Monday, March 9, 2015

O Mundo Não Acabou




O pastor evangélico disse ter recebido uma mensagem direta do chefe e anunciou que deste fim de semana não passaríamos. Foi uma confusão.
 Muita gente ficou esperando a chegada de Cristo para o julgamento final, mas acabou ficando na base do dito pelo não dito e a vida continuou.
 O que você fez, enquanto esperava o mundo acabar?
 Não acreditou e ficou na sua, tocando o o seu dia?
 Ou ficou ressabiado, meio que duvidando, meio que acreditando, como alguns?
 Conheço uma moça que foi ao cabeleireiro e vestiu roupa de gala para o encontro com o Senhor.
 Ela esmaltou as unhas de encarnado, enfiou-se num longo negro, justíssimo, e subiu nuns salto-altos de abalar Bangu.
 Como se não bastasse, pintou a boca de batom, rubra flor, escandalosa cereja.
 Outro amigo meu, lá na Bahia, fez sua última ceia.
 Ele tomou umas cervejas, entupiu-se de acarajé e vatapá, acendeu um cigarrinho do capeta e se deitou numa rede e ficou ali, de olho na chegada de Deus.
 De minha parte, garanto que não acreditei nas previsões do pastor Harold Camping, mas a obrigação de jornalista falou mais alto.
 Sintonizei a CNN lá pelas 4 da tarde e fiquei aguardando, horas a fio, quase achando que assistiria ao vivo e em cores a chegada do nosso momento final. Estava cheio de dúvidas.
 Seria uma espécie de Big Brother em que todos sairiam da casa e ninguém ganharia um milhão?
 Seria um novo Armagedon?
 Seria como num filme de ficção científica de Spielberg ou como uma novela das oito?
 Seria uma explosão nuclear?
 Um tsunami?
 Um carnaval?
 Um pregão da Bovespa?
 Um gol do Corinthians?
 Fui dormir bem tarde, extenuado, frustrado e vencido pelo cansaço. Na manhã seguinte, no outro extremo da cama, minha mulher dormia o sono mais justo.
 Levantei, desconfiado, fui até a janela do quarto, pé ante pé e olhei pela greta da veneziana: sim, estava tudo no mesmíssimo lugar.
 Consegui escutar a algazarra da passarinhada fazendo festa e um caminhão barulhento, queimando óleo diesel numa rua adjacente.
 Não, nada mudou.
 Mas poderia ter mudado.
 Já imaginaram se a humanidade encarasse essa nova manhã como uma segunda oportunidade?
 Já imaginaram se cada pessoa que vivesse neste planeta resolvesse, de comum acordo, mudar tudo?
– Sim, o mundo acabou. Mas vamos reconstruir um outro novinho em folha. Vamos passar a humanidade a limpo!
 Seremos nós, homens e mulheres do planeta, os criadores deste novo lugar. Seremos os novos parceiros de Deus e aboliremos a religião.
 Nunca mais seremos homem-lobo-do-homem. Nunca mais seremos canibais de nós próprios.
 Desaparecerão os tiranos, os truculentos e os vendedores da salvação.
 Será um lugar melhor, mais justo, tolerante e sem desigualdades.
 Um lugar em que as palavras fome e guerra serão apagadas do dicionário.
 Deste mesmo dicionário desaparecerão também o preconceito, a ganância e a violência.
 Leveza, generosidade, gentileza, cordialidade e solidariedade virarão verbos.
 Neste novo mundo, homem e mulher serão a mesma coisa.
 Será um lugar em que crianças e idosos serão respeitados e cuidados.
 Um lugar em que a vida será preservada acima de tudo e terá valor superior ao de qualquer comodidade de mercado.
 Valerá mais que petrodólares ou ações de Wall Street.
 Mais que ouro. Mais que prata. Ou qualquer outro vil metal.
 Neste novo mundo sem fronteiras e de bandeira única, a consciência ecológica e o respeito aos direitos humanos serão praticados com a naturalidade dos que respiram o ar mais puro.
 E cada cidadão será livre para pensar, se expressar e ser.
 Já imaginaram se o mundo – esse novo mundo! – estivesse apenas começando…
Já imaginaram?


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9 comments:

Concha Rousia said...

Que bom seria, que bom seria esse novo mundo... Torçamos por ele, pisamos, digamos ao Univerdo que queremos isso, e talvez nós próprios nos escutemos e ajamos... Adorei !!!

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Tocou Imagine, de Lennon, e tocou O Astro Vagabundo, de Nilo e Raimundo, no meu coração de poeta, poeta da crônica! E ressoou um Pessoa too! E vou reler de novo outra vez O Mundo Não Acabou, mode recomeçar bem o meu dia...

Dois Rios said...

Só não acabou no papel, Roberto, mas os sonhos, esses ninguém nos tira.

Beijos,
Inês

Primeira Pessoa said...

Inês,
podem nos tirar tudo, menos a capacidade de sonhar.
Somos e seremos, sempre, juntos.

beijão,

R.

Primeira Pessoa said...

Da Rama,
vou escutar Astro Vagabundo, agora.
Tim-tim!

Beijão,

R.

ps: e seu blog, sujeito?

Primeira Pessoa said...

Eu faço isto todos os dias, Conchita.
Mas acho que da Galiza a voz chega maior e melhor ao destino, aos ouvidos de Deus.

Beijos

Roberto.

PS: E o República da Rousia? Eu tenho visto no passaporte para frequentá-lo.

Tatiana said...

roberto, eu daria um rim pela possibilidade de passar um régua e recomeçar o mundo a partir de outros parâmetros.
Mas a verdade é que cada um de nós pode se recomeçar a qualquer momento, não é?
abração e um bom começo de weekend!

Primeira Pessoa said...

Tatiana,
todos os dias eu me pego pensando na impossibilidade de apagar o ontem. Não acho a tecla "delete" e, mais frustrante ainda, sofro com a enorme dificuldade de escrever melhor o dia de hoje.

a condição humana é um trem de doido.

beijo grande,

r.

Anonymous said...

Não apague o ontem.
Um ontem dentro do peito é um sobrevivente em meio a esse mundo de aniquilados.