Thursday, April 26, 2018

A humanidade cabe numa caixa de papelão


Deve ter passado muito frio, o recém-nascido. 
Deve ter sentido falta da água morna do aquário da barriga de sua mãe. 
Consigo imaginá-lo naquela posição em que ficam os bebês antes de nascer, dormindo de conchinha, inocente, sem imaginar que lá fora existem países em guerra e homens vendendo a alma ao diabo. 
Dormiu, sonhando com anjos tocando harpa e lírios derramando ouro.
Dormiu como se escutasse um minueto e seus olhinhos fechados enxergassem Jesus.
Naquela rua, naquele momento, passaram táxis vazios e ônibus à procura de uma plataforma na estação rodoviária.
Passaram transeuntes apressados buscando trabalho ou descanso.
Circularam junkies sob o efeito de álcool e drogas, transeuntes amedrontados olhando aflitos para a frente como se fugissem da escuridão da noite e seus ardis. 
Por ali passou o medo em passos de ganso. 
Passou a desesperança com a sirene ligada.
Passou uma nação em transe, delirante, ensandecida sob o efeito da ganância e da falência de caráter daqueles que a conduzem.
Transitou um Brasil dormente por ali.
Um Brasil doente, canibal de si mesmo, soprando um samba de Adoniram numa flauta feita a partir de um fêmur.
Passaram ambulâncias carregando doentes e automóveis importados levando novos ricos e playboys desajustados.
Passou uma mulher pedindo esmola, levando ao colo uma menina que não teve a sina de ir parar em outra caixa de papelão.
Passaram por ali a fome, a miséria e a injusta distribuição.
Passou a violência aniquiladora, escancarada no olhar das pessoas.
Passaram 518 anos de uma história cheia de nódoas e metas não atingidas.
Passou um país que não se cumpriu.
O bebê dessa crônica não conhecerá as letras do alfabeto ou um poema de Cora Coralina. 
Não aprenderá a falar ou caminhar. 
Não sentirá a falta de um abraço de mãe ou escutará um conselho de avó.
Não verá os os flamboyants sangrando no coração das primaveras, nem distinguirá o roxo dos ipês do vermelho das rosas no canteiro das praças. 
Não nadará em um riacho, nem sentirá o orvalho da grama molhada sob os pés.
Não testemunhará a mudança das luas ou das estações, nem jogará futebol com outras crianças. 
Mas também não se entristecerá com a classe política brasileira, que aniquila fria e impunemente o futuro de gerações inteiras.
Ele não ouvirá falar de negociatas escusas e nem terá o coração quebrado por algum amor de juventude.
Foi abandonado em um ponto de ônibus, como alguns encaminham indesejadas ninhadas de gatos na esperança de que alguém passe e se encha de compaixão, e dê para essa tragédia urbana um final feliz.  
Ah, menino de Brasília, a visão de seu corpinho tremendo de frio dentro de uma caixa de papelão deveria aguçar o sentimento de culpa e fracasso de toda a humanidade, mas estamos preocupados demais com o vencimento de nossas promissórias e com a escolha do próximo colégio de nossos filhos.
Falhamos!
Você sucumbiu desamparado, desnutrido e sozinho, conhecendo em suas primeiras e derradeiras horas o quanto é bruto o mundo em que habitam os humanos.
E é bem provável que apareça alguém dizendo que 'foi melhor assim'.

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1 comment:

Celso Adolfo, violonista/compositor said...

SORTE GRANDE

Em 1983 eu morava no Ed. Panorama, na Av. Afonso Pena, em BH. Uma família vivia na calçada do prédio. A mulher preta que cuidava dos três meninos pretos era "mãe-tia" deles e os “guardava” numa caixa de papelão. Certo dia apareceu outra preta, moça, como que “invadindo território”. Destruída moral e fisicamente, gritando e chorando, ela atirou longe o bebê que carregava. Eu caí duro de susto, pois foi na minha frente. O bebê caiu num canteiro. Juntou gente, polícia. Talvez porque estive em estado de choque, o bebê não chorava, mas, parecia sem ferimentos (físicos). Nada restava à moça-mãe descontrolada, para quem oferecemos aquele mísero (e quase inútil) consolo de ocasião.

Do outro lado da rua, brincavam aqueles três bichinhos indefesos esticando os pescocinhos de dentro da sua caixa de papelão. A mulher “mãe-tia” deles, chocada com problema do bebê jogado longe, foi ao “ninho” rever os seus três pintinhos pretos. A moça descontrolada e o bebê foram levados dali e não reapareceram.

Tempo passando, me aproximei da “família da caixa de papelão”, que continuava ali. Em 1989, eu gravava o disco “Anjo torto” e convidei os três pequenos (já mais crescidinhos) para uma foto que viria no encarte do LP/CD. Sabendo quanto a “mãe-tia” ganhava vendendo suas coisas no sinal, fiz uma conta o mais favorável que eu pudesse e paguei pela foto, três “cachês” à família.

O mundo rodou e eu nunca imaginaria rever a turma. Anos 2000 a mil, um deles me vê na rua e me chama pelo nome. Bem postado, seguro, metido num terno "quase" bem cortado, ele contou que vendia bíblias. Em 2010, num prédio em construção, vejo um caminhão trazendo cimento. Passando perto, alguém me chama: "Lembra de mim não?" Lembrei no ato. Era outro dos três, agora fichado e motorista daquele caminhão. Perguntei pelo terceiro da turma: "O primo tá por aí trabaiano tamém." E a sua mãe-tia? "Tá boa, grazadeus." Eu contei que tinha gravado mais discos. Dei dois pra eles. "Que bonita essa capa! Se precisar da gente pra tirar mais retrato, tamo aí!"

Três pessoinhas que a má sorte não alcançou começaram suas vidas numa caixa de papelão. SORTE GRANDE existe? Existe. Reparando bem, até mais do que supomos.