Friday, August 12, 2016

Antropônimos esdrúxulos



(Ilustração: foto do quadro Operários, de Tarsila do Amaral)



Li em algum lugar que os nomes mais populares de 2015 foram Alice, Sophia e Julia para as meninas e Miguel, Artur e Davi para os garotos, repetindo o mesmo resultado do ano anterior, mudando apenas a ordem das preferências.
Nome próprio ou antropônimo é o nome dado à pessoa ao nascer.  O nome é considerado o elemento mais antigo de identificação do homem. No Direito, o nome atribuído à pessoa física é chamado de nome civil e tem a função de identificar e individualizar a pessoa durante toda a sua existência e até depois dela. Ter um nome civil é um Direito garantido por lei.
A menos que algo muito impactante aconteça na vida da pessoa – uma operação de mudança de sexo, por exemplo – o nome é uma das poucas coisas que o indivíduo vai carregar para sempre. Os pais deveriam pensar muito antes de nomear seus filhos.
No Brasil os nomes próprios são muito imaginativos. Muitos pais brasileiros fazem uma geléia geral na escolha deste substantivo tão essencial. E o resultado quase nunca é bom.
Os genitores gostam de homenagear alguém, toda vez que nasce uma criança na casa. Em geral, escolhem alguma celebridade, um cantor, uma atriz, o que quase sempre dá um rolo danado.
Os mocinhos da novela das 8 abundarão no ano que vem, podem apostar. Já vivemos a era dos “ciganinhos” Igor de Explode Coração e das odaliscas Jade, de O Clone, e os novos folhetins globais já devem estar rendendo muitas homenagens por todo o país. Novos Chicos, eu asseguro, ainda virão.
Os jogadores de futebol também se reproduzem em cativeiro.  Entre tantos, tem o Kempes da Chapecoense, o Breitner do Figueirense, que não me deixam mentir.
E tem os Maikes, Mikes e Maicons, que fazem parte de um corrente mais americanizada da coisa. São tantos, que daria uma crônica só deles.
Conheci um sujeito chamado Waldisney. O pai era vidrado nos gibis de Walt Disney. E teve também o Uesneive, uma singela homenagem à marinha americana, a Us Navy. E tem ainda as sandices absolutas. Como no caso de Chevrolet da Silva Ford, que achei na internet. Seu pai deve ter sido um mecânico.
Existem os casos das combinações, ajuntamento dos nomes do pai e da mãe e que costumam redundar em algo curioso.
Minha amiga Claudinete logo me salta à memoria. Claudio e Janete se misturaram também no nome da filha. Tem aos milhares.
Existe também aquele caso dos malucos-beleza, que dão aos seus rebentos os nomes mais esdrúxulos de que se tem notícia. Os cantores Pepeu Gomes e Baby Consuelo, hoje Baby do Brasil, por exemplo, foram cruéis com suas crias.
Riroca era um nome carinhoso que o guitarrista chamava Baby.  Zabelê é o nome de um pássaro da Bahia. Nãnashara é uma mistura de shara (que quer dizer som) com nana, que era como a Riroca chamava a irmã;  Pedro Baby foi uma homenagem que fizeram a si próprios e teve ainda o menino  Kryshna Baby, que Pepeu diz ter sido um tributo a Deus.
Riroca, que hoje é pastora evangélica, mudou legalmente o seu nome. Ela agora é Sarah Shiva.
As homenagens aos santos também são muito comuns. Curiosamente, um dos santos mais populares dos dias de hoje, São Judas Tadeu – o das causas impossíveis – ficou de fora. É frequentemente confundido com Judas Iscariotes, que traiu Jesus. Aliás, conheço muitos Jesus.
Na década de 1960 e 1970 eram muito comuns os nomes compostos. Marta Cristina, Regina Maria, Paulo Sérgio, José Luiz, Luiz Carlos, Maria Aparecida e por aí afora.
La em casa éramos todos Carlos, os três filhos de seu Antonio e Dona Rute. Meu pai queria demonstrar gratidão a uma pessoa que o acolheu quando ele trocou a roça pela cidade, em 1958.
Carlos Antonio, que já morreu, e Antonio Carlos são irmãos deste Carlos Roberto que vos fala.
Eu não gostava do meu nome, confesso. Achava que o primeiro nome é que conta e que eu não poderia ser Carlos, como o primogênito e o caçula da casa. Para nos distinguir, eu virei o Roberto, irmão de Toninho. Carlos Antonio era Carlos Antonio mesmo.
Na infância, eu odiava quando minha mãe me chamava pelo nome completo, pois eu certamente sofreria algum castigo.
Quando ela chegava no portão da casa e gritava ‘Carloooos Robeeeerto’, eu sabia que era bronca.
Aqui nos Estados Unidos é costume nos chamarem pelo primeiro e último nome, o que pra mim é sempre complicado. Quando recebo a correspondência do leão do imposto de renda, por exemplo, é um calafrio. O homem da imigração também me chama de Carlos Lima, quando entro novamente no país.
Quando dito por inteiro, meu nome soa como o de um cantor de bolero, destes que ganham a vida cantando em churrascarias.
“E agora, respeitável público, com vocês… Caaaaarrloooooos Robeeeeeerto!!!”.
Com o passar do tempo tenho me pacificado e aprendendo a aceitar as coisas que fogem ao meu controle. Já não me torturo com a escolha do meu nome e até consigo encontrar alguma beleza nisto .
Aceitar doi menos, certo?
Hoje eu sei que Carlos Roberto não foi uma brincadeira de mau gosto dos meus pais. Dito da maneira correta, no tom certo, é quase um poema.

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4 comments:

na vinha do verso said...

o que foge ao controle é que dá alma de poesia aos desacertos.

importante é ser feliz !

abração Carlos rs

Lídia Borges said...


Interessante!

De repente, veio-me à ideia Roberto Carlos, o cantor romântico.
De qualquer forma, quando nos soa a poema o nome que nos deram é porque tudo está bem!


Lídia

Primeira Pessoa said...

saudade de lê-lo aqui, Marquinho querido.
saudades imensas de você. nos vemos em outubro?

beijão

r.

Primeira Pessoa said...

lídia, querida, roberto carlos teria sido uma crueldade de meu pai. Carlos Roberto é mais do que suficiente...rs
na outra mão, o poema sai da boca de quem diz o nome. qualquer nome.

beijo grande

r.