Monday, April 19, 2021

Duas estórias sobre Clarice




UM VULTO NA PENUMBRA

Clarice assistiu um filme impróprio no cinema.
Ela tem 11 anos e a película estava regulamentada para pessoas acima de 13. Entrou com a irmã mais velha e as primas.
O filme tinha cenas violentas, o que deve tê-la deixado bastante impressionada.
Duas da manhã, durmo pesadamente e sinto uma mão me tocar o rosto.
Abro os olhos e vejo aquela figura conhecida dissolvida na penumbra do quarto.
- Pai, estou tendo um sonho ruim.
Chego-me para o lado, puxo o edredom e ofereço o canto.
- Deita aqui, que papai te protege, digo flexionando o bíceps deficiente de musculatura.
Ela ri, deita ao meu lado, abraça-me e dorme quase que imediatamente.
Passo a noite em claro.
Fico ali, guardando o sono de Clarice, de olho na janela, de olho em Liam Neeson.

BIOGRAFIA


Estou terminando de ler a biografia do músico paraibano Zé Ramalho. Clarice, a caçula, entra no quarto e se deita ao meu lado:

 - Pai, que livro é este?
 Respondo, sem tirar o olho da página 236.
 - É bom?
 Aceno afirmativamente com a cabeça.
 Ela olha na capa e vê a foto do compositor em tronco nu, braços abertos.
 - Livro de terror, né?
 Sorrio. Zé Ramalho não é lá dos mais belos. E respondo tratar-se de uma obra biográfica.

Clarice coça a cabeça, olha para mim e pergunta:
 - O senhor não acha que já passou da hora de escreverem a minha biografia?
 Concordei.
 Já passou da hora.
 Adormeceu aqui, a cabeça jogada em meu ombro, a mãozinha direita segurando o livro.


* Clarice tem, hoje, 17 anos. No próximo mês de setembro ela iniciará sua trajetória acadêmica na Temple University, em Filadélfia. Está chegando a hora, eu sei. Vou ter que guardá-la de longe. Bem longe.

1 comment:

Joakim Antonio said...

Bom demais te ler, Robert. Ri gostoso ao citar o Liam Neeson, que por acaso a Netflix me oferece como sugestão agora há pouco.

Abração e curta muito esses meses.