Thursday, February 18, 2016

Porque hoje é quinta-feira



(Para a Sandra Brito, a Britox)

Acordei no horário de sempre, preparei café e parece que algo está acontecendo à minha volta. Tem sempre alguma coisa acontecendo, não é mesmo?
Mas hoje é quinta-feira e nada de importante - ou maior - acontece nas quintas-feiras.
Roberto Drummond escreveu que este é o dia mais neutro da semana.
Tão neutro, que poderia ser riscado do calendário e ninguém daria por sua falta.
Ninguém presta atenção nas coisas, às quintas-feiras.
Ninguém faz vigília.
Ninguém fica de prontidão.
Ninguém dá plantão.
É o dia propício para o crime perfeito ou para a fuga do inferno, porque ninguém estará atento.
Ninguém nasce, ninguem morre numa quinta.
Ninguém adoece, ninguém se cura.
A dor fica dormente.
A alegria anestesia-se.
E a felicidade se exila num outro código postal.
É quando as cartas importantes extraviam ou são entregues em endereço errado.
Perceberam que nenhum feriado cai numa quinta?
E ela chega sempre um dia depois das cinzas do carnaval.
Chega sem alegoria, sem enredo, sem fantasia, nem samba no pé.
Não existem golpes de estado neste dia.
As rebeliões se aquietam.
Os motins dormem numa rede.
Não conheço uma única flor das quintas-feiras.
As árvores não farfalham, o vento não venta e o mar desencrespa.
O vulcão arrefece.
Não existem feiras, nas quintas.
O amor não se reconhece no espelho e o ódio abranda.
Ninguem se casa entre a quarta e a sexta.
A areia movediça se firma enquanto o luar também clareia a lama.
E ninguém é engolido.
Ninguém vomita.
Ninguém tem taquicardia.
( o coração mente quietudes).
E, aí, é seguro dizer que ninguém se entope de barbitúricos.
Ninguém dança um bolero. Ninguém rodopia no salão.
Ninguém vende a salvação. Ninguém se salva.
(Até mesmo porque ninguém se salvará).
Ninguém sabe da missa um quinto, na quinta, posto que não existe missa neste dia.
Ninguém canta, ninguém ora, ninguém chora as suas amargas pitangas.
Isto tudo, porque, nas quintas-feiras, Deus e o diabo descansam dentro da gente.
E a gente nem percebe, porque nas quintas-feiras as coisas se desapercebem de nós.


* Ilustração: versão da obra O Grito, de Munch, por Andy Warhol

2 comments:

Marcia Campagnoli said...

Muito bom Roberto, parabéns, bjs.

Primeira Pessoa said...

que bom que curtiu, drica.
fico feliz.

beijão

r.