Tuesday, February 9, 2010

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Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.


Amalia Bautista

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Amalia Bautista nasceu em Madrid em 1962. Jornalista de formação, trabalha como redatora no gabinete de Imprensa do Conselho Superior de Invetigações Científicas.

Saturday, February 6, 2010

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Essas Mães Interioranas


Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dozinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.
Dona Cilinha cantava no coral da igreja.
Dona Marocas - mãe das moças mais bonitas - era sábia, dava conselhos, e não carregava tristeza no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja crente.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia para si própria.
Dona Socorro fazia biscoitos.
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição. Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Nilza calava-se.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scania Vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.
Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.
Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres.
Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa.
Se na infância são nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.
Santificadas, sejam, essas nossas mães.
Santifiquemos.
Santificai!

Friday, February 5, 2010

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Versos Íntimos


(Augusto dos Anjos)


Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!


Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.


Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.


Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!


* A postagem deste poema é uma homenagem, à minha maneira, a Romério Rômulo, a quem vi atravessando a praça na manhã-tarde da última segunda-feira.
Ali, em Ouro Preto, o poeta subvertia a ordem das coisas.
Sim, foi assim mesmo: sua cabeleira esvoaçava o vento.
e não o contrário.
beijão, poeta!

Thursday, February 4, 2010

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Minas Gerais, Um Lugar Especial

Não trabalho para a secretaria de turismo de Minas Gerais. Mas quero te convidar a vir comigo a Minas. Convoco os gaúchos a fazerem o mesmo que estou fazendo, exaltando os pampas e suas belezas.
Os paranaenses, cantando a Ópera de Arame, a Serra da Graciosa e o antológico barreado de Morretes.
Os cearenses, descrevendo suas praias, o calor do seu sol.
Os amazonenses, tecendo loas às belezas naturais da maior floresta do mundo. E por aí afora.
Todo brasileiro, caso seja da sua vontade e, cada um à sua maneira, poderia ser um guia turístico informal. E o Lula bem que poderia mandar um dinheirinho para ajudar na saliva.
Tenho orgulho do lugar de onde vim, de sua gente hospitaleira, suas montanhas que quase tocam o céu, suas ruas estreitas, as igrejas banhadas a ouro, a culinária robusta, e toda a história que Minas carrega em sua bandeira: Libertas Quae Sera Tamem.
Quero te convidar, caro leitor, a um passeio por Ouro Preto, Tiradentes, Mariana e Diamantina, para um banho de barroco.
Quero que tenha a estranha sensação de caminhar sobre as tabuas onde repousa o corpo de Aleijadinho. E te mostrar o que ele fez em vida, seus anjos, seus santos, seus girassóis. Vamos a Congonhas do Campo apreciar a beleza de seus profetas, sua obra-prima. E vamos além.
Quero que vá comigo ao Mineirão assistir Atlético x Cruzeiro, um dos clássicos mais importantes do futebol brasileiro. No intervalo do jogo, comeremos juntos um prato de feijão tropeiro: arroz, feijão tropeiro, alguns torresminhos, couve cortada bem fininha e um essencial ovo frito, esparramado por cima. E por apenas 5 reais.
Poderemos ir ao Vale do Jequitinhonha comprar umas peças de artesanato, lindíssimas, feitas por gente do povo, gente simples e talentosa, que transforma o barro que vem do chão em sustento.
Podemos conhecer o circuito das águas, ao sul do estado. Dizem que as águas de Caxambu, São Lourenço e Araxá operam milagres. Que elas lavem nossas mágoas e tristezas, então. E nos dêem uma alegria novinha em folha, além da sensação de frescor.
Se for da sua vontade, meu caro visitante, poderei te mostrar os cenários onde bambas de nossa literatura moldaram suas obras. Vamos a Itabira, trafegar pelas ruas de Drummond. Pode ser que encontremos aquela pedra do meio do caminho, do poema "José".
Sei de um atalho até Cordisburgo, onde Guimarães Rosa viveu e pariu seu Grandes Sertões, Veredas. Te levo à casa de Guimarães. Mostro-te a cama onde ele dormiu. A mesa onde ele se sentava para tomar café.
Não muito longe dali está a gruta do Maquiné, um lugar místico, especial. Dependendo da sua disposição, dá até para ir a pé.
Posso te levar para "savassear", termo usado por Roberto Drummond, para descrever as caminhadas que fazia todos os dias pelas ruas do bairro mais charmoso da capital do estado. Te mostrarei a estátua que ergueram em homenagem à ele. E nos sentaremos na livraria da Travessa para um cafezinho com pão de queijo, sentindo aquele cheiro inconfundível de papel e tinta, que exala dos livros ao nosso redor.
Irei te levar ao Mercado Central para tomarmos uma cerveja em pé, com o umbigo colado ao balcão. Comeremos fígado acebolado e jiló. Uma iguaria.
Te oferecerei abacaxi no palito. Mostrarei os saborosos e emblemáticos queijos mineiros, nossas compotas, as montras de carne de sol, o artesanato, e as frutas, que abundam na região.
Se ainda não saboreou uma pitanga, um jambo, uma jabuticaba, uma carambola, uma mangaba ou um cajá, essa será sua chance.
Você que anda precisando de sustância, refém das dietas e da ditadura da balança, relaxe: frango com “Ora-pro-nobis”, ao molho pardo e com quiabo e angu; leitãozinho à pururuca, tropeiro e tanta, mas tanta coisa gostosa, que você voltará para casa com um pequeno sentimento de culpa.
Te levarei pra uma via-sacra pelos bares de BH.
Comeremos uma traíra sem espinhas no Careca. Uma maçã de peito na Mercearia do Lili e um rabo apertado no Zezé. Tudo acompanhado por uma pinguinha de alambique, da boa.
Te levarei à praça do Papa para ver a cidade à noite. Com um pouco de sorte, pode ser que algum violeiro esteja fazendo uma serenata por lá. No outro dia sonhei que Celso Adolfo cantarolava a canção Nós Dois, compenetrado, derramando sua voz afinada e grave sobre os telhados de BH. Só ele e seu violão.
Minas tem montanhas, cachoeiras, tem rios formosos. Podemos fazer um passeio de vapor pelo São Francisco. Você vai gostar.
Para fechar o passeio, se não consegui te impressionar até aqui, passaremos pela casa de meus pais. Minha mãe faz um franguinho caipira que não é deste planeta. E meu pai tem sempre um causo pra contar.
Lá tem cuitelinhos que bebem água doce na janela da cozinha, tem sanhaços amigos bicando bananeiras no quintal, árvores frutíferas e um céu absurdamente azul. E uma varanda, com um sofá velho (daqueles que abraçam a gente) de onde dá pra ver, de dia, todo o esplendor das montanhas mineiras e, à noite, a lona do céu salpicada de estrelas.
Você, caro leitor, precisa conhecer Minas Gerais.


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Wednesday, February 3, 2010

A Volta do Que Não Foi

Ou, foi?
Acho que fui. Vim.
Viajei. Continuo viajando. Férias que eu tanto esperava (e esperei). Finalmente chegou.
E cheguei.
Fugi do frio e da neve (e das obrigações profissionais) para esse encontro comigo mesmo.
No final de semana, tomei um demorado banho de barroco, o que me remoçou, recarregou, me refez...
Eu estava numa precisança imensa destes dias só pra mim.
Tão logo eu volte a ter acesso à internet, postarei, responderei, contarei o que vi e o que senti.
O que vejo. E o que almejo.

Fico feliz demais quando chego a este lugar especial.
Blue Boy.

Beijão procês.
Saudades do

Roberto.

Tuesday, February 2, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Vida Sertaneja
(Patativa do Assaré)

Sou matuto sertanejo,
Daquele matuto pobre
Que não tem gado nem queijo
Nem oro, prata, nem cobre
Sou sertanejo rocêro,
Eu trabalho o dia intero,
Que seja inverno ou verão
Minhas mão é calejada,
Minha péia é bronzeada
Da quintura do sertão

Por força da natureza,
Sou poeta nordestino,
Porém só canto a pobreza
Do meu mundo pequenino
Eu não sei cantá as gulora,
Também não canto as vitora
Dos herói com seus brazão,
Nem o má com suas água...
Só sei cantá minhas mágua
E as mágua de meus irmão

Canto a vida desta gente
Que trabaia inté morrê
Sirrindo, alegre e contente,
Sem dá fé do padece,
Desta gente sem leitura,
Que, mesmo na desventura,
Se sente alegre e feliz,
Sem nada sabê na terra,
Sem sabê se existe guerra
De país contra país

Cabôco que não cúbica
Riqueza nem posição
E nem aceita a maliça
Morá no seu coração
Cabôco que, nesta vida,
Além da sua comida,
O que mais estima e qué,
É a paz, a honra e o brio,
O carinho de seus fio,
E a bondade da muié

E assim, na sua paleja,
Com a famia que tem,
Não inveja nem deseja
O gozo de ninguém
Mas, por infelicidade
Contra seu gosto e vontade,
Munta vez, o pobre vê
A muié morrê de parto,
Gemendo dentro de um quarto,
Sem ninguém lhe socorrê

Morre aquela criatura,
Depois, a pobre coitada,
No rumo da sepultura,
Vai numa rede imbruida
Um adjunto de gente
Uns atrás, ôtros na frente
Num apressado rojão,
Quando um sorta, o ôtro pega:
É assim que se carrega
Morto pobre, no sertão
Fica, o viúvo, coitado!
De arma triste e dilurida,
Para sempre separado
Do mió de sua vida,
Mas, porém, não percebeu
Que a sua muié morreu,
Só por fartá um dotô
E, como nada conhece,
Diz, rezando a sua prece:
Foi Deus que ditirminou!

Pensando assim desta forma,
Resignado, padece;
Paciente, se conforma
Com as coisa que acontece
Coitado! Ignora tudo,
Pois ele não tem estudo,
Também não tem assistença
E por nada conhecê
Em tudo o camponês vê
O dedo da providença


A música que toca sem parar vem na voz de um poeta popular cearense.
Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré (Assaré, Ceará, 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002), foi um poeta popular, compositor, cantor e improvisador brasileiro.
Na simplicidade, reside a sua genialidade.
Sou fã.
Ao fundo, o violão de Cirino.

















Isabella Sonhava

Será que ela tinha uma boneca Hello Kitty?
Assistiria Bob Esponja na televisão?
Gostaria de A Bela e a Fera e da Pequena Sereia?
Qual seria a sua favorita fábula infantil?
Será que seu cabelo ficava bonito amarrado por laço de fita?
Usava trancinhas? Tererês?
Será que ela gostava de sorvete de morango?
Será que comia brócolis?
Do que gostava de brincar?
Amarelinha, videogame, bonecas de pano – às quais tratava como pequenas filhas e lhes dava amor e cuidados -, ou esconde-esconde?
Pedra, papel e tesoura?
O que gostava de cantar Isabella?
Ciranda-Cirandinha? Twinkle twinkle little star?
Nos seus sonhos, feitos de inocência e nuvens, será que ela conversava com animais de estimação?
Falaria com anjos?
Teria amiguinhos imaginários, daqueles que só as crianças vêem e que os adultos dizem ser o anjo da guarda?
Nos seus pesadelos, feitos de monstros de outras dimensões e bruxas malvadas, quem era o herói que a salvava?
O Pai? O amiguinho imaginário? Ou despencaria de um precipício até beijar o chão?
Será que Isabella acordava chorando no meio da noite?
Será que sorria?
Quando nasceu o seu primeiro dentinho?
Quando caiu o primeiro?
Gostaria de cães e gatos? Teria um? Gostaria de ter um?
Amaria passear pelo zoológico?
Gostaria de livros, de desenhar? Gostaria de flores?
Qual a flor favorita de Isabella Nardoni?
Cravo, lírio ou jasmim?
O que desenhava Isabella Nardoni?
Os irmãos? Bichinhos? Criaturas como as dos cartoons?
Qual era a sua cor predileta?
Azul? Rosa? Cobalto? Carvão?
Qual o tamanho de seus sapatos? Já teria pintado suas unhas?
Será que algum dia mergulhou no oceano? Teria gostado do carinho das águas deslizando pelo corpo?
Gostaria de mar e brisa, de vento e verão?
Seria fogo ou água, essa menina tão linda?
Qual seria o seu signo no horóscopo chinês?
O que lhe reservaria o futuro?
Na adolescência iria ter acne no rosto? Sardas quando exposta ao sol?
O que estaria escondido nas cartas da cartomante, ou nas linhas desenhadas na palminha de sua mão?
Quando se apaixonaria pela primeira vez? Estaria, em seu futuro, reservado um grande amor?
Que profissão teria a adulta Isabella Nardoni?
Médica-veterinária? Trabalharia num banco? Venderia passagens aéreas para ilhas paradisíacas e pacotes para a Disney? Seria dona de casa?
Se casaria? Teria filhos?
Ninguém sabe. Ninguém saberá.
Isabella Nardoni voou.
Foi atirada do 6º andar do edifício em que vivia com o pai, a madrasta e dois irmãos.
Saiu pela janela e voou. Virou anjo.
Como aqueles com os quais conversava nas noites em que sonhava.
Sim, Isabella sonhava.

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