Monday, October 31, 2016

Porque eu também sou mãe


Eu entendo a sua dor porque também sou mãe.
 Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
 Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
 Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o momento em que nasce.
 Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, naquilo que o guarda dentro da barriga e por ele espera.
 E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
 E eu o amamentei  até que ele não precisasse mais do meu leite.
 Estive com ele nas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
 Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranqüilo, cheio de sonhos leves.
 Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe dali os eventuais pesadelos.
 Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
 Ainda guardo na memória cada pedacinho dele, a imagem no porta-retrato, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
 Eu estive sempre com o meu menino.  (E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)
 Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
 Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como um professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta profissional.
 Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
 Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
 Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.
Aquele menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
 E é por isto que entendo a sua dor de mãe, que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.
 Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Alá para onde.
 Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu.
 Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
 Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
 Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
 Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de  outro tirano qualquer.
 Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.
 Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
 Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora. Entendo, porque também sou mãe.
 E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.



* Foto de Sedat Suna: mulheres choram após menino-bomba deixar um rastro de 51 mortos na Turquia.

5 comments:

Dalva M. Ferreira said...

Para nós, os "bons", é tão difícil compreender os "maus"! Alguma coisa dentro de nós rejeita sumariamente qualquer ponto de empatia, não aceitamos que somos feitos da mesma matéria, e talvez sujeitos às mesmas falhas...

Primeira Pessoa said...

às vezes a fruta cai longe do pé, Dalva. prefiro acreditar que seja assim. nem sempre conseguimos fazer além daquilo que podemos.

abração do

r.

Lídia Borges said...


Tocante, este diálogo de mães. Acredito que nem elas saibam a razão do infortúnio onde se perderam os filhos, os que matam e os que morrem.

Sei que o Roberto não é um estrangeiro em Braga. Haveria de gostar desta visão da cidade que o poeta Vergílio Alberto Vieira nos dá. Talvez quando voltar a Tibães...

Bj.

Lídia

Batom e poesias said...

"Olha aí, ai meu guri, olha aí..."
Tão triste isso...
Linda crônica, Roberto.

Bj

Rossana

Bandys said...

Impactante e real.
São as dores da alma.
A maternidade é a corôa
de toda mulher. De espinhos... mas de flores também!

Benditas sejam todas as mães do mundo!!!

Boa semana moço, beijos meus