Tuesday, October 4, 2016

Frágil coração


Coração de poeta é um objeto frágil, peça de cristaleira que se quebra facilmente. E o meu deu um susto tremendo na semana passada.
Eu estava deitado, encafifado com um mote qualquer, quando senti aquela fisgadinha no peito. Ignorei, pensei que fosse prisão de ventre. Não era. Fui ficando assustado.
Diante daquela súbita ameaça, dei um salto da cama e fiz a coisa mais sensata que qualquer homem faria num momento desses: gritei por mamãe.
E ela veio.
Dona Rute, de visita, correu pra me socorrer. Fez massagem, compressa de toalha morna, rezou para São Judas Tadeu, mas o suadouro não parou. O jeito foi rumar para o hospital mais próximo, antes que fosse tarde demais.
No hospital, demorou a cair a ficha. Vieram os exames de coração e a coleta de sangue suficiente para grafitar um poema em um muro.
O eletrocardiograma indicava que estava tudo bem, mas o exame de sangue não deixava dúvidas: eu havia enfartado.
No universo masculino, o enfarte é uma palavra-tabu tão impactante quanto a brochada, o exame de próstata e a “freada de bicicleta”. Homem evita tocar nesses assuntos.
No escuro do quarto de hospital, depois que todos se foram, chorei miúdo. Afinal, quem tem coração, tem medo.
Pensei nas pessoas que dependiam de meu trabalho, nos que verdadeiramente me queriam bem e nos que não mereciam participar daquele pensamento dolorido na solidão de meu ‘corner’. Custou a amanhecer.
Sabino Torre, um italiano de aproximadamente 50 anos, bigode à Barão do Rio Branco, considerado uma das maiores autoridades em cardiologia em New Jersey, cuidou do caso.
Antes de entrarmos na sala de procedimento cirúrgico, enquanto uma enfermeira filipina muita bonita depilava minha virilha – o que muito me constrangia -, ele chegou ao meu ouvido e cantou a bola.
     - “Deixa comigo, meu chapa. Você não poderia estar em melhores mãos. Vai ser uma viagem suave”.
Mais um calafrio. Viagem?
Felizmente, o cateterismo mostrou que não havia bloqueamento das artérias. Eu não havia, verdadeiramente, enfartado. Tratou-se de um vírus que se espalhara por várias partes do corpo e tentou, num momento de suprema audácia, se alojar no lugar sagrado onde só deveriam entrar as musas, os familiares, os bons amigos e as letras do alfabeto usadas na composição de poemas e canções.
O músculo da emoção, diante da ameaça de invasão, expele uma enzima que só é identificada por exame sanguíneo. Trata-se da mesmíssima enzima que anuncia o enfarte.
Após uma semana sob observação e transformando minha ala do hospital numa Marquês de Sapucaí, fui liberado. As enfermeiras, acostumadas a lidar com velhinhos descendo a serra, abandonaram por alguns dias a sisudez e o pragmatismo pelos quais elas são conhecidas, e entraram no samba do mineiro doido.  Por  pouco não virou festa.
Se não deixei saudades, terei deixado alívio. Vou enviar flores e chocolates brevemente.
Conversando sobre o assunto com Kledir Ramil, recebi algumas recomendações, que deverei seguir à risca.
Para quem não sabe, além de inspirado cronista e cantor, ele é também dublê de proctologista e consultor de informática para leigos de todos os credos.
Usando seu método infalível irei cortar radicalmente o consumo de bebidas alcóolicas, sexo, rapé e alimentos gordurosos, como o torresmo de armazém e o pé-de-porco de botequim.
Passada essa fase de abstenção, entrarei na fase da prática de hábitos saudáveis. Caminhada na esteira, um litro de chimarrão por dia e vegetarianismo.
Vegetarianismo vem a ser um tipo de alimentação praticado por antigos povos afeminados, como os espartanos e os pelotenses, que sabidamente desenvolve a resistência das coronárias e a sensibilidade artística.
Irei cortar os açúcares, as massas e, em caso supremo, os pulsos.
Se tudo isso não adiantar, instalarei um antivírus no coração. Segundo Kledir, se dá certo no computador, deve dar certo na gente também. Pode ser um Norton, um Kaspersky, ou de outra marca qualquer.
Embora eu preferisse, caso já existissem no mercado, os da marca Drummond, Rimbaud ou Baudelaire.
Estes sim, os adequados para coração de poeta.

20 comments:

Suzana Guimarães said...

Supimpa! Adorei! Das suas crônicas que li, a segunda ou terceira que mais gostei. A primeira foi sobre o perdão e a negativa dele, e a outra sobre seus animais de estimação. Refiro-me ao blog somente.

Um abraço,

Suzana Guimarães, Lily

Primeira Pessoa said...

Muito feliz que tenha gostado, Suzana. Fico feliz quando passa por aqui e traz um pouquinho dos ares do West Coast (e de BH).

Beijo grande,

R.

Hudson Sacramento said...

É meu nobre,você sabe que passei por tudo isso,porêm de forma mais crônica.Estou no detox,sei que soa afeminado e tals,mas vou me salvar enquanto é tempo...quero mais Leminskis e Bandeiras no meu coraçāo que tb verceja! Querendo dicas é só chamar!

Hudson Sacramento said...

É meu nobre,você sabe que passei por tudo isso,porêm de forma mais crônica.Estou no detox,sei que soa afeminado e tals,mas vou me salvar enquanto é tempo...quero mais Leminskis e Bandeiras no meu coraçāo que tb verceja! Querendo dicas é só chamar!

Brazilian Day Orlando said...

Feliz por sua saude estar na decolagem do bem bom e saudavel! Mais feliz ainda por voce continuar com seus textos belos e leves como a danca do lindo bater de asas de um passaro inspirador com seu incansavel canto no amanhecer de um novo dia! E por lembrar do Novo Dia, siga firme com as dietas nos novos e muitos dias que ainda virao para o meu amigo poeta! Desejo muita saude e paz meu rei!

Bandys said...

Viva, dê o seu melhor e seja feliz. Deixe o céu empoeirar de estrelas o teu caminho. Brilhe. Um brinde a vida, tim tim por tin tin.
Baccios

Ricardo Mainieri said...

Roberto,consegues transformar um assunto sério, delicado, numa crônica bem-humorada, com uma série de toques pessoalíssimos.
Boa recuperação parati. Precisamos quem escreva estas belas crônicas por, pelo menos, mais uns 30 anos.

Abração.

Primeira Pessoa said...

Ricardo, querido, o episódio é antigo, mas agradeço as palavras carinhosas.

abração do

r.

Primeira Pessoa said...

Brindemos, Bandy´s. A vida é bela.

Beijão

r.

Primeira Pessoa said...

Carlinhos, isto aconteceu faz muito tempo. Mas saiba que eu adorei sentir-me acarinhado e cuidado pelo amigo.
Temos muita caminhada juntos, ainda.

Beijão

r.

Primeira Pessoa said...

Hudson, meu amigo galo doido, com três princesas para cuidar, vá de Leminsky e Bandeira. Vida longa. Muitas alegrias em sua caminhada.

Abraço grande

R.

Marina Jardim said...

Esse é um coração blindado com os melhores sentimentos. Só um susto.

Suzana Guimarães said...

Roberto,

Eu gostaria de saber a idade da dona Rute. A minha mãe nunca me visitou... e eu vivo juntando 'provas' de que idade não é impedimento para viajar de avião.

Larguei o Facebook, o Instagram e também o WhatsApp. Estarei muito mais presente na blogosfera.

Diz para mim a idade dela...

Grande abraço,

Suzana

P.S.: ah, reabri as caixas de comentários dos meus blogs. Sempre me lembro de você quanto a isso, rs!

Lídia Borges said...


Valha a boa disposição! De resto, "é um sufoco" quando elas apertam. Eu também sei como é ter um coração sempre a exigir cuidados, a mandar na gente todo o tempo.

Fique bem!

Lídia

Primeira Pessoa said...

O coração é tão mais que o músculo da emoção, Lidia. Cuidemos.

Beijão,

R.

Primeira Pessoa said...

Suzana, estou na sua - às vezes minha - BH, correndo de um lado pro outro com meu pai, que tem carecido de cuidados médicos. Devo voltar pros EUA na próxima semana, se Deus quiser. Esta minha vinda aqui é diferente de todas as outras. Sinto um vazio imenso.
Assim que voltar pra NJ eu lhe escrevo com calma. Voltarei a ser frequentador e palpiteiro de O Medo de Suzana. Sou fã.

Beijão

R.

Primeira Pessoa said...

Marina, querida, te vejo domingo, no niver de dona rute. Vou fazer sangria pra você.

beijão

r.

Suzana Guimarães said...


Ah, Belo Horizonte nunca foi minha; foi apenas um empréstimo. Teófilo Otoni, uma cidade onde também morei, por apenas seis anos, essa sim, posso dizer que foi minha... nem a cidade onde nasci foi minha, Caratinga, já que nunca morei lá. Sou daqui, de onde moro, até a próxima mudança...

Sinto muito pelo seu pai e por tudo envolvido. Já vivi isso, você sabe. Só vivendo mesmo porque nem consolar é possível. Que tudo fique bem.

Um abraço,

Suzana

Primeira Pessoa said...

cheguei hoje, suzana. tô só a capa do batman. semana que vem tudo volta ao normal.
vou te visitar e dar um tantão de pitaco.

beijo grande

r.

Suzana Guimarães said...


Espero que por lá tudo tenha ficado bem. E por aí também!