Monday, July 31, 2017

O abacateiro


(Ao Fábio Portugal)

Os amigos são os irmãos que escolhemos, diz o bordão. Acho isto fantástico. Costumo dizer que tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.
Meu pai tinha um entendimento muito peculiar das amizades dos filhos. Primeiro, procurava se aproximar, estudando - à partir de seus conhecimentos de policial militar - os hábitos e caráter de cada um. Para andar com os filhos de Seu Antônio tinha que ser boa bisca e não ter ficha na delegacia. 
Justiça seja feita, uma vez aprovado, o amigo seria tratado como se fosse filho legítimo. Era o começo de um caminho que, naturalmente, resultaria em um lugar cativo à mesa, um prato de comida e uma cama com cobertor.
E isto, junto a tantas outras coisas, faz com que eu me lembre de Seu Totoca (para os íntimos) com ternura. 
No decorrer dos anos, ele criou com meus camaradas um laço que já não dependia da minha presença. 
Em uma linguagem e formato diferentes eles tornavam-se amigos, com rituais e momentos só deles. É o caso de Fábio Portugal, por quem papai tinha grande apreço.
Fábio viveu muitos anos nos EUA, mas retornaria à sua Campinas em 2013. 
À partir da volta, todos os anos, quando eu ia visitar meus velhos em Belo Horizonte - sempre no mês de outubro, para coincidir com o aniversário de minha mãe -, ele se juntaria a nós.
Em um dado momento da estadia dele na casa, os dois rumavam para o quintal. 
Era uma coisa absolutamente deles, aquilo de passarem em vistoria por cada planta, cada canteiro, cada árvore daquele minifúndio.

"Não gosto de planta que só dá flor. É como certas pessoas, que só tem vaidade e boniteza e não saciam a fome de ninguém", repetia, como se o dissesse pela primeira vez.


Papai tinha orgulho de seus pés de manga. Mesmo aquele, logo à direita do portão e de onde ele caiu fazendo uma poda, aos 71 anos. 
A queda rendeu-lhe oito parafusos de titânio e um andar meio de banda. Ainda assim, ele cuidava daquela árvore com o mesmo carinho dedicado às demais.
Iam passando pela pitangueira, cheia de estrelas vermelhas e papai lhes enaltecia a doçura.
Elogiava as bananeiras, nanica, prata e ouro. 
Recitava os limoeiros como se fossem sonetos e olhava para o cume da caramboleira, como se procurasse estrelas em plena manhã.
Fruta-do-conde, jambeiro, bergamota, jabuticaba e até a touceira de cana caiana iam recebendo elogios, como se deles lhes dependesse o viço.   
Havia ainda um canteiro para ervas curandeiras e outro para as comestíveis. 
Papai explicava - de novo e de novo - que o boldo do chile era para o fígado e que a camomila acalmava, ajudava a dormir.
Iam até o canteiro de couves e cheiro verde. Ele quebrava uma folha de manjericão e a levava ao nariz do amigo, louvando o perfume.
Explicava que as avencas e bromélias eram coisas de minha mãe e apontava para a bougainvíllea se derramando para o outro lado do muro, queixando-se:

"Presente de grego. Tive que plantar", aludindo ao fato de eu ter aparecido em casa com a muda já sangrando umas flores boninas.

Moto perpétuo, quando chegavam ao abacateiro, já no final do trajeto, Fábio apontava para a copa toda florida e suspirava:

"É uma pena que no mês de outubro, ele só tenha flores, Seu Totoca."

Papai enchia o peito e respondia com ar solene:

"Volte em janeiro, que ele vai estar carregado de abacates e você pode pegar quantos quiser."

Seu Totoca morreria no dia 14 de janeiro deste ano e Fábio foi a Belo Horizonte prestar-lhe a derradeira homenagem.
Voltamos do velório por volta de duas da tarde e ele foi direto para o quintal. Voltaria de lá com os olhos marejados e dois abacates na mão. Visivelmente emocionado, justificou:


"Eu só quis dois."

Mas poderia ter pego quantos quisesse. Era essa a vontade de meu pai.

10 comments:

Leonardo Mambrini said...

Linda lembrança Roberto... Um grande Abraço

Anonymous said...

Que beleza!
Meu quintal era menor e tinha galinhas, algumas eram "as minhas". Tinha tanque para sevar guaiamuns.
Mas não havia o ritual narrado por você. Com toda diferença, sua crônica me levou à janela da garagem que dava para o quintal e meus casos costurado entra bichos e goiabeiras

Carlos Borges said...

Lindo, lindo, lindo, Roberto. Uma poesia só. Viajei na viagem de seu pai nas alamedas do quintal. E me deu uma inveja danada de Fábio Portugal (que sempre achei um cara gente finíssima, embora convivemdo pouco com ele) porque amigo de frutas e chás, do jeito que eu sou, eu bem que ia me fartar por ali...
Como você escreve bem e lindo. Adoro!

wwww.viriatogaspar.com.br said...

Mais uma bela, comovente, comovida e comovedora crônica, meu caro Roberto Lima, a nos trazer à memória cheiros, gostos, nomes, farelos de nós e nacos dá vida que ainda hoje aquecem nossas almas e revigoram nossos corações. Um abraço carinhoso.

lebelon sans said...

Que lindo Roberto, lavou meus olhos!

Primeira Pessoa said...

Lela, fico feliz que tenha gostado.
Grande beijo do
R.

Primeira Pessoa said...

Viriato Gaspar,
você é um homem dotado de grande sensibilidade. Fico muito feliz quando minhas palavras chegam até você.

Abraço amigo do

Roberto.

Primeira Pessoa said...

Carlinhos,
saudades das nossas prosas infindáveis, nossas gargalhadas por tantas bobagens.
A gente precisa se ver.

Beijão do

R.

Primeira Pessoa said...

Léo,,
eu te falei que iria escrever, lembra?
Taí.
Abração do

R.

Primeira Pessoa said...

Seu quintal era imenso, 'anônimo'. era um pedacinho de xangrilá.

abração do

roberto.