Saturday, August 29, 2015

O nome da música


Mergulhei no filme De Pai Para Filho - que conta a história da convivência de Luiz Gonzaga e seu filho Gonzaguinha -, e passou um outro filme em minha cabeça (e em meu coração).
E este outro filme remonta ao ano 1988 e eu estou em minha casa, quase almoçando, quando um amigo que produzia o show de Gonzaguinha em New Jersey telefonou, apavorado:

    - Estou com um pepino na mão. Peguei o Gonzaguinha no aeroporto, ontem, mas ele é seco de corte. Já tentei de tudo quanto é jeito entabular uma conversa com ele, mas o cara é uma casa sem portas ou janelas de tão calado.

 Fiquei animado com a possibilidade de conhecer o ídolo, mas bastante receoso.  Afinal, sabia de dezenas de estórias a respeito de um dos meus compositores favoritos. E todas elas falavam de um cara interessantíssimo, mas de difícil trato. Genioso, introvertido, politizado, inteligente e absurdamente “seco” com as pessoas, o que diziam - psicólogos do brejo -  ser resultado de sua difícil relação com o pai, o Rei do Baião.  Noves fora nada, diziam ainda que Gonzaguinha ficava incomodado com o assédio dos fãs.

 Para ilustrar o ponto, o produtor contou que no dia anterior estiveram em uma loja da Rua 46 e Gonzaguinha espinafrou o gerente, que pediu para tirar uma foto com ele. A polaroid seria para colocar na “parede da fama”, que continha fotografias de todas as personalidades brasileiras que passaram por lá.
 Gonzaguinha teria permitido a foto, mas apenas depois de desconcertar o gerente com uma cátedra sobre uso de imagem e suas indevidas ramificações.
     - Você vai vender mais eletrônicos com a minha fotografia na sua parede e eu ganho o que? - teria dito o compositor de tantas canções bonitas.

Pensei antes de dar o sim e, corajoso, fui ao encontro.
Os dois me esperavam numa mesa ao fundo do Scorpio’s, em Elizabeth. Fomos apresentados e a empatia foi imediata.
Gonzaguinha havia abdicado do cavanhaque, sua marca registrada, e usava agora um bigodão que se esparramava até o queixo.
No braço, um relógio do tamanho de um despertador e as mangas da camisa arregaçadas, como nas capas de seus discos.

 Pedimos uma cerveja, duas, três.
 Pedimos tantas, que não me lembro mais quantas. E as dele, ele deixava esquentando sobre a mesa, antes de começar a bebê-las, mornas.
     - Quem bebe cerveja estupidamente gelada – como num comercial de TV que havia no Brasil no final dos setenta – só pode ser um estúpido, explicou.
     Ao que eu, diplomaticamente, respondia:
     - Questão de gosto. Quente? Só sopa e mulher.
     E ele ria, tímido.

Falamos de tudo.
Futebol, política, família, mulheres bonitas, culturas diferentes, Morro de São Carlos, Morro da Orelha (em São Raimundo) e sei lá quantos outros assuntos e morros. Tudo, menos música.
Já estávamos naquela prosa havia pelo menos sete horas, quando dei uma vacilada e disse que gostava muito de suas canções, e em especial de uma delas, que quase me fazia chorar.
Levei uma descompostura imediata do artista, que deixou claro que era desnecessário bajulá-lo, e que “aquilo” era um desatino meu.
Tremi.
Eu havia dado vinte litros de leite e um coice no balde.

Vendo minha cara de desapontamento, ele resolveu dar uma segunda chance, generoso, perguntando que canção era aquela que "quase me fazia chorar".
Deu um branco na hora. Pode ter sido a cerveja ou a força do coice.
 
- Eu não me lembro, Gonzaguinha.

E ele, visivelmente desapontado:
- Vê? E eu achando você um cara legal.
E continuou o massacre:

- Você chega e me ganha, depois estraga tudo dizendo que é meu fã e não sabe sequer o nome da tal música que quase te faz chorar.

Aí também, não, sacudi.  Olhei pra ele, cheio de brios, e retruquei:

- Eu me esqueci do nome da música, mas sei cantá-la.
 E ele, desafiante:

- Sabe? Então canta pra mim.

 Tomei um gole de cerveja, pigarreei para limpar a garganta e comecei a gaguejar, timida e desafinadamente:

 Hoje eu sei, eu aprendi que a festa e a solidão
 Andam juntas, dançam juntas, no mesmo salão
 Se acarinham, amam, brincam num só coração
 Num só coração
 Meu coração/ Meu coração/ Meu coração
 Meu grande coração


 Gonzaguinha me tomou a canção, emocionado e continuou a cantá-la, os dois homens de olhos marejados, um momento genuíno acontecendo ali:

 Um terreiro embandeirado, foguetes, fogueira,
 Lua, lindo céu lavado, delírio, roleira,
 Fim de brasa, sombra a cinza, é borra, é prata
 Cola, gruda, permanece no chão da sapata
 No chão da sapata/ Chão da sapata/ Chão da sapata
 Chão da minha sapata


Quando Gonzaguinha terminou de cantar eu estava completamente à mercê da beleza daquele momento.
E ele também.
O compositor me deu um abraço afetuoso e sussurrou, com a cabeça pousada em meu ombro:

- O nome desta música é Festa e Solidão. Nunca mais se esqueça disto.

E eu nunca mais me esqueci.

11 comments:

Tania regina Contreiras said...

Já havia lido essa crônica e nunca esqueci! Beijos, Beto

Indigo Horizonte said...

ES siempre un placer leerte porque las palabras fluyen. Y las emociones también.

Primeira Pessoa said...

AH, taninha, cê nunca se esquece.
é procê que eu escrevo, sempre.

sei que cê não se esquece ((também!) disto.


beijo de irmão

r.



Primeira Pessoa said...

indigo,
te falar da felicidade de vê-la novamente por aqui é quase desnecessário. falei hoje com concha rousia de voltar a compostela. quero ir com mais tempo para flanar pela cidade e te quero conosco. desta vez roubarei os piões de sues filhos :-)

beijão

r.

aulus mourão said...

que trem mais chick, !!!!!

Primeira Pessoa said...

Chique é receber você aqui, Aulus Mourão. Uma honra.

Beijão,

Roberto.

Luciene Castro Cavalcanti said...

adorei!

Sam said...

Primeira Pessoa

chorei lendo isso.
ando na via da comoção
para completar, vim usar a chave disponível embaixo do jarro de flor e deu nisso.

abra
aço,

Primeira Pessoa said...

Sam,
eu admiro todas as pessoas que choram pelos motivos certos.
Beijo grande

R.

Primeira Pessoa said...

Volte sempre, Luciene.
A casa é sua.

Abração do

R.

Indigo Horizonte said...

Si vas a Compostela, avisa con tiempo. O Si pasas por Madrid, la Mancha te espera. Un abrazo enorme, Roberto. Cuídate. Y mil gracias por tus palabras.