Saturday, November 19, 2016

O absurdo das febres



Para Dona Rute



As mulheres são mais resistentes a dor que os homens. É fato.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo imaginar, entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de terça-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando sopa e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, este inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha ou um chá de flor-de-laranjeira fumegando na xícara.
Esta febre  que queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável e que aparecia sempre que eu aprontava ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos cômodos da casa entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, eucaliptos indecifráveis, caminhos incompletos  a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra, em brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido da  infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Encortinou-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúdam-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.

8 comments:

Tania regina Contreiras said...


Esta sempre foi uma bela crônica, Beto!

Primeira Pessoa said...

Recebeu uns remendos, Taninha. Aliás, umas "giletadas".

Beijo grande

R.

Lídia Borges said...


Ah, ver essa professora de palmatória em riste ser engolida pelos dinossauros!... :)

Belas açucenas, essas, que vêm repor a normalidade de tudo.

Bj.

Lídia

flaviane ferreira leao said...

Me transportei. Coisa que só boas penas conseguem, identifiquei todos os machos da família, compartilhei com alguns!

Primeira Pessoa said...

Espero que eles também deem o braço a torcer, Flaviane. Há muito que entreguei os pontos neste sentido. SOmos uns fracos.
Vocês, mulheres, são a esperança de nossa raça.

Grande beijo

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Esta professora resiste, Lidia. As marcas da palmatória ainda não sumira. Entreguei a ela as minhas mãos e paz sem pesadelos.

grande beijo

R.

Bandys said...

... deixe então o amor chover
na sua aorta.
Kisses

Primeira Pessoa said...

como um dia disse Drummond, Bandys.

beijão

r.