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Cansaço JobinianoHá cerca de dois anos, mais ou menos, recebi o telefonema de um amigo que, cansado das coisas por aqui, resolvera retornar ao Brasil.
Emocionado, balbuciou que tinha saudade do velho e bom samba dos morros cariocas, do futebol domingueiro no Maracanã, da cervejota gelada no quiosque da praia, e de mais um monte de outras coisas, que lhe faziam demasiada falta.
Estava farto do estresse da vida na região metropolitana de Nova York, e não suportava mais a hipervelocidade, a poluição, a falta de gentileza das pessoas. Além do mais, alegava a ausência de uma centena de fatores que, aparentemente banais, seriam essenciais para a sua felicidade. Ao final, fez uma citação:
Tom Jobim dizia que o Brasil é uma ruim, mas é bom. E que os Estados Unidos é bom, mas é ruim.
E lá se foi. Sumiu o moço.
Ontem, para minha surpresa, um e-mail volumoso repousava em minha caixa de mensagens.
No espaço onde estipulava o assunto da correspondência, lia-se “cansaço jobiniano”.
E a mensagem era mais ou menos esta:
Estou voltando. Cansei de beber cafezinho em copo lagoínha.
Cansei dos mosquitos voando dentro das vitrines de doces e bolos das padarias. E cansei-me de muito mais.
Cansei-me do gás vendido em botijão.
E de policiais despreparados e truculentos pelas ruas do Rio.
Cansei-me do medo da violência urbana, que transforma cada sinal de trânsito, numa extensão tapuia da Faixa de Gaza.
Aliás, morre-se mais por aqui, do que naquelas desérticas paisagens.
Cansei-me das balas perdidas.
Balas de grosso calibre, meninos cheirados de cola, sequestradores de meia-pataca, bandidos do colarinho branco, ladrões de banco ou de galinha...
Por aqui, mata-se por um par de tênis. Mata-se após receber o resgate. Ou, por qualquer ninharia.
Assassina-se na saída do Maracanã, na porta da fábrica ou da igreja.
Morre-se jovem e inocente no refeitório de uma universidade, durante o recreio.
Morre-se dormindo, varado por uma bala perdida, na não-mais fortaleza do lar.
Cansei-me do medo de toda uma cidade. Medo do meu vizinho.
Cansei-me do meu próprio medo.
Cansei-me de Galvão Bueno, o chato mais bem remunerado do mundo. É ele quem nos deveria pagar.
A poluição sonora de Nova York é nada, comparada às bobagens deste narrador.
Cansei-me de Fausto Silva, o Faustão. Este deve achar que meu ouvido é paiol.
Ou, penico.
Dizer que artistas como Leonardo, Chitãozinho e Xororó, Zezé di Camargo são “monstros sagrados”, é muito mais que uma apelação.
Mais do que isto, é a confissão de um homem que vendeu sua alma ao diabo.
Cansei-me de suas duplas sertanejas.
Cansei-me de pagodeiros oxigenados.
Cansei-me de poposudas sem o menor talento, fazendo fama e fortuna à custa da ignorância popular.
Cansei-me daquelas bundas. E não importo se me chamarem de covarde, de bundão...
Cansei-me de Ratinho, Gugu, e destes sub-produtos que nos enfiam goela abaixo, através do aparelho de televisão.
E ainda tem o Big Brother Brasil.
Cansei-me do Movimento Sem Terra e de seus “invasores” profissionais.
O Brasil é hoje um país de Sem-Terra, Sem-Teto e Sem-Moral.
Na outra mão, é o paraíso dos Com-Teta.
Mesmo tendo roubado milhões dos pobres do Brasil, Lalau saiu da cadeia e cumpre pena em sua mansão no Morumbi. Maluf desviou bilhões, e continua em liberdade.
Sabe-se tudo de Fernandinho Beira-Mar, mas ninguém se lembra mais de quem foi Darcy Ribeiro, ou Orlando Villas-Boas.
Isto cansa!
Cansei-me de ver que as famílias de ACM e José Sarney continuam dando as cartas.
E que no país ainda se confunde imunidade, com impunidade parlamentar.
Cansei-me dos Pitboys das boates.
E de futebolistas Bad Boys.
Cansei-me de ver milhares de pessoas na fila do sub-emprego, pessoas que deveriam estar cumprindo funções qualificadas, aguardando uma vaga de gari aqui na prefeitura do Rio de Janeiro.
Companheiro, resta-me agora, desolado e com o rabo entre as pernas, inverter aquela citação do mestre Tom Jobim:
O Brasil é bom, mas é ruim. Aí é ruim, mas é bom.
A gente se vê na semana que vem!
A Música Que Toca Sem Parar:
Tim Maia e Os Cariocas, Samba do Avião, letra e música de Antônio Carlos Brasileiro Jobim.