Tuesday, February 24, 2015

A Fundura da Queda


 
Não tem ninguém em casa. A família foi passar o carnaval no Brasil e você fica em New Jersey. Fica por compromissos de trabalho, mas fica também por opção. Com um pouquinho de esforço teria ido junto.

Fica só nesta casa grande, na companhia de duas cadelas e três passarinhos, que você tem obrigação de alimentar e cuidar todos os dias, apesar de não gostar de animais dentro de casa.

Trocar o frio do inverno americano por uns dias de calor no litoral de Santa Catarina não esteve nas cartas, nos búzios ou na palma da sua mão. Você ficou de fora. Tudo bem. Conforme-se.

Você se levanta tarde, depois de ter bebido um Rio Hudson de cerveja na véspera, está meio ressaqueado, o corpo pede um banho quente.

Você fica nu, liga o chuveiro ainda meio dormindo e nada acontece. As baixas temperaturas deste inverno congelaram o encanamento e a água não chega ao segundo andar. Congelou tudo. Nada feito. O jeito é voltar para a cama.

Foi o que fiz.

Mas mesmo a cama fica um ninho de espinhos após um certo tempo. Apesar do frio e da neve lá fora existe uma vida para viver. É sábado, eu sei, e hoje  não trabalho.  Lembro-me de um bacalhau que comprei para estrear o meu novíssimo forno elétrico.  Nem tudo está perdido.  Na geladeira ainda tem umas cervejas tchecas, maravilhosas, que sobraram da visita de Fábio Portugal.

Não, nada está perdido.

Conformo-me com a ausência do banho, mesmo sendo uma daquelas pessoas que não se são sem um banho bem demorado pela manhã. Levanto a persiana, bisbilhoto a rua e vejo que volta a nevar forte.

A neve promove um silêncio ensurdecedor quando cai.  Trata-se de um fenômeno belíssimo em um cartão postal ou numa cena de filme.  Na vida real é gás paralisante. Tudo fica inerte. Constrói um momento de rara beleza, mas também de aniquilamento, de sofrência, como dizem hoje por aí.

 Resolvi cuidar da vida. Desci de cueca mesmo, a boa e velha samba canção, uma camiseta de mangas-compridas com uma estampa de Adoniran Barbosa e uma pantufa, presente de natal de minha filha do meio.

Desço ao porão da casa e percebo que Layla, a cachorrinha mais nova, havia transformado o ambiente em banheiro. Fiquei aborrecido, pequei um balde com água, detergente, e joguei por todo o chão. Eu que já havia colocado o bacalhau no forno elétrico, lá em cima, temi que ele queimasse enquanto higienizava o porão. Resolvi parar a limpeza e ir diminuir a temperatura do forno.

No que girei o corpo no sentido da escada, a perna direita foi em direção ao destino com o escorregão, o resto do corpo não.

 Pensem numa bailarina.

 Senti que o joelho iria se partir em dois, arremessei o corpo, reflexo enferrujado de goleiro de futebol de salão e encontrei uma pilastra. Bati com o quadril em sua quina e vi estrelas. Constelações. A boca amargou.

Eu ainda me contorcia de dor no chão, o corpo embebido naquela mistura de detergente, água e urina de animal, quando vi tudo escurecer. A luz acabou naquele exato momento. Em 31 anos vivendo aqui, fora da catástrofe do furacão Sandy, a luz só falhou, se não me engano, umas três vezes. E sempre voltou rapidinho.

 Mas ali ela me abandonara e eu me contorcia de dor, sozinho, em plena nevasca. O telefone celular se encontrava do lado de minha cama no segundo andar e eu não tinha ninguém para me socorrer.

 A família no carnaval, meu irmão Antônio (que vive a 5 quadras) na Flórida e mesmo Artur Moreira e Peter Frank Pantoliano, amigos com quem sempre conto, estavam inalcançáveis, pelo fato de eu não ter um telefone à mão.

Fiquei mais de seis horas no escuro, sozinho, acometido por fortes dores, sentindo uma fragilidade que desconhecia até então. Acabei encontrando forças e me arrastei até o quarto, numa maratona que jamais esquecerei.

 A luz voltaria. A água quente, também.

 Tomei um percocet, dois dorflex e me entreguei.

 Foi sinistro, admito. Tive medo.

Aprendi a entender um tanto bom de coisas da nossa condição humana. E a acreditar em milagres.

O forno em que eu assava o bacalhau era elétrico e estava ligado a 350 graus Fahrenheit , quando a luz da casa apagou.

8 comments:

Eleonora Marino Duarte said...

já tive oportunidade de dizer da minha agonia quando li o que houve, agora vou falar da beleza da Literatura, que consegue transformar uma tragédia em esperança e agradecimento. Esperança em existir alguém nesse cosmos imenso que olha por nós e nos preserva do pior e agradecimento por podermos transformar o estrume em perfume.

Aqui, no trecho que destaco, vejo o resumo claro e preciso do que lhe aconteceu naquele dia:

«A neve promove um silêncio ensurdecedor quando cai. Trata-se de um fenômeno belíssimo em um cartão postal ou numa cena de filme. Na vida real é gás paralisante. Tudo fica inerte. Constrói um momento de rara beleza, mas também de aniquilamento, de sofrência, como dizem hoje por aí.» sim, foi isso.

um grande beijo, Roberto e parabéns por transformar em arte uma coisa que não tem a menor beleza.

Primeira Pessoa said...

Feliz com a sua vinda aqui, Eleonora. Sempre que você vem, traz um cheiro de ilha, uma brisa de mar.

Beijo com o carinho de sempre,

R.

Concha Rousia said...

Nossa Roberto querido, primeiro ri, até porque te imaginei de bailarina, mas depois senti tua dor aqui no meu peito, tua solidão e fragilidade... Beleza poder por ordem nessas imagens todas com tua mestria... Abraços com ternura

Primeira Pessoa said...

Conchita, querida,
viver é cair e levantar, né?
este é o mistério.

beijocas,

r.

Nina Rizzi said...

mais vivo que um ferlinghetti vivo. viva você.

Primeira Pessoa said...

passei um cagaço, ninuska. entendi, ali, que merdas às vezes acontecem.

beijos,

r.

Tatiana said...

Roberto, tô pondo em dia minhas leituras preferidas de blog. Não comentarei tudo, pq perderia o tempo de ler mais. Só queria registrar q Há anos não passeava por aqui e me vejo de novo encantada. Tua escrita trágico-cômica é sempre divertida e cativante. Tem aquela pitada de sal que dá sabor ao doce, sabe assim?
Receba meu abraço. Espero que as costas, a bacia, o joelho, enfim, já estejam em ordem. E que pendures de vez as sapatilhas.

Primeira Pessoa said...

A bacia "amassou", Tatiana... o joelho tá meio capenga, como o dono... Ah, a idade... rs
Como diria o seu conterrâneo kledir ramil, 'tirando o que tá ruim, o resto tá tudo bom'.


beijão,

r.