Sunday, March 7, 2010


















Como quem escreve
com sentimentos


Estou sujeito ao tempo sou este momento
perguntam-me quem fui e permaneço mudo
o tempo poisa-me nos ombros em relento
partiu no vento essa mulher e perdi tudo

Já não virá ninguém por muito que vier
em vão esperei a rosa da minha roseira
quando um pássaro sai dos olhos da mulher
é porque ela é de longe e não da nossa beira

Resta-me um sonho desconexo e desconforme
Na haste da camélia que o vento quebrou
jamais a vida branca como ela dorme
Eu era essa camélia e nunca mais o sou

A minha vida é hoje um sítio de silêncio
a própria dor se estreme é dor emudecida
que não me traga cá notícias nenhum núncio
porque o silêncio é o sinónimo da vida

O mundo para além dessa mulher sobrava
tudo vida vulgar tumultuária e cega
o brilho do olhar equilibrava a chuva
nas suas costas hoje toda a luz se apaga

Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.
enfim não existia ou só ela existia
Asas que ela tivesse deixou-as queimar
e tê-la-á levado estranha ventania

Daqueles traços fisionómicos de pedra
não quero já ouvir a voz que às vezes vem
na calma destacada por um cão que ladra
Não há ninguém perto de mim sinto-me bem

Cada casa que roço é escura como um poço
se sou alguma coisa sou-o sem saber
sossego solitário sem mistério isso
talvez tivesse sido o que sempre quis ser

As flores vinham nela e era primavera
mas tanto a nomeei e tanto repeti
erros numa estratégia imprópria para ela
tamanho amor expus que cedo a consumi

A noite quando ao fim descer decerto há-de
ser certa solução. Foi há muito a infância
Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede
estendo as mãos talvez te fique a inocência

A vida é uma coisa a que me habituei
adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto
A infância é uma insignificância eu sei
e apenas por a ter perdido a amamos tanto

Estou sozinho e então converso com a noite
das palavras que nos subjugam nos submetem
As coisas passam e em vez delas é aceite
o nosso sistema de signos onde as metem

Esta minha existência assim crepuscular
devida àquela que é rastos destroços restos
acusa hoje alguma intriga consular
de quem não tem cabeça a comandar os gestos

Foi uma rosa rubra a autora desta obra
aberta e arrogante grácil flor do instante
que triunfante não há coisa que não abra
para ferir quem a viu e morrer de repente

E noite sou e sonho e dor e desespero
mero ser sórdido e ardido e encardido
mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero
um arco com vitrais aos vendavais vedado

E embora a minha fome tenha o nome dela
e da água bebida na face passada
não peço nada à vida que a vida era ela
e que sei eu da vida sei menos que nada



Ruy Belo
(27/Fevereiro/1933 - 8/Agosto/1978)

Despeço-me da Terra da Alegria
Todos os Poemas
Assírio & Alvim
2000



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A Música Que Toca Sem Parar
Lamento Árabe (Godofredo Guedes),
na voz de seu filho Beto Guedes (Montes Claros-MG, 13 de Agosto de 1951)

Friday, March 5, 2010

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A Febre Que Só Eu Sinto

Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil. Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Aterei-me ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal-traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.

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Thursday, March 4, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Panorama Ecológico
(Roberto Carlos e Erasmo Carlos)

Voz: Erasmo Carlos


Lá vem a temporada de flores
Trazendo begônias aflitas
Petúnias cansadas
Rosas malditas
Prímulas despetaladas
Margaridas sem miolo
Sempre-vivas quase mortas
E cravinas tortas
Odoratas com defeitos
E homens perfeitos


Lá vem a temporada de pássaros
Trazendo águias rasteiras
Graúnas malvadas
Pombas guerreiras
Canários pelados
Andorinhas de rapina
Sanhaços morgados
E pardais viciados
Curiós desafinados
E homens imaculados


Lá vem a temporada de peixes
Trazendo garoupas suadas
Piranhas dormentes
Sardinhas inchadas
Trutas desiludidas
Tainhas abrutalhadas
Baleias entupidas
E lagostas afogadas
Barracudas deprimentes
E homens inteligentes

Wednesday, March 3, 2010

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2 poemas de
Sophia de Mello Breyner Andresen



Poesia

Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos,
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar, é porque estamos
Nus em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.



Porque



Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.


Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
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Sob a sombra de uma mangueira em flor





Jorge Amado está sentado na varanda de sua casa no céu, olhando na direção do infinito azul à sua frente. Chega o carteiro. Entrega-lhe uma correspondência, que Jorge abre com mãos trêmulas. No afã de ler seu conteúdo, rasga envelope e missiva. Corre para dentro da casa ampla, apanha seus óculos de leitura sobre a escrivaninha e, à medida que os olhos vão percorrendo as linhas, abre-se um sorriso em seu rosto que rejuvenesce:

Salvador, 16 de maio de 2008.

Querido Jorge, de tudo a saudade é a invenção mais triste da qual sou conhecedora, desde o dia em que foi levado de mim, por solicitação dos anjos poetas, para rimar versos de amor no céu. Deixou-me esse céu azul cobalto, que nos dias e noites de dor pela tua ausência, fazia-me sentir um enlaço do tamanho do mar, esse mesmo mar que também me deixou e que ficou a me alimentar a alma dolorida.
De você ficou ainda essa saudade cravada em meu peito, e que eu dizia pro meu coração que tinha o cheiro da maresia, meu inesquecível Capitão de Areia.
Esta saudade, que deixou meu corpo como uma terra sem alma, ressequida, frágil, inflamada em labirintos de desejos e em supostas figuras de tua voz, tuas palavras descritas nos pastores da noite, nas canções melancólicas dos velhos marinheiros, no ABC das primeiras letras cantadas por vozes infantis.
Essa saudade que transborda em cores imagináveis e que até hoje foi a impulsora de minha certeza de te encontrar e me encantar como você sempre fez nas noites em que o Eco perdido pelo teu nome preso em minha garganta reverberava sem rota, sem direção, dentro de um vento forte como a afastar o medo do mais temido pesadelo de não mais te ver.
Parto amanhã.
Sua, sempre
Zélia.

Uma lágrima de alegria resvala o rosto de Jorge. Ele a limpa com as costas da mão. Sente-se feliz.
Abre uma gaveta, apanha caneta e papel, seus dedos deslizam rapidamente e o nanquim azul dá a saber:
Mainha!
Todas as manhãs espero pela sua chegada. Nosso encontro finalmente se avizinha. Esses quase oito anos longe de você foram de ternura e lembranças. Sinto demais a sua falta.
Já que vem da Bahia, queria pedir-lhe que me trouxesse uns grãos da areia de Itapoã. Quem me trouxesse umas gotas de água do Rio Vermelho e me enfrascasse um pouquinho da brisa que sopra do mar em Ondina.
Traga-me a lembrança do gosto de uns acarajés, do aedume dos embus de Vitória da Conquista e o aroma dos cacau de Ilhéus.
Traga-me o som de um berimbau. Traga-me uma água de cheiro e um trancelim, e o frescor que faz debaixo da mangueira de nosso quintal.
Traga-me o cântico das lavadeiras durante a lavagem das escadas do Bonfim. Traga-me um fita do Senhor do Bonfim, já arrebentada, posto que meu desejo maior se realiza amanhã.
Estar com você de novo, mainha, para que continuemos nos cumprindo, é tudo o que esse comunista, ateu, pediu a Deus.
Beijo saudoso desse que é seu.
Jorge.

Ps: Zélia morreu na tarde de sábado (18 de maio), aos 91 anos, em conseqüência de uma parada cardiorrespiratória. Seu corpo foi cremado. As cinzas da escritora serão entregues aos filhos nesta quarta-feira. No mesmo dia as cinzas serão depositadas junto às do marido, Jorge Amado, sob uma mangueira, na casa onde o casal vivia no bairro do Rio Vermelho.
Zélia e Jorge, finalmente, um Destino de amor cumprido a quatro mãos.

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A Música Que Toca Sem Parar
Milton Nascimento e Fito Paez cantam no museu de San Telmo (Buenos Aires), Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazon, de autoria de Fito.

Monday, March 1, 2010

A Música Que Toca Sem Parar

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Olhos Profundos



(Renato Teixeira)


Feito um menino que permite ao coração
Sair correndo sem destino ou direção
Que vire vento e sopre feito um furacão
Que nesse fogo por amor eu ponho a mão
E até permito as cantorias da paixão

O velho barco toda vez que vê o mar
Fica confuso, com vontade de zarpar
E ver o mar às vezes bem que é preciso
Pra ter certeza de ainda estar-se vivo
Mesmo que o casco esteja velho e corroído

Como uma estrada que vai dar não sei aonde
Por meu destino o coração é quem responde
Braços abertos pra se ver a luz do peito
Com grande amor que seja puro amor refeito
Olhos profundos não me olhem desse jeito


A Quem Interessar Possa:

Renato Teixeira de Oliveira (Santos, 20 de maio de 1945) é um compositor e cantor brasileiro.

É autor de conhecidas canções, como Romaria (grande sucesso na gravação de Elis Regina), Tocando em frente (em parceria com Almir Sater, gravada também por Maria Bethânia), Dadá Maria (em dueto com Gal Costa) e Frete (tema de abertura do seriado Carga Pesada, da Rede Globo, além de Amanheceu, entre outros.

Em 1990, apresentou o programa Tom Brasileiro na Rede Record, onde além de cantar, apresentava artistas que valorizavam a música nacional.

Recentemente, Renato Teixeira compôs a música Rapaz caipira, como crítica à atual música sertaneja de consumo, fazendo renascer a expressão música caipira. É um defensor aberto da música de raiz, caipira, que ainda sobrevive apesar dos desvios da música sertaneja.

Fonte: Wikipédia
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Um céu e nada mais

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.



Ana Luísa Amaral