoas e suas roupas.
carlos borges, um grande amigo de alagoinhas, disse-me que havia uma fábrica de charutos maravilhosa no estado da bahia. preciso pesquisar. deve ter ido de lá, os charutos utilizados no ritual.
se der, ainda pito uns dois.

beijo grande,

r.

cirandeira said...

Roberto, gosto do cheiro de charuto, mas não gosto do cheiro
da fumaça que sai dele. Mas gostei muito de tua crônica, com sempre, aliás.

Não entendi porque não conseguiste
postar um comentário no 'mínimo', qual foi a dificuldade que encontraste? Lamento muito que isso tenha acontecido...

Obrigada pela preciosa visita :)

Beijos

d'Angelo Rodrigues said...

Roberto, seu texto me fez lembrar de uma esquina próxima ao local onde moro, em que encontrei muitas vezes rosas, bebidas e perfumes iluminados por velas (alguma questão imobiliária deve ter levado as oferendas daqui). Gosto de encontrar em seus textos, sempre repletos de fluência e lirismo, esse memorialismo delicado, bem humorado e sempre cativante.