Wednesday, July 15, 2015

O brilho diferente das estrelas


Morar em Nova York e Los Angeles tem destas coisas.
Você está em um café e, de repente, surge pela porta uma estrela de Hollywood sem maquiagem, uma criatura normal.
Ela entra, pega seu cappuccino, senta-se à mesa ao lado e existe – mortal por um breve momento -, no mesmo espaço que você. E você finge naturalidade, o olhar encompridando na direção dela, naquela quase certeza de que somos filhos do mesmo Deus.
Recordo-me de quando o diretor Steve Spielberg esteve em Newark para a gravação de cenas do remake de A Guerra dos Mundos.
Ele, Tom Hanks, Dakota Fanning e toda a trupe interagiram com os moradores do bairro, deram autógrafos, posaram para fotografias, comeram nos restaurantes e fizeram a alegria de muita gente. Eu não os vi. Mas notei que depois que acabaram as gravações a região das Cinco Esquinas ganhou um ar diferente.
Foram-se as estrelas, mas ficaram faíscas ainda acesas, centelhas, restos de uma luz diferente que não consigo explicar.
Ficou um élan.
Deixaram um ar de não sei o que, apesar de tudo ter ficado absolutamente no mesmo lugar. Mas que ficou diferente ficou.

No outro dia eu escutava um programa de rádio em que ouvintes telefonavam relatando experiências de encontros com seus ídolos e um deles me chamou a atenção.
O ouvinte trabalhava em uma empresa de seguros e estava em Milwaukee para uma convenção. Após os trabalhos do dia, combinou de se encontrar com alguns colegas no bar do hotel para tomarem umas biritas e celebrar seu aniversário, que coincidentemente acontecia naquele dia.
Ao fim das palestras ele tomou um banho, vestiu-se, perfumou-se, pegou elevador e observou um baixinho de olhos esbugalhados que havia entrado alguns andares acima. Cumprimentam-se e o baixinho perguntou para onde ele estava indo.
O ouvinte explicou do encontro com os colegas e do aniversário que seria celebrado com muito uísque e cerveja.  O baixinho sorriu e perguntou se poderia se juntar a eles para um coquetel ou dois. O ouvinte se animou e disse que sim.
Na cena seguinte, todos bebem e celebram no bar do hotel, que tem um piano de cauda em um canto do salão. Um pouco depois da meia noite, todos estão bastante eufóricos pelo efeito da bebida e o baixinho de olhos esbugalhados se senta ao piano e começa a cantar.

“It’s nine o’clock on a Saturday
 The regular crowd shuffles in
 There’s an old man sitting next to me
 Makin’ love to his tonic and gin”

Billy Joel cantou e tocou até às 3 da manhã, naquele que foi, segundo as palavras do ouvinte, o melhor aniversário de sua vida. Teria sido o da minha também.

Vivo pertinho de Nova York desde 1984 e já esbarrei com muitas celebridades em minhas perambulações pela cidade, mas jamais vivi algo parecido com a estória do ouvinte da Z-100.
Rihana já jantou na mesa ao lado da minha no Da Silvano’s. Noutra ocasião tive que abrir a porta do banheiro do mesmo restaurante para Matt Dyllon. E ele tinha a pressa dos mortais.
Já vi Woody Allen comendo uma fatia de pizza no East Village e acompanhei as pernas bonitas de Kim Basinger atravessando a Bleeker Street em direção a Thompson. Nada, no entanto, foi mais único e estranho do que o que vou relatar.

Estou no provador da Barney’s, tentando abotoar um jeans.
O andar está completamente vazio e sinto-me abandonado porque o vendedor saiu em busca de um número maior e não voltou.
Ele demora e fico impaciente. Esgueiro a cabeça para fora da porta e não há ninguém ali.
 Saio vestido de cuecas e meias brancas procurando pelo bendito vendedor, quando vejo sair do provador do lado um homem de uns 60 e poucos anos, óculos escuros, também só de cuecas e meias coloridas.

– Como vai você? – ele pergunta, todo relaxado.
– Bem, obrigado. E você? , balbucio meio sem graça.
– ‘Cool’, ele diz.

Volto para o meu cubículo e fico quietinho até me certificar de que ele se foi. De que todo mundo se foi.
Jack Nicholson consegue ser ‘cool’ - e intimidante - até quando está de cuecas na frente de um estranho também de cuecas.

7 comments:

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Uma estrela reconhece outra, uai...
Bela crônica como de costume, pintor...

Tania regina Contreiras said...

Falei para a Aninha (Ana Cecília Romeu) o quanto vocês dois encantam nas crônicas. Transformam qualquer tema em uma escrita absolutamente cativante. Vocês são "de verdade" e isso emociona mais ainda. Beijos, Beto, adorei...

Primeira Pessoa said...

Da Rama,
estrela é você, e eu sou fã demais.
Gisssóis giram em meus caracóis.

Beijos

R.

Primeira Pessoa said...

Tania, Taninha,
eu escrevo é pra você. Sempre escrevi, sempre escreverei.

Beijos

R.

cirandeira said...

Beto, também gostaria (e muito!) de ter o "feeling" que tens para crônicas!

Um beijo, e obrigada pela visita

Primeira Pessoa said...

Cirandeira,
eu lhe visito bem menos do que deveria. No seu cantinho sempre tem água boa para beber.

Beijão do

R.

Leonina Heringer said...

As crônicas dependem mais da coragem de contar o que nos acontece do que de ser um especialista na arte de escrever. Qdo se pode juntar os dois (como no caso do Roberto Lima) fica ainda melhor.