Monday, November 28, 2016

Lapidadores de cascalhos



Recém formado em engenharia, Mark Thackeray não conseguiu trabalho em sua área de especialização e acabou tendo que se arranjar como professor em uma escola do leste de Londres.
A instituição era uma espécie de último reduto para jovens problemáticos, fios desencapados, refugos de outras escolas, e para onde iam os encrenqueiros e desajustados do sistema de ensino municipal. Era uma espécie de Febem, um castigo para os que não "cabiam", os que não achavam lugar. Não era uma segunda oportunidade para nenhum deles. Não era sequer uma última chance para ninguém.
Machucados, deslocados, os jovens alunos de Mark Thackaeray não facilitaram a vida do mestre, que acabaria ganhando a confiança de todos com sua paciência, dedicação e caráter. Acabou sendo uma influência positiva na vida de todos eles, dando a entender que aqueles dias estavam indicando um novo caminho.
Resgatara-se ali a dignidade e o porvir.
Estou falando do personagem vivido por Sidney Poitier em Ao Mestre Com Carinho, ambientado (e lançado) em 1967, mas que poderia ser refeito hoje. O tema segue sendo muito atual. E será sempre.
Enquanto houver vida na Terra, haverá conflito de gerações, jovens que não 'cabem', criaturas inquietas tentando achar o seu lugar. A intervenção de um adulto de alma generosa, no entanto, pode servir de guia e referência, transformando cascalhos em gemas preciosas, moldando vidas, redirecionando trajetórias e carreiras de cidadãos.
Tive bons e maus professores, naquilo que crescia. Vivesse em Londres, eu certamente acabaria na escola de Sidney Poitier.
Foi fora da escola, no entanto, que eu encontraria uma pessoa que acabaria me influenciando e iluminando para o resto dos meus dias.
Sueli de Regino era casada com Wagner e me tornei amigo de ambos. Eu tinha 19 anos e caminhava intuitivamente, sem quase nada que desse sustento a qualquer saber. Era curioso e receptivo, mas não tinha para onde ir.
Eles moravam em uma casa na Ilha dos Araújos, em Governador Valadares. Era uma construcão ampla, com quintal de fundo para o Rio Doce e uma biblioteca que era um sonho. As paredes dos cômodos eram cobertas por quadros que ela pintava. Suely pintava com as mãos de Deus. E cozinhava obras de arte.
Alimentava-nos com comidas macrobióticas e aulas informais impagáveis, que iam da mitologia grega ao movimento modernista de 1922. Havia naquela casa uma efervescência, uma luz, que não consigo explicar.
Viviam uma vida diferente, muito diferente daquela que se vivia na GV provinciana daqueles dias. Ele era filho da terra, mas morara muito tempo fora. Ela era do Rio de Janeiro, tinha aquele sotaque chiado, cheio de esses e xizes.
Até suas roupas pareciam de um outro planeta.
Abriram o coração e portas para alguns jovens desajustados como eu.  Abriram a biblioteca. E a discoteca.
E abriram as janelas de um novo mundo. Um mundo que me arrebatou e transformou.
Naquela casa fui apresentado a Oswald e Zeus; a Aldous Huxley e Lampião.
Emprestou-me O Estrangeiro, de Camus, com a promessa de pronta devolução. E assim foi feito
Como o foi com O Navio Negreiro - de Castro Alves - e Assim Falou Zaratustra, de Nietzsche.
Conheci a música barroca naquela casa. Foi lá que Violeta Parra cantou ao meu ouvido pela primeira vez.
Na mesa da cozinha aprendi a comer taioba, vagem, jiló e almeirão. Era ali que se 'fazia sala'. Afinal, ficava na sala a radiola e aquela Babel de Long Plays.
Poucas pessoas me incentivaram tanto a escrever quanto Sueli de Regino. Ela via raiz onde só existia uma lasca de semente. E pouco mais.
Em outubro último eu a reencontraria.
Fui a Goiânia para uma noite de divulgação de meu livro em parceria com Bispo Filho, outro frequentador da casa da Ilha dos Araújos.
Tínhamos tanto para falar e apenas alguns minutos em nossas mãos.
 Sueli casou-se novamente. Seu atual marido é um indivíduo de gestos mansos e olhar de passarinho. Um homem fascinante que, entre outras façanhas, construiu um avião na garagem de casa. Fiquei muito feliz em conhecê-lo.
 Ah, se Sueli soubesse que quase tropecei na saudade quando a vi.
Passaram-se mais de trinta anos, mas o sorriso inconfundível permaneceu pristino, irretocado, e transportou-me a um tempo e lugar que pareciam esquecidos dentro de mim.
Foi difícil conter as lágrimas quando ela me acolheu em seu abraço.
Um abraço que eu conheço tão bem e que me é tão familiar.
Um abraço que já me transformara uma vez.
Por alguns mornos segundos eu me senti remoçado e sem medo do futuro.
E a vontade foi pedir asilo e permanecer dentro daquele abraço.
Morar ali dentro, como se ele fosse aquela casa onde ainda hoje procuro um disco extraviado de Geraldo Vandré.

4 comments:

Dario B. said...

O filme foi marcante. Lembro bem dele, e na hora que vi a foto da postagem, automaticamente me lembrei da musica tema, To Sir Whit Love, cantada pela Lulu na formatura da classe. Lulu de quem nunca mais ouvi falar depois dessa canção. Sobre o reencontro eu acho que entendo o que você quer dizer. Eu tive uma pessoa semelhante a Sueli, um professor também, chamado Dimas, que levou alguns alunos e alunas, bem alem das fronteiras do Português que ele ensinava em classe, isso lá por 1966/67, época do filme também. Eu infelizmente nunca mais tive a oportunidade de um reencontro, em que haveria um abraço e palavras de gratidão. Quem sabe um dia...

Tania regina Contreiras said...


Essa nostalgia poética é contagiante...E cá fico eu com saudades do que nem vivi...

Beijos, Beto

Primeira Pessoa said...

Taninha,
nossos iguais sofrem da vertigem da saudade. É parte do sofrimento da poesia.
Beijos, maninha.
R.

Primeira Pessoa said...

Eu me emocionei com seu comentário, Dário. Muito.
Abraço comovido do
R.