
Amara, embaixadora do Brasil
Leio com espanto em meu próprio jornal a situação de Amara Guimarães, doente e abandonada num hospital de Nova York. Terei que visitá-la urgentemente.
Se existe uma pessoa que jamais mereceria estar em situação semelhante, essa pessoa é Amara Guimarães.
Ela não merece a frieza de uma cama de hospital.
Ela não merece a solidão.
Amara Guimarães, que é um dos melhores astrais que conheci nesta vida.
Tem uma alma florida, esta mulher.
Uma alma com o matiz das plumas das araras vermelhas e azuis de sua terra.
Alma azul-turquesa do mar de Olinda.
Alma doce do melado dos canaviais.
Alma airosa da brisa do entardecer em sua Recife.
Alma com o frescor da sombra dos coqueiros balançando ao vento.
Alma com o burburinho do Capibaribe e do Beberibe, sangue de suas veias.
Alma de tapioca, de frevo e de maracatu.
Amara Guimarães, tudo de bom.
Brasileira, brasileiríssima, há muito que veio para a América.
Quando?
Só ela sabe.
Eu costumava brincar, dizendo que ela fora cozinheira num dos navios da armada de Cristóvão Colombo.
E ela ria, divertida, como sempre.
Acho que, na vida, ela só conheceu o riso. Ou tenha chorado pouco.
Por isto semeou tanta alegria e bondade por aí.
Amara, maravilhosa pessoa.
Fecho os olhos e posso vê-la, momentaneamente, flanando serena numa paisagem bonita que existe em algum lugar de minha memória, talvez lá em sua terra natal.
Há muito que não a vejo em pessoa, materializada, carne e osso diante de mim.
Meses?
Talvez mais de um ano. Nós que nos víamos com frequência.
E, sempre que nos víamos, era muito bom.
Cobria-me de abraços e beijos e perguntava se eu já estava ‘aprendendo a escrever’ em português.
Grande figura!
Atarracadinha e divertida, aquela nordestina aguerrida que fez e faz história por aqui é uma braçada de alecrim.
Sempre enfiada numa camisa do Flamengo, ou da seleção brasileira - duas de suas grandes paixões -, é uma espécie de embaixadora itinerante do Brasil neste país.
Uma embaixadora sem embaixada, embora seu apartamento no Greenwich Village já tenha acolhido centenas de brasileiros sem um teto ou o que comer.
Amara é assim, meio madre Teresa, meio Carmem Miranda.
Meio Sérgio Mendes, meio Gisele Bundchen.
Meio Zé Carioca, meio Pelé.
Pelé, aliás, de quem ganhou a amizade.
E é costume do Rei parar para lhe dar atenção e mimos, sempre que eles se reencontram, herança ainda dos tempos do New York Cosmos.
Pouca gente divulgou tanto o Brasil e suas coisas como Amara.
Por onde ela andou e anda, aí caminhou e caminha, um pedaço bonito do Brasil.
E é por estas e outras que acho que o governo brasileiro deveria não apenas ampará-la e socorrê-la neste momento de grande necessidade - através do consulado -, mas também lhe prestando uma merecida homenagem em vida.
Sei que isto lhe faria muito feliz.
O amor dela pelo Brasil é tão grande, que muitas vezes vi-a trocar os pés pelas mãos, chegando mesmo a cometer gafes engraçadas.
Lembro-me de um episódio em que saímos do Sob’s (bar novaiorquino) com um grupo de amigos, e começamos a perambular pelo Village, buscando um bar para tomar a saideira.
Fomos parar em um especializado em música country, na Thompson Street.
Mesas e cadeiras rústicas, o chão coberto de serragem, chapéus e botas de couro e pedaços de uma diligência pendurados na parede, e um cantor desfiando canções de Willie Nelson, Dolly Parton e Hank Williams Jr.
Num dado momento do final da noitada, o cantor diz-se aberto a sugestões da platéia.
Amara atravessou o salão, foi até ele e cochichou algo ao seu ouvido.
O cantor abriu os braços, franziu a testa e acenou a cabeça negativamente.
Nossa heroína virou-lhe as costas com cara de braba, saiu pisando alto, fez-nos pagar a conta e obrigou que deixássemos aquele recinto “i-me-di-a-ta-men-te!”
Lá fora, explicou-se:
- Não dá pra fica num lugar em que o cantor nunca ouviu falar de Tom Jobim e da Garota de Ipanema.
A Música Que Toca Sem Parar:
Cazuza, dele e de Leoni, Manhatã
Cheguei aqui num pé de vento
Já tenho carro e apartamento
Sou brasileiro mandigueiro
Tô aqui pelo dinheiro
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus
Agora eu vivo no dentista
Como um bom capitalista
Só tenho visto de turista
Mas sou tratado como artista
E até garçon me chama de sir
Oh! Baby, baby, só vendo pra crer
Eu andando pela neve
Em pleno Central Park
Com as estrelas do cinema
Faço cenas no metrô
Com meus tênis All Star
Deixando as louras loucas
Com meu latin style
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã
E quando a saudade aumenta
Descolo um feijão com pimenta
E um Hollywood no chinês
Lá na Rua 46
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus
Eu fumando um baseado
Em frente a um policial
Aqui tudo é tão liberal
Vou xingando em português
Depois, gasto o meu inglês
Deixando as louras loucas
Com meu baticulelê
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã





