Monday, July 4, 2016

As Muitas Vidas de Guttemberg Guarabyra



O Guarabyra telefonou de São Paulo contando a novidade: estava começando a fazer um trabalho de regressão com um proeminente psicanalista brasileiro.
- Regressão, Guarabyra?
- É isto mesmo, meu camarada. Regressão!
- Sou contra a regressão. Sou progressista - dissimulei -, tentando fugir de um eminente “papo cabeça” que se anunciava.
Mas meu amigo estava entusiasmado demais para passar para o próximo tópico.
Queria, porque queria, descobrir quem fôra em vidas passadas, em que cenários teria respirado, e que parceiros tiveram a felicidade (e as dores de cabeça) de antecederem ao cidadão carioca que atende pelo sobrenome Sá.
Guarabyra iria para sua segunda sessão naquela tarde e me falou de sua conversa com o psicanalista, um freudiano ortodoxo, com consultório no elegante bairro do Morumbi.
Na primeira sessão aprendera que Freud afirmara que, os conflitos emocionais têm sempre origem na infância, e através de suas técnicas psicanalíticas, costumava fazer com que seus clientes lembrassem conflitos da tenra idade, o que já era uma prática de regressão de memória, mas com outro nome.
Contou-me ainda que um outro psicanalista, W. Reich, pregara que os conflitos emocionais instalam-se no corpo físico criando couraças energéticas, e que as nossas células possuem um código de memória desses conflitos. Baseado nessa teoria, propunha uma terapia corporal com o intuito de retornar o corpo ao seu estado original de saúde (voltando o corpo no tempo).
Era muita informação para um único telefonema.
Dois dias depois liguei para Guarabyra, que dizia-se meio barro, meio tijolo com relação à experiência:
- Ainda não regredi nada. Mas é apenas minha terceira sessão.
- E como funciona? -, quis saber.
- É assim: chego lá, deito-me, o analista coloca uma musiquinha New Age e ficamos batendo papo. Um longo papo.
E mais não disse.
Após esse telefonema não ouvi mais dele, e só me restou ficar imaginando as descobertas que ele deveria estar fazendo durante essa total ausência de notícias. De tão intrigado, cheguei a sonhar com Guarabyra. Sonhos loucos.
Logo na primeira noite, ele tinha sido um arauto do rei Salomão.
Telefonei pra São Paulo no dia seguinte para lhe contar, mas ele estava realizando alguns shows pelo nordeste brasileiro. E aquilo não me saía da cabeça, precisava lhe relatar com urgência.
Nos dias que se seguiram, minha viagem foi tomando outros rumos. Antes de dormir, abria uma garrafa de vinho, colocava uma “musiquinha New Age”, e sonhava, meio dormindo, meio acordado, com meu amigo em situações e tempos diferentes. Até que adormecia, verdadeiramente, e a ‘visão’ se consumava num outro tempo.
Divertia-me loucamente ao caricaturá-lo em alguma dessas situações:
- Imagina quando eu lhe contar que nos idos de 1500, ele era grumete afetadíssimo na Esquadra de Pedro Álvares Cabral ...
Na noite seguinte ele já era uma requisitada prostituta dando duro no cais do porto de San Francisco, lá pelo século dezesseis. Ou um menestrel, cantando na porta de um castelo, que tinha como rei um sujeito chamado João. E Guarabyra foi índio.
Índio australiano, como o vi. Um aborígene, correndo atrás de cangurus e tirando o couro de gigantescos crocodilos na Oceania.
Vi Guarabyra no Velho Oeste, como lugar tenente de Billy The Kid. E na caatinga, menino ainda, amigo de infância de Virgulino Ferreira, que viria a ser conhecido depois de adulto como Lampião.
Guarabyra foi, também, confederado e escravo negro, trocado por dois cavalos e uma caixa de bourbon numa feira livre, em Boston.
Numa outra visão, ele reapareceu em Paris, tomando porres homéricos na companhia de Baudelaire e Rimbaud. Já era um poeta.
Ainda na França, em épocas diferentes, foi cortesã, alfaiate e fracassado fabricante de vinho na região de Bordeaux. Nessa última atividade, faliu ao beber, sozinho, uma de suas melhores safras.
Quanto mais eu viajava nas mil e umas existências de Gutemberg Guarabyra, menos eu tinha notícias dele.
Estava louco para lhe informar de minha “invasão de privacidade”.
Num dia ele estava enfurnado no estúdio preparando o novo disco, no outro estava perdido no ‘pó da estrada’, levando seu canto pelo interior do Brasil.
Até que, cerca de 15 dias após a minha derradeira visão guarabiresca (um beduíno que perdeu seu camelo no meio a uma tempestade de areia em pleno Saara), o telefone tocou, e uma voz conhecida me saudou do outro lado:
- Tá me procurando, meu camarada?
- Estou. Não recebeu meus recados?
- Recebi, sim, mas tenho chegado tarde em casa. Você tem o péssimo hábito de dormir antes de meia-noite. Além do mais estive muito ocupado com shows e gravações do novo disco, e as minhas sessões de regressão no Morumbi.
Era a pedra de toque de que eu precisava para lhe contar tudo o que descobrira a seu respeito:
- E como está indo sua regressão? - perguntei.
- Tenho regredido bastante - disse com ares misteriosos, antes de soltar uma deliciosa gargalhada.
- Jura? Conta! Até onde “regrediu”?
- Até agora?
- É! Até agora.
- Ah, Roberto... Sei lá... Mais ou menos uns três, quatro mil reais...

1 comment:

Lázara papandrea said...

hahaha delicioso de ler! A boa escrita é isso: a que permite o mergulho. abraço