Sunday, February 21, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

.












Infância
(Carlos Drummond de Andrade... por ele mesmo)


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Saturday, February 20, 2010

.














O Poeta

Trabalha agora na importação
e exportação. Importa
metáforas, exporta alegorias.
Podia ser um trabalhador
por conta própria,
um desses que preenche
cadernos de folha azul com
números
de deve e haver. De facto, o que
deve são palavras; e o que tem
é esse vazio de frases que lhe
acontece quando se encosta
ao vidro, no inverno, e a chuva cai
do outro lado. Então, pensa
que poderia importar o sol
e exportar as nuvens.
Poderia ser
um trabalhador do tempo. Mas,
de certo modo, a sua
prática confunde-se com a de um
escultor do movimento. Fere,
com a pedra do instante, o que
passa a caminho
da eternidade;
suspende o gesto que sonha o céu;
e fixa, na dureza da noite,
o bater de asas, o azul, a sábia
interrupção da morte.

Nuno Júdice

*

A Música que toca sem parar é Cristiana, extraída do disco Carmo, de Egberto Gismonti, e tem no vocal a cantora Cristiana Legrand.

Friday, February 19, 2010

















Um amigo muito antigo

Meu bom amigo Jorge Costa é o que eu poderia chamar de sujeito antigo. E vivemos nos pegando por isto.
Nostálgico, como só ele, vive dizendo que os craques do passado são melhores que os do presente.
Que as mulheres dos filmes de antanho são mais "vistosas" - palavra dele - que as estrelas de hoje. E por aí afora...
Jorge Costa tem a idéia fixa de que o ontem é melhor que o hoje.
Acompanhando o seu raciocínio nostalgista, o nosso hoje será sempre melhor que o amanhã. Com o que discordo. Acho pessimista.
Mas o Jorge estufa o peito e faz questão de manter um pé fincado no ontem, o que, convenhamos, tem lá o seu charme.
Para vocês terem uma idéia, a bebida preferida de Jorge Costa é o velho Campari, mas ele gosta ainda de Cuba Libre e uma bebida esdrúxula que ele chama de "Traçado", que é, na verdade, um cachacinha com um dedinho de Vermout Cinzano.
Ao vê-lo pedindo um Traçado no balcão do Ipanema, em Framingham, murmurei para o bartender:
- Jorge Costa é muito antigo.
Ele escutou - tem ouvido de tuberculoso - a prosa e emendou:
- Antigo, não! Entrado na vida!
Não que ele seja contemporâneo de Sobral Pinto, Kafunga, Ulysses Guimarães ou Barbosa Lima Sobrinho. Jorge é um pouco mais recente.
Ele é do tempo dos grupos de Jovens, e não existe nada mais antigo do que um membro de um Grupo de Jovens.
Outra agravante: ele foi presidente de um deles, em sua Conselheiro Pena natal.
Ele é do tempo das palavras cafona e bocomoco.
Em seu vocabulário podem ser encontradas outras raridades como mocorongo e mucureba.
Na concepção de Jorge, as mulheres fofoqueiras são adeptas dos mexericos da Candinha.
Os maridos submissos são "camisolões" e homens de pouco pulso são chamados de "calças frouxas".
As gatinhas de hoje, são os brotos do imaginário masculino de sua geração.
Ele é do tempo dos cigarros Imperador, Beverly e Mistura Fina.
Os carros que Jorge sempre sonhou possuir foram o famoso "dorjão" -uma banheira da dodge, que bebia demais e ocupava dois espaços no estacionamento -, um opulento Galaxy ou um prosaico Gordini, felizmente extintos.
Nos bons tempos, Jorge gostava de usar camisas "Volta ao Mundo", calças de brim e tergal. Nos dias de hoje, acha que Giorgio Armani e Oscar de La Renta são jogadores da segunda divisão italiana.
Quando chovia, era adepto de uma galocha.
Esportivamente tinha um par de Kichute, outro de Conga e um terceiro de Bamba Maioral, dos quais ainda hoje se gaba.
Em ocasiões sociais, não dispensava o seu sapato vulcabrás de cor marrom, feito de borracha e conhecido por provocar bromodrose exagerada, aquilo que comumente chamamos de "chulé". Só quem teve um sapato destes sabe do que estou falando.
Os símbolos sexuais de Jorge até hoje são Marta Rocha, Sophia Loren, Claudia Cardinali e Brigitte Bardot.
Segundo amigos próximos, ele carrega no bolso traseiro de sua calça um espelho oval, que tem no verso uma foto de Emilinha Borba vestindo um maiô.
No outro bolso traz um pente da marca Flamengo e, antes de sair de casa, dá um toque no cabelo de corte "Príncipe Danilo" aplicando uma generosa quantidade de brilhantina Trim.
Jorge é tão antigo quanto a pomada Minâncora, o Biotônico Fontoura ou a logomarca da Maisena, e isto tem rendido acirradas discussões.
Concordo com ele que a poluição industrial tirou o glamour de muita coisa, roubando de nós a beleza azul do céu, por exemplo.
Concordo, também, que o Rio Doce - que ainda hoje corre em nossos corações - já não é tão piscoso como dantes e que as noites presentes já não são tão estreladas quanto às de antanho.
Mas, daí até concordar com ele que Dario Peito de Aço foi um artilheiro melhor e mais perigoso que Ronaldo Fenômeno nos tempos de Barcelona, ah, isto não.


Foto de Sophia Loren, em todo o seu explendor

*

Thursday, February 18, 2010

.
















1.
Não há mais nenhum nome. Depois de ti
destinaram-me apenas corpos que não amei,
rostos onde não quis pousar os olhos por temor
de os fixar, mãos que eram sempre as sombras
das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,

nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam
na minha a tua carne — se outro motivo os trazia,
por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca
o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,
é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.


2.
De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para parar-me, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


Poema de Maria do Rosário Pedreira

A Música que Toca sem parar é "Cálice", parceria de Chico buarque e Milton nascimento, na voz de ambos.

Ilustração de Nicoletta Ceccoli

.

.










Na Bagagem do Ex-presidente


Vejo na televisão a imagem de George W. Bush adentrando o helicóptero que o levará ao seu rancho, no Texas, onde ele inicia uma nova fase em sua vida.
Minutos antes, esse que agora é um ex-presidente, entregou ao seu sucessor Barack Obama um país mergulhado em duas guerras, trincado pela crise econômica e com a auto-estima em frangalhos, como se dissesse: Toma! É seu. Agora, se vira nos quatro!
O que levou George Bush, no helicóptero que o transportou ao Texas?
Terá levado sabonetes e toalhas dos banheiros da Casa Branca?
Terá levado uma almofada da sala oval, ou o seu travesseiro favorito?
Terá levado sementes das flores do jardim da residência oficial da presidência, para transplantá-las em seu quintal texano?
Terá levado talheres de prata?
Terá levado charutos, cinzeiros ou um chapéu de cowboy?
Presentes de dignatários de outros países terão cabido em suas malas, ou seguiram por terra, num caminhão da U-haul?
Será que Bush levou consigo um abridor de envelopes de prata, com a insígnia da presidência?
Terá levado algum livro da biblioteca? Algum souvenir?
Terá levado sua coleção de música country? Seus ternos bem cortados e suas gravatas vermelhas?
O que terá seguido por terra, em sua bagagem?
Será que ele conseguir fazer com que coubesse a ganância dos banqueiros e especuladores de Wall Street?
Terá levado um volume somente com a truculência de seus falcões?
Terá levado cópias dos discursos ufanistas de seu vice, Dick Chenney, ou o penteado austero de Donald Rumsfeld?
Terá levado um pouco do charme discreto de Condoleezza Rice, ou uma fotografia em preto e branco de Thomas Jefferson, retirada de alguma parede?
Terá levado um litro de sangue de um infante morto no Iraque?
Ou, a infinita dor de uma viúva de um marine tombado no Afeganistão?
Será que Bush alocou em sua mala a angústia de um desempregado de Detroit?
A frustração de um doente incapacitado de ter acesso ao seguro-saúde?
Terá levado a fragilidade de um aposentado?
Ou, a sensação de abandono de algum ex-proprietário de imóvel, que acabou de declarar falência e entregou ao banco a casa que não conseguiu quitar?
Será que ele levou consigo o que restava da alegria desbotada dos velhos da América, antes dessa sua administração?
Ou o desapontamento de um jovem, descrente com os rumos que tomou a nação e sem saber se poderá freqüentar, algum dia, a cadeira de uma universidade?
Terá levado o sorriso inocente de alguma criança?
Será que levou entre as suas coisas a incerteza de um imigrante indocumentado, ou a dor desses que deixam suor e juventude adubando esse solo, e que são humilhados cotidianamente como se fossem os culpados por todas as mazelas por que passa o país?
Será que levou consigo a tampa do poço? Sim, esse poço infinito, do qual nos últimos anos do seu governo não conseguimos ver o fundo... Será?...
O helicóptero levanta vôo e, lá de cima, George W. Bush deve estar vendo, certamente, a multidão que marcha enfrentando o frio cortante de Washington DC, com a alegria dos que vão a um desfile de carnaval em pleno verão.
Não sei se a massa que se arrasta freneticamente na frente do capitólio e dos principais monumentos da capital do poder sente ressentimento. Sente frio, é natural, mas um desejo maior os conduz em direção ao futuro.
Consigo imaginar que estejam sentindo o que eu sinto, nesse instante.
Isto, que vai além de um arrepio constante da cabeça aos pés, um frenesi que causa uma enorme vontade de cantar e abraçar todos os que cruzarem o meu caminho.
Bush levou muito da tranqüilidade do povo americano em sua bagagem, é verdade. E sei que levou muito mais.
Mas ele esqueceu-se de levar a nossa esperança, nossa vontade de virar o jogo e a fé em melhores dias.
*


* Crônica escrita no dia em que George W. Bush embarcou num helicóptero nos jardins da Casa Branca e voou em direção ao (esperamos!) esquecimento.

Monday, February 15, 2010

.












Limando o Lima

Fosse aqui nos Estados Unidos, alguém com o sobrenome Lima iria procurar quem inventou a expressão “Mandar o Lima” e processá-lo.
O bordão é sinônimo de descaso e é usado toda vez que alguém não quer ir a algum compromisso, e resolve mandar o Lima em seu lugar.
Dizem que Tim Maia mandou o Lima a muitos de seus shows, e que teria sido ele o cunhador do mote.
Estivesse vivo e morando nos Estados Unidos, algum distante parente meu arranjaria um jeito de processá-lo, demandando milhões. Aqui se processa por tudo. Teve uma dona que ganhou uma grana porque uma lanchonete McDonalds serviu-lhe um café quente. Já no carro, o copo de café caiu-lhe sobre o colo, queimando parte das coxas.
Isto talvez explique o cafezinho morno que andam servindo por aí.
Nos anos noventa, “Bráulios” do Oiapoque ao Chuí bem que poderiam ter se manifestado em tribunal. Foram injustamente estigmatizados.
Fosse o Brasil os Estados Unidos, o processo teria sido movido contra o ministério da Saúde, que na campanha de prevenção contra a aids, sugeriu que se plastificasse, encapuzasse, encamisasse os suscetíveis a doenças sexualmente transmissíveis, Bráulios de todo o país.
Os imprudentes burocratas da Saúde teriam facilitado as coisas sem traumatizar ou ofender ninguém, tivessem escolhido um nome que não quisesse dizer outra coisa, que não o próprio dito-cujo. Qualquer slogan simpático resolveria:
“Não corra riscos desnecessários! Na hora da transa, plastifique o seu Bilau”.
Não conheço ninguém com esse nome. Bilau da Silva; Bilau Osório; Bilau de Andrade.
Essa de mandar o Lima é uma bossa relativamente nova. Mas existem registrados alguns casos bem antigos.
Dizem que o Lima fez muitos dos exames anti-dopings de Diego Maradona, quando este jogava no Napoli. Aliás, era o Limone quem fazia o xixi no lugar do baixinho.
Aldir Blanc narra em seu livro Rua dos Artistas & Arredores, uma preciosidade, que conto aqui com algumas “adaptações”.
Um rapaz do bairro havia combinado de fazer uma serenata junto à janela de uma moça. Seria uma serenata em que pediria a mão da beldade em casamento, e para a qual já estavam confirmados alguns dos melhores músicos da região.
Os preparativos corriam dentro dos conformes e houve até quem consultasse a folhinha Mariana para ver se seria noite de lua cheia. Afinal, serenata e lua cheia ficam perfeitas juntas.
A uma semana da grande serenata, no entanto, o candidato a noivo classificou-se para as semifinais de um campeonato de sinuca no bairro vizinho. A partir daquele momento criou-se um impasse. E ele teria que tomar uma decisão importante.
Uma decisão que denotasse responsabilidade e bom senso.
Foi assim que ele acabou em terceiro lugar no campeonato, sem fazer feio na serenata.
Um amigo dele – provavelmente de sobrenome Lima – fez um emocionado discurso, declamando versos românticos e pedindo a mão da noiva em nome do ausente, informando que este tivera um “compromisso inadiável”.
Foi muito aplaudido e o pai da moça não só permitiu o namoro, como ainda abriu uma garrafa de uísque, que guardara durante muitos anos para uma ocasião especial.
Se aconteceu, verdadeiramente, eu não sei, mas o certo é que todos estamos sujeitos a levar um bolo. E muitos destes bolos são involuntários. Aconteceu, muito recentemente, comigo.
Kiko Sales descobriu que seria aniversário de César Augusto, amigo querido de ambos. Precisávamos homenageá-lo.
Combinamos com outros amigos comuns de sairmos juntos, e celebrarmos a data magna do jornalista. Só que César e a esposa Luciana estavam de viagem marcada para as Bahamas naquele dia, e não poderia participar. Na ausência deles, remarcamos para a volta.
Quando ligamos novamente para avisar da nova farra, ficamos sabendo que na data escolhida, eles estariam a trabalho em Boston.
Não desanimamos.
Saímos, jantamos, festejamos e ligamos para ele na hora do parabéns, com todos soltando a voz em desafinado uníssono. Até os garçons ajudaram a engrossar o coro ligeiramente alcoolizado.
No dia seguinte, logo pela manhã, encontro no celular uma mensagem do aniversariante:
- Foi minha melhor festa de aniversário de que não participei. Muito obrigado!
Espirituoso, César Augusto não perdeu a piada e nem os amigos. E ainda ganhou, de presente, esta crônica aqui.

*

Thursday, February 11, 2010













o poema


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a explêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio
- a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
e a miséria dos minutos,
e a força sustida das coisas,
e a redonda e livre harmonia do mundo.
- Em baixo, o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

-E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder
O Poema (excerto)