
Um amigo muito antigoMeu bom amigo Jorge Costa é o que eu poderia chamar de sujeito antigo. E vivemos nos pegando por isto.
Nostálgico, como só ele, vive dizendo que os craques do passado são melhores que os do presente.
Que as mulheres dos filmes de antanho são mais "vistosas" - palavra dele - que as estrelas de hoje. E por aí afora...
Jorge Costa tem a idéia fixa de que o ontem é melhor que o hoje.
Acompanhando o seu raciocínio nostalgista, o nosso hoje será sempre melhor que o amanhã. Com o que discordo. Acho pessimista.
Mas o Jorge estufa o peito e faz questão de manter um pé fincado no ontem, o que, convenhamos, tem lá o seu charme.
Para vocês terem uma idéia, a bebida preferida de Jorge Costa é o velho Campari, mas ele gosta ainda de Cuba Libre e uma bebida esdrúxula que ele chama de "Traçado", que é, na verdade, um cachacinha com um dedinho de Vermout Cinzano.
Ao vê-lo pedindo um Traçado no balcão do Ipanema, em Framingham, murmurei para o bartender:
- Jorge Costa é muito antigo.
Ele escutou - tem ouvido de tuberculoso - a prosa e emendou:
- Antigo, não! Entrado na vida!
Não que ele seja contemporâneo de Sobral Pinto, Kafunga, Ulysses Guimarães ou Barbosa Lima Sobrinho. Jorge é um pouco mais recente.
Ele é do tempo dos grupos de Jovens, e não existe nada mais antigo do que um membro de um Grupo de Jovens.
Outra agravante: ele foi presidente de um deles, em sua Conselheiro Pena natal.
Ele é do tempo das palavras cafona e bocomoco.
Em seu vocabulário podem ser encontradas outras raridades como mocorongo e mucureba.
Na concepção de Jorge, as mulheres fofoqueiras são adeptas dos mexericos da Candinha.
Os maridos submissos são "camisolões" e homens de pouco pulso são chamados de "calças frouxas".
As gatinhas de hoje, são os brotos do imaginário masculino de sua geração.
Ele é do tempo dos cigarros Imperador, Beverly e Mistura Fina.
Os carros que Jorge sempre sonhou possuir foram o famoso "dorjão" -uma banheira da dodge, que bebia demais e ocupava dois espaços no estacionamento -, um opulento Galaxy ou um prosaico Gordini, felizmente extintos.
Nos bons tempos, Jorge gostava de usar camisas "Volta ao Mundo", calças de brim e tergal. Nos dias de hoje, acha que Giorgio Armani e Oscar de La Renta são jogadores da segunda divisão italiana.
Quando chovia, era adepto de uma galocha.
Esportivamente tinha um par de Kichute, outro de Conga e um terceiro de Bamba Maioral, dos quais ainda hoje se gaba.
Em ocasiões sociais, não dispensava o seu sapato vulcabrás de cor marrom, feito de borracha e conhecido por provocar bromodrose exagerada, aquilo que comumente chamamos de "chulé". Só quem teve um sapato destes sabe do que estou falando.
Os símbolos sexuais de Jorge até hoje são Marta Rocha, Sophia Loren, Claudia Cardinali e Brigitte Bardot.
Segundo amigos próximos, ele carrega no bolso traseiro de sua calça um espelho oval, que tem no verso uma foto de Emilinha Borba vestindo um maiô.
No outro bolso traz um pente da marca Flamengo e, antes de sair de casa, dá um toque no cabelo de corte "Príncipe Danilo" aplicando uma generosa quantidade de brilhantina Trim.
Jorge é tão antigo quanto a pomada Minâncora, o Biotônico Fontoura ou a logomarca da Maisena, e isto tem rendido acirradas discussões.
Concordo com ele que a poluição industrial tirou o glamour de muita coisa, roubando de nós a beleza azul do céu, por exemplo.
Concordo, também, que o Rio Doce - que ainda hoje corre em nossos corações - já não é tão piscoso como dantes e que as noites presentes já não são tão estreladas quanto às de antanho.
Mas, daí até concordar com ele que Dario Peito de Aço foi um artilheiro melhor e mais perigoso que Ronaldo Fenômeno nos tempos de Barcelona, ah, isto não.
Foto de Sophia Loren, em todo o seu explendor*