Saturday, July 30, 2016

Algodão



Imagino que, quando o coração para de bater, faz um silêncio absurdo.
O carro na rua excede o limite de velocidade permitido, mas parece rodar em câmera lenta. Sua buzina nervosa emudeceu. O farfalhar das árvores já não produz vento. E o semáforo da esquina não muda mais de cor. Tanto faz.
Dentro do quarto, dentro da solidão do cobertor onde há pouco ele colocou a mão ao peito, como se acariciasse uma saudade, mas era dor física, a desordem continua absolutamente em seu devido lugar.
Uma arpoada, de início aguda e fina, fisgada de dor de dente do ciso e cólica renal passou por ali. Dor de alguma traição do passado, dor de um amor mal resolvido, tudo dor.
O homem morre sozinho. Não importa quantas pessoas estiverem à sua volta, ele morre só e é devolvido ao seu gênese, à solidão mergulhada na água amniótica da barriga de sua mãe.
O homem, que poucas horas antes de apertar o interruptor e apagar a luz pela última vez pensava em promissórias vencidas e na defesa vulnerável do seu time de futebol. Agora ele se sente nu. A cabeça esvaziou, como se o dedo indicador, num último gesto, tivesse apertado a tecla Delete do computador.
Ele já não tem bolsos onde cauberam seu mirrado salário, filhos vivendo suas próprias vidas, ex-esposa ruminando mágoas, velhos e novos rancores, cheiro de èter e clorofórmio de algum carnaval da juventude.
Não restou um único provérbio do seu pai.
Ele já não precisa carregar as oportunidades perdidas, as horas passadas no absurdo do trânsito ou a música ruim no rádio do carro e da qual ele sempre se queixava, mas não reunia forças para mudar de estação.
O fracasso ficou do mesmo tamanho do sucesso que tanto o ludibriou.
Havia muito que a inércia se instaurara, como um exército de traças devorando lentamente o seu passado.
Já não importa mais a rinite, a lombalgia, o medo de altura ou os comentários afetuosos na linha do tempo do seu perfil no Facebook.
Não ficou o beijo da filha.
Nem o vermelho  da gravata, presente do último natal.
Não restou nada.
Nada a não ser estes dois chumaços de algodão colocados pelo legista nos buracos do nariz.

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14 comments:

Tania regina Contreiras said...

Porque enquanto houver um poeta, a tristeza poderá ser bela! Afiado na arte de emocionar sempre, Beto! <3

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Existe crónica bonita para falar da morte, e se chama algodão... poesia que segue.

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) said...

Existe crónica bonita para falar da morte, e se chama Algodão... sempre um bálsamo te ler, Beto Lima.

http://maquilirica.blogspot.com.br/?m=1 said...

muito lindo, Roberto.
a morte, essa lufada fria e fora de tempo em nossa cara.
beijo.

http://maquilirica.blogspot.com.br/?m=1 said...

muito lindo, Roberto.
a morte, essa lufada fria e fora de tempo em nossa cara.
beijo.

Andrea de Godoy Neto said...

Beto, essa é das cronicas mais lindas e mais doloridas que já li por aqui. Beijo.

Primeira Pessoa said...

Andrea, querida, você passou recentemente por dor tamanha e conhece, como poucos, o peso desta cruz.

Beijo grande procê

R.

Primeira Pessoa said...

Pois é, Luciana, a morte, esse vendaval...
Faz um estrago, viu!?
beijo grande

R.

Primeira Pessoa said...

Da Rama,
ler você aqui me remo
cou, sabia?
A gente precisa se ver.

Beijão,

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Taninha,
é muito triste perder um amigo. muito mesmo.
aconteceu um milagre e eu retomei a escrita. Agora eu não quero mais parar.

beijo grande

R.

Lu Saharov said...

Sim...a morte. O avesso da vida.
Falamos sobre ela, discorremos, filosofamos, mas, no final, só vamos conhecê-la quando ela vier nos tocar, e então, o silêncio...ou não! :)
Gostei muito de seus escritos.
Abraços!

Marina jardim said...

que bonito, Roberto! sentimento amoroso, mas doído.

Primeira Pessoa said...

Marina Jardim,
hoje eu quero as cores e a alegria de um quadro seu.
Preciso.

Beijos

R.

Primeira Pessoa said...

Grato pelas palavras bonitas, Lu Saharol. Sinto-me honrado pela sua presença neste minifúndio de afetos.

Abraço grande do

Roberto.