Monday, April 19, 2021

Duas estórias sobre Clarice




UM VULTO NA PENUMBRA

Clarice assistiu um filme impróprio no cinema.
Ela tem 11 anos e a película estava regulamentada para pessoas acima de 13. Entrou com a irmã mais velha e as primas.
O filme tinha cenas violentas, o que deve tê-la deixado bastante impressionada.
Duas da manhã, durmo pesadamente e sinto uma mão me tocar o rosto.
Abro os olhos e vejo aquela figura conhecida dissolvida na penumbra do quarto.
- Pai, estou tendo um sonho ruim.
Chego-me para o lado, puxo o edredom e ofereço o canto.
- Deita aqui, que papai te protege, digo flexionando o bíceps deficiente de musculatura.
Ela ri, deita ao meu lado, abraça-me e dorme quase que imediatamente.
Passo a noite em claro.
Fico ali, guardando o sono de Clarice, de olho na janela, de olho em Liam Neeson.

BIOGRAFIA


Estou terminando de ler a biografia do músico paraibano Zé Ramalho. Clarice, a caçula, entra no quarto e se deita ao meu lado:

 - Pai, que livro é este?
 Respondo, sem tirar o olho da página 236.
 - É bom?
 Aceno afirmativamente com a cabeça.
 Ela olha na capa e vê a foto do compositor em tronco nu, braços abertos.
 - Livro de terror, né?
 Sorrio. Zé Ramalho não é lá dos mais belos. E respondo tratar-se de uma obra biográfica.

Clarice coça a cabeça, olha para mim e pergunta:
 - O senhor não acha que já passou da hora de escreverem a minha biografia?
 Concordei.
 Já passou da hora.
 Adormeceu aqui, a cabeça jogada em meu ombro, a mãozinha direita segurando o livro.


* Clarice tem, hoje, 17 anos. No próximo mês de setembro ela iniciará sua trajetória acadêmica na Temple University, em Filadélfia. Está chegando a hora, eu sei. Vou ter que guardá-la de longe. Bem longe.

Sunday, April 4, 2021

O diploma

 


Meu pai nasceu em Mutum, cidadezinha com fama de violenta, da microrregião de Aimorés, Minas Gerais. 

Nasceu em casa, cresceu na roça, com sete irmãos. 

Antônio Ferreira Lima era o seu nome.

Brotou em casa, dentro dos limites de um sítio, e ali existiu entre os pés de café.

Aos oito anos foi matriculado numa escola rural. 

Adorava. 

Mas sabia que alegria de pobre dura pouco. Sempre foi assim, desde o princípio dos tempos.

Ao fim de 30 dias de alfabetização viu a figura austera do meu avô adentrar a sala de aula, improvisada num barraco que antes fora um paiol. 

Tentou decifrar o que a professora visivelmente não conseguia entender.

E saiu dali levado pela mão firme do pai. 

Mão calejada, dura, curtida na labuta da lavoura mais bruta.

E nunca mais voltou.

- Eu não precisei e você também não vai precisar, disse-lhe vovô.

O menino baixou a cabeça para nunca mais levantá-la, de fato.

Na caminhada entre o paiol e a casa saquearam violentamente a sua infância.

Não deixaram quase nada de inocência e de sonho. 

E isso explicaria certos comportamentos, algumas incompreensões e reações registradas ao longo dos seus 84 anos.

Noves fora nada, papai superou as expectativas.

Em vez de um lápis, aquela criança ganhou uma enxada, instrumento que a acompanharia dos oito aos 21 anos.

Calçaria os pés pela primeira vez aos 17. 

Com o dinheiro economizado depois de uma colheita de milho, foi ao sapateiro do vilarejo, profissional cujo estoque se resumia, naquele momento, a um par de chuteiras de jogar futebol.

E tudo o que ele queria era sair dali calçado.

Sonhara com um par de botinas, mas contentou-se com o que o comerciante tinha, dois números menores que os seus pés.

Humilhado no primeiro baile a que compareceu paramentado, voltaria descalço para casa.  

E assim permaneceria.

Conseguiu trocar as chuteiras por uma velha garrucha e só se realizou dois anos depois, quando finalmente adquiriu um par de botas.

Aos 21 anos foi tentar a sorte em Governador Valadares. 

Perambulou pelas ruas da cidade até encontrar abrigo em um bar, onde se ofereceu para fazer qualquer serviço. 

Generoso, o dono do estabelecimento - um homem chamado Carlos - ofereceu-lhe um salário mínimo e um quartinho nos fundos do quintal. 

A gratidão ao senhor Carlos foi tão grande que todos os filhos de meu pai se chamariam Carlos.

Como este Carlos Roberto que vos escreve.

Ao saber que a polícia militar estava precisando de soldados, vislumbrou ali uma forma de adquirir estabilidade profissional. 

A prova de admissão consistia em o candidato se apresentar ao batalhão, sentar-se numa carteira rodeado de outros candidatos e escrever uma carta pedindo emprego.

Os poucos dias vividos no banco da escola rural, no entanto, não lhe davam lastro necessário para escrever a missiva. Precisaria ser criativo.

Foi aí que teve a ideia de pedir a um contabilista - cliente do bar - que escrevesse a tal carta em um pedaço de papel de embrulhar pão.

Depois de uma semana praticando, aprendeu a desenhá-la.

Foi assim que ele foi admitido na PM de Minas Gerais.

Praça novo rodou por todo o Vale do Rio Doce até conhecer, em Galileia, uma moça com quem se casaria.

Construíram um barraco. Tiveram filhos.

Antes de mim nasceu um menino, que morreria de meningite

Nasci eu. 

Depois viriam outro menino e uma menina. 

Nunca ficamos sem ter o que comer. 

Vestíamo-nos com pedaços de farda que minha mãe desconstruía para nos cobrir. A vida era boa.

Eu tinha pouco mais de um ano quando estourou o golpe de 1964. Papai ficou de prontidão no 6º Batalhão, esperando por um combate que não aconteceu. 

Seu "prêmio" foi um diploma de "honra ao mérito", que amarelou dentro de uma moldura na sala da casa onde cresci. 

Aquele foi o único diploma que meu pai recebeu na vida.

Emigrei para os Estados Unidos em 1984 e, um pouco antes da partida, sentei-me com ele na amurada da pequena varanda.

Disse-lhe que aquele pedaço de papel me incomodava, por se tratar de uma nódoa na história do Brasil. 

Ele perguntou o porquê e lhe expliquei que a tal revolução, na verdade, não passara de um abominável golpe militar.

Papai não disse uma única palavra. 

O país vivia uma transição, e os ares da Nova República já se faziam sentir. Saí para comprar cigarros e, quando voltei, o diploma já não estava mais lá.

Dirigi-me a ele, que respondeu, serenamente:

- Eu tinha uma mentira pendurada na parede, meu filho. Deixa estar...

Nunca mais tocamos no assunto, como se o episódio fosse um daqueles segredos de família guardados no fundo de um baú.


Thursday, February 4, 2021

Dueto



Ricas, lá em São Raimundo, eram as famílias que tinham geladeira, televisão e radiola (ou vitrola). Quem possuía um automóvel era considerado milionário. 

Os poucos mais afortunados ostentavam dentro de suas casas, além de liquidificadores e chuveiros elétricos Lorenzetti, os possantes três em um.
E o que era o três em um?
Tratava-se de uma maravilha híbrida da tecnologia, que poderia funcionar como rádio, toca-discos ou toca-fitas (cassete).
Dia desses me atrapalhei todo tentando explicar para a minha filha Clarice o que era um toca-fitas.
Nas manhãs de sábado, dia do faxinão, era comum as donas dessas casas ligarem o som no volume mais alto, perfumando o ar com os sucessos de Roberto Carlos, Jerry Adriani e Ronnie Von.
As ruas tinham nomes de pedras preciosas que jamais brilharam, empoeiradas por falta de calçamento. 
Na Topázio, onde cresci, eu não me recordo de um único vizinho que tivesse carro até a metade dos anos 1970.
Na Esmeralda havia alguns abastados, como o seu Edson Souto, sócio de um curtume, e que possuía uma caminhonete C-10. 
Na Granada, o pai de Cléber e Róbson Carequinha ostentava uma Brasília amarela. E o dono da mercearia da avenida Esmeralda tinha um Corcel II meio baleado.
Em 1976, papai comprou-nos um Volkswagen do ano 1966. Foi uma grande festa. 
Nós, que já tínhamos uma geladeira - que dava choque quando abríamos a porta - e uma tv que chuviscava e tinha uma daquelas telas de plástico em degradê, entramos para o seleto clube dos milionários são-raimundenses.
O fusca marcou o apogeu de uma era de grande prosperidade para a família. Eu e meu irmão passamos a calçar ki-chutes, ganhei uma calça UsTop e tive a promessa de uma monareta no Natal, o que - infelizmente - não se materializou. 
Seu Antônio juntava o salário de soldado da polícia militar ao dinheiro das vendas de roupas, que minha mãe comprava na rua 25 de março, em São Paulo, e ele vendia para as moças trabalhadoras na zona boêmia de Governador Valadares.
"Ninguém é melhor de paga do que as putas. Poucos são tão honestos quanto elas", filosofava, sob os olhares desconfiados de minha mãe, receosa de alguma permuta entre mascate e clientela.
Não chegamos a ter o tão cobiçado três em um do início da crônica, mas uma vitrola da marca Sonata - com direito a zumbido de caixa de marimbondo quando o disco rodava - daria um colorido muito especial aos nossos dias.
Logo de manhã, papai tomava banho e ligava a vitrola para se barbear. Ligava no limite, o que não era grande coisa, mas dava para se ouvir no portão.
Cascatinha e Inhana, Jararaca e Ratinho e Tonico e Tinoco só não eram maiores do que Agnaldo Timóteo, com quem meu velho formava uma dupla fazendo segunda voz. Ficava melhor do que Zezé de Camargo e Luciano. 
Seu Antônio morreria em janeiro de 2017, vítima de uma fibrose pulmonar. Apesar de ter nascido em Mutum, pediu para ser enterrado no cemitério Bosque da Esperança, que fica entre o aeroporto de Confins e a capital mineira.
Todas as vezes que vou a Belo Horizonte visito o túmulo de meu pai, o que acontece três, quatro vezes por ano. Chego, faço uma prece e vou embora. 
Na última visita, no entanto, algo curioso, quase sobrenatural, aconteceu.
Eu tenho o costume de ir de carro até o setor das Oliveiras, lugar que ele escolheu para descansar. A fileira de jazigos coincide com a presença de um frondoso pé de sibipiruna, o que facilita a localização.
O local fica no alto de um morro, um pouco depois do setor dos flamboyants e é possível avistá-lo logo no começo da subida. O rádio do carro estava sintonizado na Rádio Inconfidência e, tão logo curvei para acessar aquele quadrado habitado pela saudade, uma voz muito conhecida começou a entrar por meus ouvidos.

"Se algum dia
 À minha terra eu voltar
Quero encontrar
As mesmas coisas que deixei
Quando o trem parar na estação
Eu sentirei no coração
A alegria de chegar"

Foi muito para o meu coração. 
Não creio que Agnaldo Timóteo ainda toque no rádio, no meio das tardes de um novo milênio. Algo diferente conspirava ali.
Parei em frente ao pé de sibipiruna, que floria. 
Abri a porta do carro e aumentei o volume no máximo.
A música preencheu o ar.
Desabei.
E chorei feito o menino que um dia eu fui, enquanto Agnaldo Timóteo cantava para o meu pai se barbear e cantar junto.
Bem perto dali - eu sei -, sentado numa nuvem, o meu velho sorria e fazia a segunda voz.

Monday, December 28, 2020

Flor de pedra


A pandemia me tirou pessoas e coisas.

Perdi o convívio de gente que amo, cancelei uma viagem de duas semanas à Toscana e não trabalhei mais.

Fui morar debaixo da cama, fazendo companhia aos empoeirados sapatos, que chegaram a pensar que eu morri por nunca mais termos saído de casa.

Eles têm medo de desaprender a caminhar.

Dançar, nunca souberam.

Voar não se atreveriam. Meus pés têm medo de altura.

A lista de perdas é grande, contabilizei. Algumas são irreparáveis.

Mas trago também notícias amenas e salutares, sacramentando a repetição da parábola do limão que a vida dá.

É azeda e doce a limonada do viver.

Às vezes consigo dormir, mistério que jamais havia decifrado.

Parei de fumar um dia antes de anunciarem as medidas de prevenção ao coronavírus aqui nos EUA.

Esqueci os cigarros na casa de minha mãe em Betim, aonde eu havia chegado um dia antes. Seguíamos para São João del Rei e não fumei mais, desde então.

Parei parando, sem alardear nem fazer promessas a São Judas Tadeu, a quem sempre recorro nas causas impossíveis.

Sinto muita falta do tabaco, confesso.

Às vezes sonho que estou fumando, suado e nu ao lado de Rachel Welsh - também nua -, deitado numa cama de hotel, fazendo círculos de fumaça que nunca chegam ao teto.

O cigarro era um amigo de todas as horas.

Ele foi fiel e nocivo companheiro, sempre que algum pensamento de aflição me acometia.

Nos momentos de prazer também esteve presente, principalmente após um café ou uma Stella Artois.

Falando em Stella, outra notícia urge.

Entrei na pandemia bebendo muito.

O que é muito?

Duas garrafas de cabernet sauvignon, todos os dias, para aliviar a dor da incerteza.

Ou a certeza da dor.

Para 'variar', uma vez por semana bebia o inocente isotônico de cevada.

Há cerca de três semanas, porém, o fígado mandou um recado inequívoco e eu o escutei, desconfiado.

Parei geral.

Ao contrário do cigarro, não sinto a menor falta da bebida.

Aconteceu.

De vez em quando bebo uma taça de vinho ou uma long neck. Eu não sinto mais aquela urgência.

É como se o interruptor tivesse saído do On e entrado em Off.

Outra mudança positiva foi o retorno de uma velha parceira.

Recomecei a escutar música o tempo inteiro, como sempre fiz, mas não andava fazendo.

Descobri canções incríveis e voltou aquele arrepio na nuca e braço, uma indizível sensação.

Comprei um violão pela internet e estou aprendendo a tocar umas coisinhas com a ajuda do Youtube.

Li menos livros do que deveria até aqui, é verdade, mas estou devorando "Essa Gente", o mais recente de Chico Buarque. E não vou parar por aqui, posso garantir.

Vi mais filmes durante os últimos quarenta dias do que nos últimos quarenta anos.

Investi boa parte do tempo que abunda numa horta com cenouras de quatro cores, quinze pés de jiló, tomates de nove tipos diferentes, pimentões, sálvia, salsinha, cebolinha, tomilho, manjericão, alecrim, physalis, morangos, framboesas e mirtilos.

Fui a um bosque perto de casa e recolhi dezenas de pedras. 

Eu, que tinha interrompido a mania de recolher pedrinhas de lugares que visitava pelo mundo para presentear quem amo, fiz um canteiro de seixos dedicados a ninguém. 

Não tenho pendor artístico, mas as pintei, pétala por pétala, num exercício que antes pensaria ser desnecessário e fútil.

A pandemia, que me tirou tantas coisas, barganhou, dando-me agora essa estranha mania de transformar futilidade em necessidade.

E pedra em flor.

‘Ruim de cama’, desde menino, há noites em que consigo dormir.

Quando isto acontece, sonho com um planeta em que as pessoas transitam pelas ruas sem usar máscaras.

Um lugar imperfeito em que abraços são permitidos e os beijos não representam uma sentença de morte.

 

Monday, December 21, 2020

O tio Sukita


(Ao Carlos Borges)


O tempo passa, e a gente, às vezes, não se dá conta. Não é o meu caso, quero crer.
Os ossos não mentem.
A agilidade sumiu.
A flexibilidade do corpo, também. Há cerca de dois meses empenei o ciático tentando amarrar os sapatos, e mesmo os cadarços pareciam itens de museu.
Passei duas semanas na fisioterapia. Mal dormia. Mas já estou quase bom.
A rotina muda com o passar dos anos sem que a gente perceba. É como se a pessoa fosse anoitecendo por dentro e tudo o que era claro e diurno ganhasse tons de penumbra até o entrevamento absoluto.
Breu.
E o espelho é cruel.
A barriga se expande para quase todos, principalmente os sedentários, como eu.
Mas a flacidez não é facultativa. Ela é institucional, e não há botox milagroso que resolva.
Ao redor dos olhos rascunha-se uma espécie de mapa rodoviário do estado onde a pessoa nasceu. Para o meu desgosto, Minas Gerais é rabiscado de estradas, algumas em péssimo estado de conservação.
E o despertar para o definhamento é rude, já que o tempo não leva prisioneiros.
Há coisa de dois anos, em Nova York, dentro de um desses modernos elevadores, todo metálico e com espelho no teto, fiz uma triste descoberta.
Apertei o número do andar desejado e, sabe lá Deus o porquê, caí no desatino de olhar para cima.
Foi grande o susto.
Ela estava lá, olhando para mim.
Ela!
Aquela coroa sem rei.
Bem no cocuruto, o quipá de não judeu.
A coroinha do frade, uma auréola sem anjo.
Aquele latifúndio amazônico devastado de mim.
Eu não me dera conta do avançado ‘desmatamento’, sem quem nenhuma ONG internacional intercedesse e interpelasse Jair Bolsonaro, senhor de todos os desmatamentos e queimadas deste mundo.
Encarequei carecando, sem a permissão do Houaiss.
A partir daí passei a prestar mais atenção nas pessoas me chamando de senhor.  Constatei que não vem de agora a nova regra.
Daqui a não muito tempo terei prioridade para entrar no avião. Vivesse no Brasil, teria passagem gratuita nos ônibus coletivos.
No entanto, tenho alguns amigos que se recusam a aceitar que o tempo passou, e eles já não são os garanhões dos anos 1970.
Vestem-se como rapazolas do novo milênio, andam de óculos escuros da Oakley, fazem tatuagens, frequentam academias de ginástica para impressionar as moças e ganhar músculos.
É preciso ser muito forte para deter o giro do velho ponteiro do relógio. E eles pensam que são.
Tenho um amigo que foi muito boa-pinta na juventude. E não há nada mais antigo do que a expressão ‘boa-pinta’.
Ele era daqueles moços bem-apessoados, outro termo que fui buscar no meu velho baú de ‘velheiras’.
No tempo da Aqua Velva e das calças bocas de sino, Valdir fazia muito sucesso com os seus cabelos longos e a coleção de LPs do Black Sabbath.
Moço da alta classe média valadarense, ele desfilava pela cidade com o seu Passat cor de vinho, pneus tala larga e rodas de magnésio. Aquele carro era uma espécie de motel ambulante e ele se vangloriava disto.
“Eu tenho um ímã de mulheres”, gabava-se.
Três casamentos depois, esse Tio Sukita (da propaganda de um antigo refrigerante) continua na ativa, com sua metralhadora de galanteios defasados, muitos deles se encaixando na categoria assédio sexual, e dignos de interpelações severas aos olhos da lei.
Mas, se o Valdir é agressivo, as ‘gatinhas’ de agora não deixam barato. Como se mostrariam um pouco antes da pandemia, num bar da Savassi, em BH.
Refestelados na inocência da tarde, oito pré-anciões bebiam cerveja esmiuçando o tempo em que eram a última novidade de Deus.
Foi quando um grupo de quatro moças muito bonitas passou por nós em direção ao banheiro do bar.
Valdir viajou no tempo, remoçou, ‘garanhou-se’ e disparou uma deselegante cantada.
As moças pararam, não riram do parnasianismo do galanteio e uma delas voltou até nós.
Dedo em riste, meio-sorriso de Lolita de Nabokov (a outra metade era de Margareth Thatcher), ela foi direto ao Valdir:
   - Meu senhor, quem gosta de pau velho é orquídea. Se enxergue!
Valdir fingiu que não era com ele, chamou o garçom e tentou consertar:
A rodada é por minha conta!
Todos dissemos amém.

Tuesday, August 25, 2020

O ardina


Quando cheguei a Newark, em 1984, meu primeiro emprego foi em uma padaria da Ferry Street. 

O salário era de 140 dólares semanais para fazer pastéis de nata, aquela maravilha lusitana que no Brasil é chamada de pastéis de Belém.
Aprendi rapidinho, graças à boa vontade de um senhor madeirense, que escreveu em um pedaço de papel de pão as medidas exatas de açúcar, leite e gema de ovos.
Como eu não tinha lugar para morar, dormi algumas noites em cima dos sacos de trigo, escondido no porão do estabelecimento. 
Quando fui descoberto, recebi um ultimato do proprietário, que me deu três dias para arrumar um pouso ou perderia o emprego.
Nos horários de almoço, eu costumava buscar abrigo em uma livraria das Cinco Esquinas.
Lá eu passava os momentos de folga folheando Fernando Pessoa e Florbela Espanca sem comprar absolutamente nada. 
Foi lá que conheci Sebastião Bento, dono de uma rádio que funcionava por cabo telefônico - tente explicar isto a um adolescente de hoje -  diretamente de Portugal. Ele era o rei do futebol por aqui.
Em dias de jogos do campeonato lusitano, uma pequena multidão de patrícios se acotovelava em vários pontos da Ferry Street, escutando sair dos alto-falantes instalados nas marquises aquilo que chamavam de "relato da bola". 
A boa e velha transmissão radiofônica de uma partida de futebol ganhava para mim uma nova conotação.
Sebastião Bento se apiedou da minha história - contada pela dona da livraria - e me levou ao Campino's, um restaurante de comida ibérica na Jabez Street. Eles estavam precisando de um lava-pratos.
Não consegui um quarto para dormir, mas arranjei outro emprego. 
Lá eu ganharia 220 dólares semanais, trabalharia uma média de 13 horas por dia, folgaria às quintas-feiras e comeria de graça.
Já no primeiro dia fiz amizade com Franklin Ferreira, um aveirense que vivera por 17 anos no Brasil e tinha até carteirinha de sócio da Portuguesa de Desportos.
Franklyn me tomou pelo braço após o horário de movimento e levou a uma senhora que alugava quartos na Wilson Avenue.
Por 17 dólares semanais eu havia, finalmente, achado um lugar para descansar os ossos e me lavar. 
Visivelmente 'prescrito', fazia uma semana que aquele aprendiz de lava-prato não tomava um banho.
O Campino's tinha um salão de festas com capacidade para 600 pessoas e teria, já na minha "estreia", um jantar-show com Roberto Leal, cantor transmontano que vivia em São Paulo e ganhava fortunas se apresentando nas comunidades lusas espalhadas pelo mundo.
Nunca vi tanta louça na vida, mas o esforço foi amenizado pelo som abafado que vinha do salão. 
A voz do cantor que eu tanto detestava quando o ouvia nas rádios - ou via nos programas do Silvio Santos - me arrepiara por inteiro.
Com saudade de casa, derramei lágrimas legítimas, principalmente durante a introdução de "Bate o Pé", um de seus maiores sucessos. 
Admirador de Chico Buarque e Tom Jobim, confesso que os traí.

Nunca vou me esquecer da generosidade do Franklin, nem dos enormes desafios que tive que superar pela promessa de um green card. 

Foram quatro anos de muita entrega e preconceito, tendo que ouvir todos os dias que o brasileiro é preguiçoso e que eu era uma (rara!) exceção. Tive que trabalhar dobrado para não perder a deferência.
Um dos episódios que mais deixaram marcas aconteceu no dia - bem no início - em que contei que escrevia crônicas para um jornal de minha cidade. Um dos cozinheiros sorriu maliciosamente e disse:
- Então, no Brasil, tu eras um ardina, não?
Baixei a cabeça sem conhecer o significado da palavra inédita, uma das tantas que no Brasil falamos de outra maneira.
Todos riram e começaram a me chamar de ardina, a partir de então. O nome Roberto, com que fui registrado e batizado por meus pais, havia sido substituído sem o meu consentimento por uma palavra desconhecida, utilizada de forma maldosa para me diminuir.
Naquela época não havia internet e, consequentemente, o Google com sua abundância de dicionários. Tive que esperar até o dia da folga para desfazer o mistério.
Na livraria eu descobri que ardina é aquele que, no Brasil, chamamos de jornaleiro. 
E uma tristeza enorme tomou conta de mim. 
Quando apetecem, as pessoas conseguem ser cruéis com seus semelhantes. Humilham por puro prazer. 
Em 1988 eu fundaria o Brazilian Voice, o primeiro jornal brasileiro de New Jersey.
Em um primeiro momento, eu escrevia todas as matérias, ajudava na montagem e ralava na venda de espaços publicitários. Após o jornal ser impresso, saía numa van distribuindo o periódico pelas comunidades de quatro estados da Costa Leste. 
Livre da prisão da cozinha, eu era, finalmente, um jornalista.
E jornaleiro! 
Só que, agora, a pecha me enchia de orgulho.
O veículo se firmaria, ganhando importância para os brasileiros e respeito dos próprios portugueses. 
Fazendo um rápido balanço mais de três décadas depois, tenho a absoluta certeza de que minha história de imigrante teve um final feliz.
De vez em quando, esbarro pelas ruas com ex-colegas dos tempos de cozinha. 
Alguns já se aposentaram e outros continuam trabalhando em restaurantes, um dos ofícios mais duros que existem. 
Agora me chamam pelo nome, devidamente acrescido do sobrenome. 
Mas já não faz a menor diferença.

Sunday, August 9, 2020

Layla, a gorda

Totó, Til e Rex eram nomes populares de cachorro naquele início da década de 1970.

Toda criança merece ter um bichinho de estimação para chamar de seu. Mas cresci sem ter tido um, o que não deixou traumas ou mágoa. Papai não gostava, talvez por ter outras quatro bocas para alimentar.
Cresci, mudei, casei, levei o coador e tive três filhas, trafegando quase sempre na contramão do meu velho.
Nesta humilde residência em um país distante do Brasil já habitaram - ou habitam - cães, coelhos, peixes, calopsitas, uma iguana e até um papagaio australiano que tem parte com satanás.
Cacatua, essa ave neozelandesa de plumagem branca e topete do Supla, destruiu metade da minha biblioteca, devorou portais, escrivaninhas e uma mesa de centro com a competência de um exército de cupins.
Cansado de suas estripolias, convoquei uma reunião familiar emergencial e anunciei:
   - Ou ele ou eu.
Clarice, a caçula - na altura com oito anos -, tomou a palavra e decidiu por todos:
   - Pai, telefona pelo menos uma vez por mês para ver se estamos precisando de alguma coisa.
Cacatua ficou na casa, claro.
E eu também. Só que, agora, desmoralizado e reduzido a uma incômoda desimportância.
Felizmente tive o consolo e solidariedade de uma adorável criatura.
Layla foi a terceira das três sharpeis que aportaram por aqui.
Veio depois de Jade e Nina. 
Ao contrário de suas predecessoras, nunca nos deu trabalho.
Morávamos em Kearny quando Jade se livrou da coleira e atropelou um Ford Taurus a 45 milhas por hora. 
A lataria ficou bastante amassada e tive que pagar o funileiro.  
Fora o susto.
E a danada da Nina fugia semana sim semana não, movimentando os vizinhos em solidária missão de busca e captura.
Quando Layla chegou por aqui em 2013, aos três meses de idade, trouxe na bagagem uma indescritível alegria.
Gorducha, felpuda, fofa, parecia um daqueles bichos de pelúcia que moravam no quarto das meninas. 
Cheia de vida, o rabo sempre abanando de canina felicidade, era perfeita.
Escrevi inúmeros textos com ela encostada aos meus pés. 
Vimos muitos filmes juntos, quando todos na casa dormiam. 
Assistimos calados à derrocada do meu Cruzeiro em sua queda para a Série B do campeonato brasileiro.
De vez em quando saíamos para passear, ela me arrastando pelas ruas do bairro, dando uma força ao lento companheiro.
Há cerca de três meses começou a perder peso. Logo ela, a quem chamávamos carinhosamente de 'gorda'. 
Levamos ao veterinário, mas os remédios não surtiram efeito.
Mudamos de profissional e, mesmo com exames de raio x, nada de anormal foi constatado.
Feliz, brincalhona, solidária, mantinha o comportamento de sempre, apesar de estar cada vez mais magra.
A solucão foi encaminhá-la a uma renomada veterinária de Nova York, uma das grandes especialistas da raça sharpei no país.
Somente na terceira visita e novos exames, foi detectado o pior: o câncer já havia se alastrado por várias partes do corpo. Tinha pouquíssmo tempo de vida.
Ficamos arrasados.
Nas últimas semanas comecei a cozinhar para ela, que já não tinha mais apetite. E a alimentava como um pai que alimenta um filho doente. Tentei espichar ao máximo o nosso tempo juntos. 
Nos fins de tarde, um de nós a colocava no assento do carona do carro e saíamos para dar uma volta. 
Ela sempre adorou a sensação do vento balançando as pelancas da bochecha e a papada, fazendo um barulhinho bom.
Ontem ela amanheceu com imensa dificuldade de respirar. Sofria tanto.
Mordia o ar, como se quisesse mastigá-lo, fazendo o som de um fole furado, naquilo que tentava dele se alimentar.
Andava de um lado para o outro com aquele 'gato' ronronando dentro do peito, o olhar pedindo socorro, mas o rabo abanando, como que se desculpando por estar assim.
A agonia extenuante não nos deu outra alternativa a não ser ligar para uma veterinária especializada em eutanásia animal a domicílio.
O relógio apontava 22 horas quando escutei o carro estacionando na frente da casa.
Ajoelhei-me no chão da sala, abracei-a e beijei-a com o rosto molhado de tanto chorar.
Agradeci muito. Agradeci demais.
Ato contínuo, subi as escadas, deitei-me na cama, coloquei os fones de ouvido no último volume e fiquei escutando Egberto Gismonti cantar o Hino do Carmo.
Meu coração parecia querer explodir de tanta dor.
Ela sairia da casa dentro de uma sacola de plástico transparente alguns minutos depois.
Mas eu não escutei.
Nem vi.


* Foto do passeio com Layla na tarde deste fatídico 6 de agosto, algumas horas antes do fim.