Thursday, August 18, 2016

Aquele verbo


No princípio era o verbo…
Depois é que vieram os substantivos, os adjetivos e a gramática inteira.
O verbo sonhar é uma das invenções prediletas de Deus, que criou preciosidades como o amar e o perdoar, o consolar e o querer, entre tantos outros lances legais.
Discordo quando alguém diz que Deus criou todas as coisas. E, aqui eu pulo fora do combinado.
Não deve ter sido criatura dele a ganância e a inveja.
E é bem provável que tenham sido engenhosidade do diabo a política, as doenças, os cartolas do futebol, o horário eleitoral gratuito e os engarrafamentos no trânsito.
Mas, voltemos aos verbos.
Deus estava inspirado e de bom humor quando deu às suas criaturas a capacidade de projetar e operar grandes milagres sem a intervenção direta de sua mão.
Sonhar não é apenas deitar e dormir e ter experiências fora do corpo.
Sem a capacidade de sonhar e envisionar o que está do outro lado do muro o homem é apenas uma represa de carne e dúvidas.
A ausência do sonhar tira do homem a sua curiosidade, sua capacidade de improvisar e ser criativo.
Nada contra, mas o sujeito que trabalha na cabine de coletagem do pedágio da rodovia, não deve ser um sujeito que sonha. Sonhasse, não aceitaria a solidão daquele cubículo, as mãos impregnadas das imundícies do vil  metal.
George W. Bush não deve ter tido um único sonho decente em sua vida. Teve aflições.
Tito, Franco e Salazar desfiaram pesadelos.
Sonhadores são altruistas e benevolentes e não se importam de partilhar a generosidade como o mundo. E sonham até quando estão acordados. De suas mentes férteis brotam as cores do arco-iris e o vento que eleva os papagaios de papel.
Sem sonho não haveria a penicilina e Thomas Edson jamais teria iluminado as nossas vidas.
Sem sonho não haveria Pablo Picasso e sua Guernica. Não haveria os bigodes de Salvador Dali.
Não haveria Van Gogh e seus girassóis hipnóticos.
Não haveria Aleijadinho e seus profetas.
Frida Kahlo não seria Frida Kahlo e Drummond bateria ponto na redação de um jornal de província.
O sonho é o que repousa na barriga da lâmpada de Aladin.
Ele é o futuro cintilando dentro da bola de cristal.
É o barulho do mar no interior dos búzios chacoalhando nas mãos da cigana.
Os Beatles seriam apenas quatro jovens conformados não fosse pelo sonho.
E Hendrix, Janis e Bilie Holiday teriam emudecido.
Ludwig van Beethoven seria apenas um moço surdo. Usain Bolt  rastejaria.
O homem, sem a capacidade de sonhar se contentaria com a mediocridade e a humanidade se transformaria em  lagartos ou qualquer outra criatura rasteira.
Ele não teria ido à lua. Não teria aprendido a voar como os pássaros e a viajar mergulhado nas entranhas de um submarino.
Sem a capacidade de sonhar Maradona não driblaria o vento e seria apenas mais um funcionário público a serviço da bola.
Pelé não socaria o ar mais de mil vezes.
E Garrincha se prostraria abraçado a Joões.
Destituído da capacidade de sonhar o homem seria um robô e a felicidade seria uma flor sem perfume. Budha, Gandhi e Chico Xavier seriam soldados.
Portanto, sonhem mesmo quando perambularem pelas ruas.
Sonhem durante a insônia.
Sonhem dentro e fora do sono.
Sonhem, pois, de todos os seus verbos, sonhar é o que coloca mais sorrisos nos lábios de Deus.
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3 comments:

Dalva M. Ferreira said...

Sonhar mais um sonho impossível...

Primeira Pessoa said...

ainda assim eu não me entrego, Dalva.
Continuo sonhando e sonhando.

Grande beijo do

R.

Adriana Araújo said...

Sonhar é coisa perigosa,Beto. Nos faz acreditar no impossível, às vezes. Mas... Vamos seguindo...
Lindo texto!
Beijo.