Monday, November 21, 2016

O passageiro do silêncio


(Para José e Ana, artesões de silêncios)

Tudo se torna um desassossego. A comida fica ruim, o apetite some. Os ponteiros do relógios são os maiores inimigos. Os dias não tem fim.
O local de trabalho se transforma em um campo de concentração e a casa fica do tamanho do Maracanã. As coisas perdem o sentido e reina a desordem.
Não há lugar no mundo para os que se desacertam, para os que se perdem do caminho por miudezas vãs.
A vida lhe ensinará a dura lição do que é a tristeza.
E apontará o canto sombrio em que abraçará a solidão.
Mesmo que esteja rodeado por uma multidão, você se sentirá só. Miseravelmente só.
O sono evaporará e se mudará para outro código postal. E a cama se tornará imensa e fria, com seus lençóis de arame farpado e travesseiros de espinho.
Os dèjavus se amontoarão.
O rosto dela se materializará na fumaça do cigarro ou no fundo de um copo de conhaque. Uma onipresença quase de Deus.
Assim como Einstein, que não sabia que a partir de sua teoria seria desenvolvida a bomba atômica, Deus não sabia que, quando inventou o silêncio, ele seria usado para magoar.
O silêncio é nuclear.
E o mundo, 'vasto mundo', vai se comprimindo, as paredes se fechando, tirando-lhe também o ar. Ficará difícil respirar.
O sol não voltará a brilhar amanhã, dirão-lhe os seus botões.
E nem depois de manhã.
Nunca mais, nunca mais, nunca mais, concluirá você.
Como se tornasse um cego, de repente, incapaz de ver a luz, você vegetará perenemente em um túnel sem fim.
É como se o carro tivesse acabado a gasolina no meio do nada.
Faltará combustível para seguir adiante, temerá.
A partir daqui, apenas a inércia, o carro parado e a contagem modorrenta dos dias que ainda lhe restam. E nada mais.
É como se você fosse exilado em um país estrangeiro e não dominasse a língua.
E todos à sua volta falassem aramaico.
E tudo trouxesse a lembrança dela.
Como o casal que entra no táxi, a moça bebendo um capucino, o homem conversando com seu uísque no Café, na noite que cai sobre a cidade enchendo os bares de trabalhadores morrendo de sede e homens e mulheres no cio.
Os carros trafegam lentamente no engarrafamento e só a lembrança dela lhe fará companhia. Estão todos indo para uma grande festa em homenagem a ela.
Menos você.
Ela estará linda, com aquele vestido que você já despiu tantas vezes vindo de outras festas.
Ela, com o colar de pérolas que você presenteou. E os brincos tão sutis.
"Mudou o cabelo", você dirá.
"Remoçou".
Só você e a sua triste figura permanecerão inalterados.
O avião que cruza o céu está indo para Bruxelas, mas você acha que ele está indo para lá, onde se encontra o domicílio em que os telegramas são devolvidos e as cartas se extraviam.
O avião está indo para Dublin ou Milão.
Para a velha Lisboa.
Ou para Madri.
Mas você acha que ele está indo para Istambul, quando na verdade, o destino é outro. Tão outro.
O avião está cruzando o céu em direção ao inferno. Está em piloto automático e você, cá de baixo, é seu único passageiro.

* Croniqueta escrita em Salto, no ano santo de 1983, ressuscitada agora para Papoulas de Kandahar, meu próximo livro. 
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14 comments:

ana p said...

Tão bonito...

Ricardo Mainieri said...

Roberto fizeste muito bem em reaproveitar este texto. Ele tem uma dor, uma pungência descomunal. Vai instilando, lentamente, o veneno da solidão, do desencontro e nos leva a um processo de empatia.
pelo outro que sofre, que encharca suas lágrimas no copo de destilado, pelo que cruza os rumos, sem nenhum rumo. Crônica de uma beleza estarrecedora, prende e arrebata.

Primeira Pessoa said...

Ana, fico muito feliz que tenha gostado. Sua opinião é muito importante para mim.

Abração

R.

Primeira Pessoa said...

Ricardo,
você não tem ideia do peso de sua opinião em seu comentário. Agradeço demais pelo carinho e amizade.

Abraço apertado do

R.

Lídia Borges said...


Merecido renascimento!


Bj.

Lídia

Primeira Pessoa said...

e renascer é um milagre de todo dia, Lidia Borges.
Beijão

R.

Bandys said...

Esse é descartável.
Drummond, Garcia Marquez, Cora coralina e tantos outros estão sempre juntos comigo.

Hoje te mando uma que gosto muito, se quiser ouça cantada.


Fanatismo
Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver.
Não és sequer razão do meu viver
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No mist'rioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!...

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa...
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca,
Não julgue, hahahaha
beijo

Suzana Guimarães said...


Pensar que eu já estive assim há pouco tempo... isso vem em ondas, não é? Espero que essa onda não me alcance mais... a gente sente aos borbotões e daí, escreve. Ainda bem que a gente escreve e ainda bem mais que a gente lê.

Mas eu venho caminhando para o silêncio com mais força que todos os tempos juntos passados. E me faz bem.

Em muitas de suas crônicas, percebo sua parte feminina acentuada (não adianta espernear, é isso mesmo!), pois você não se fecha em rodeios secretos; você abre o jogo, e conta tudo. Chico Buarque tem esse lado também e é muito bom ler homens de alma feminina...

Às vezes, venho aqui, leio e não comento, mas é porque meu lado silencioso, mais masculino está muito acentuado.

Grande abraço,

Suzana Guimarães

Suzana Guimarães said...


Em março deste ano, visitei o museu da Rosa Parks, em Montgomery, no Alabama. Fui com a família, de carro (viagem inesquecível II). Trouxe um ímã de geladeira com a foto dela e um única palavra: NO.

O silêncio é senhor muito poderoso.

Beijo.

Primeira Pessoa said...

Conheço bem o poema, Bandy's. Florbela Espanca é um lugar bonito no mundo.

Beijão

R.

Primeira Pessoa said...

Suzana,
este lado feminino é o meu melhor lado, quero crer. É o que me faz ver com maior clareza e ternura este mundo maluco em que a gente vive. Não espernearei. Pelo contrário.
"O silêncio corta mais do que esta faca, que rasga com facilidade a carne da água". Acho que comecei um poema.
Beijo grande

R.

flaviane ferreira leao said...

Dói!!
Choro...

Primeira Pessoa said...

A vida, às vezes, é dolorida, sim. Como diria o filósofo Kleber Bambam, "faiz pairte".

Beijão, Flaviane.

R.

Suzana Guimarães said...


Sim. Começou um poema. Continua.