Thursday, March 24, 2016

Espécies em extinção



No outro dia peguei uns sapatos que gosto muito, mas com as solas já bastante gastas pelo tempo e saí procurando um sapateiro. Missão impossível.
Onde foram parar os sapateiros?
Neste mundo cada vez mais estranho, certas profissões desapareceram e foram morar no dicionário.
Ou melhor, exilaram-se no Google e na Wikipedia.
Os sapatos, assim como os barbeadores, os computadores e telefones celulares entraram na era do descartável.
Já não dá para fazer um remendo, uma meia-sola ou substituir a rebimbola da parafuseta.
É como se as pessoas já não se apegassem a mais nada (e a ninguém). Tudo perde o seu valor instantaneamente.
No início deste século XXI ainda em fraldas – descartáveis, obviamente – as coisas já não são feitas para durar. A indústria é bruta.
Eternos, só os diamantes, como diz o reclame na televisão:
“Diamonds are forever”.
O amor, não.
O casamento acabou, mas o diamante do anel ficou. Com a noiva, claro. Nada mais justo. Este é mais um dos privilégios concedido às ex-esposas desta era industrial.
Segundo um amigo de uísque, ser esposa é um ótimo negócio. Com o que romanticamente discordo.
Recém-divorciado, ele garante que ex-esposa é uma das melhores profissões que existem. Rio dele.
E ser esposa? – pergunto:
Nem tanto, ele admite.
Mas eu falava dos meus sapatos, confortáveis, presente de aniversário de 45 anos, couro macio, Made in China, apesar do nome italiano no avesso da língua:
Altobelli.
Pego nos sapatos, apalpo, fito-os e penso nos lugares que caminhamos juntos.
Fomos a festas, reuniões importantes e até a um congresso realizado no Rio de Janeiro.
Aqueles sapatos pretos pisaram as areias sagradas de Copacabana, apesar do olhar de reprovação dos banhistas.
Juntos, fomos a vários casamentos e a um funeral.
Não gostaria de me desfazer deles, que estão bem conservados na parte de cima. É só trocar os cadarços, penso eu. Com capricho e cera, ficam novinhos em folha.
Mas não tenho quem lhe troque o solado ou, na pior das hipóteses, faça-lhe uma meia-sola, aquele tratamento em que uma nova camada de couro é colada à velha.
Neste momento me dá saudade de Seu Haroldo, homem de poucas palavras e torcedor do Botafogo, pai de Schubert, um amigo de infância que o bairro inteiro chamava de Chumbo ou, mais carinhosamente, Chumbinho.
Seu Haroldo passava tardes inteiras escutando música clássica e reparando os sapatos e sandálias daquele povo humilde que habitou a minha infância.
Ele tinha seu comércio onde deveria ser a sala da casa, com a palavra “sapateiro”, escrita por ele mesmo na porta da rua.
Lá dentro tinha um banquinho – que devia fazer mal para as costas -, onde ele se sentava curvado de frente para a bigorna, tendo ao alcance da mão uma caixa de madeira em que armazenava pregos e tachinhas de diferentes tamanhos.
A bigorna, para quem não sabe, é uma engenhoca de ferro maciço com uma extremidade em formato de pé. Ele enfiava ali o sapato, que era para dar a necessária firmeza na hora da martelada.
Os sapatos recauchutados, lustrados, ficavam em uma prateleira ao alcance dos olhos do freguês.
Uma vez entregues, “duravam até acabar”, como ele garantia.
O cheiro da sala de seu Haroldo é algo que não consegui esquecer e que ficou impregnado em minha memória depois de todos estes anos.
Ficou o cheiro rude do couro, que ele comprava em peças inteiras e chamava de “sola”.
O cheiro de tinta de pintar sapato.
E graxa de engraxar, naquelas latinhas lindas da marca Nugget com uma tramela de metal.
E o cheiro da inocente cola, que viraria entorpecente nas mãos de meninos sem futuro em todo o Brasil.
Este futuro descartável em que vivemos agora, neste presente sem poesia e sapateiro.


Nota do Autor: Publiquei esta crônica no jornal Brazilian Voice da semana passada e recebi, hoje, uma carta de um leitor português residente em Kearny (NJ). José Garcia Ferreira foi gentil e generoso em suas palavras e, cereja no topo do chantili, enviou-me o endereço de um competente sapateiro em sua cidade. Qualquer dia destes eu apareço por lá.

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