Thursday, May 13, 2010


















Amara, embaixadora do Brasil


Leio com espanto em meu próprio jornal a situação de Amara Guimarães, doente e abandonada num hospital de Nova York. Terei que visitá-la urgentemente.
Se existe uma pessoa que jamais mereceria estar em situação semelhante, essa pessoa é Amara Guimarães.
Ela não merece a frieza de uma cama de hospital.
Ela não merece a solidão.
Amara Guimarães, que é um dos melhores astrais que conheci nesta vida.
Tem uma alma florida, esta mulher.
Uma alma com o matiz das plumas das araras vermelhas e azuis de sua terra.
Alma azul-turquesa do mar de Olinda.
Alma doce do melado dos canaviais.
Alma airosa da brisa do entardecer em sua Recife.
Alma com o frescor da sombra dos coqueiros balançando ao vento.
Alma com o burburinho do Capibaribe e do Beberibe, sangue de suas veias.
Alma de tapioca, de frevo e de maracatu.
Amara Guimarães, tudo de bom.
Brasileira, brasileiríssima, há muito que veio para a América.
Quando?
Só ela sabe.
Eu costumava brincar, dizendo que ela fora cozinheira num dos navios da armada de Cristóvão Colombo.
E ela ria, divertida, como sempre.
Acho que, na vida, ela só conheceu o riso. Ou tenha chorado pouco.
Por isto semeou tanta alegria e bondade por aí.
Amara, maravilhosa pessoa.
Fecho os olhos e posso vê-la, momentaneamente, flanando serena numa paisagem bonita que existe em algum lugar de minha memória, talvez lá em sua terra natal.
Há muito que não a vejo em pessoa, materializada, carne e osso diante de mim.
Meses?
Talvez mais de um ano. Nós que nos víamos com frequência.
E, sempre que nos víamos, era muito bom.
Cobria-me de abraços e beijos e perguntava se eu já estava ‘aprendendo a escrever’ em português.
Grande figura!
Atarracadinha e divertida, aquela nordestina aguerrida que fez e faz história por aqui é uma braçada de alecrim.
Sempre enfiada numa camisa do Flamengo, ou da seleção brasileira - duas de suas grandes paixões -, é uma espécie de embaixadora itinerante do Brasil neste país.
Uma embaixadora sem embaixada, embora seu apartamento no Greenwich Village já tenha acolhido centenas de brasileiros sem um teto ou o que comer.
Amara é assim, meio madre Teresa, meio Carmem Miranda.
Meio Sérgio Mendes, meio Gisele Bundchen.
Meio Zé Carioca, meio Pelé.
Pelé, aliás, de quem ganhou a amizade.
E é costume do Rei parar para lhe dar atenção e mimos, sempre que eles se reencontram, herança ainda dos tempos do New York Cosmos.
Pouca gente divulgou tanto o Brasil e suas coisas como Amara.
Por onde ela andou e anda, aí caminhou e caminha, um pedaço bonito do Brasil.
E é por estas e outras que acho que o governo brasileiro deveria não apenas ampará-la e socorrê-la neste momento de grande necessidade - através do consulado -, mas também lhe prestando uma merecida homenagem em vida.
Sei que isto lhe faria muito feliz.
O amor dela pelo Brasil é tão grande, que muitas vezes vi-a trocar os pés pelas mãos, chegando mesmo a cometer gafes engraçadas.
Lembro-me de um episódio em que saímos do Sob’s (bar novaiorquino) com um grupo de amigos, e começamos a perambular pelo Village, buscando um bar para tomar a saideira.
Fomos parar em um especializado em música country, na Thompson Street.
Mesas e cadeiras rústicas, o chão coberto de serragem, chapéus e botas de couro e pedaços de uma diligência pendurados na parede, e um cantor desfiando canções de Willie Nelson, Dolly Parton e Hank Williams Jr.
Num dado momento do final da noitada, o cantor diz-se aberto a sugestões da platéia.
Amara atravessou o salão, foi até ele e cochichou algo ao seu ouvido.
O cantor abriu os braços, franziu a testa e acenou a cabeça negativamente.
Nossa heroína virou-lhe as costas com cara de braba, saiu pisando alto, fez-nos pagar a conta e obrigou que deixássemos aquele recinto “i-me-di-a-ta-men-te!”
Lá fora, explicou-se:
- Não dá pra fica num lugar em que o cantor nunca ouviu falar de Tom Jobim e da Garota de Ipanema.


A Música Que Toca Sem Parar:
Cazuza, dele e de Leoni, Manhatã


Cheguei aqui num pé de vento
Já tenho carro e apartamento
Sou brasileiro mandigueiro
Tô aqui pelo dinheiro
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Agora eu vivo no dentista
Como um bom capitalista
Só tenho visto de turista
Mas sou tratado como artista
E até garçon me chama de sir
Oh! Baby, baby, só vendo pra crer

Eu andando pela neve
Em pleno Central Park
Com as estrelas do cinema
Faço cenas no metrô
Com meus tênis All Star
Deixando as louras loucas
Com meu latin style
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã

E quando a saudade aumenta
Descolo um feijão com pimenta
E um Hollywood no chinês
Lá na Rua 46
Virei chicano, índio americano
Blusão de couro, os States são meus

Eu fumando um baseado
Em frente a um policial
Aqui tudo é tão liberal
Vou xingando em português
Depois, gasto o meu inglês
Deixando as louras loucas
Com meu baticulelê
Não sou mais paraíba
Sou South American
Aqui em Manhatã
Aqui em Manhatã

Tuesday, May 11, 2010

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"A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;


a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;


a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas."


Nuno Júdice, in 'Teoria Geral do Sentimento"


A Música Que Toca Sem parar:
Ney Matogrosso interpreta Mal Necessário, bela canção de Mauro Kwitko.

Sou um homem, sou um bicho, sou uma mulher
Sou a mesa e as cadeiras deste cabaré
Sou o seu amor profundo, sou o seu lugar no mundo
Sou a febre que lhe queima mas você não deixa
Sou a sua voz que grita mas você não aceita
O ouvido que lhe escuta quando as vozes se ocultam
Nos bares, nas camas, nos lares, na lama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo, mas nem sempre atento
O que nunca lhe fez falta, o que lhe atormenta e mata
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Oferece a outra face, mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na cama.
Sou o novo, sou o antigo, sou o que não tem tempo
O que sempre esteve vivo
Sou o certo, sou o errado, sou o que divide
O que não tem duas partes, na verdade existe
Mas não esquece o que lhe fazem
Nos bares, na lama, nos lares, na lama
Na lama, na cama, na cama

Sunday, May 9, 2010

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Destino de ribeirão

Começou perfeito o dia. Céu azul, sol brilhante refrescado pela brisa da manhã nas montanhas mineiras.
E o avião da Total faz o percurso BH-Governador Valadares com suavidade.
Voa baixinho e eu posso ver, lá embaixo, o Rio Doce rasgando a terra, deslizando em direção ao seu destino.

E o meu destino? – penso eu.
- Terei eu o destino invertido de um rio?

A viagem marca o meu retorno à cidade que me viu crescer, e um turbilhão de pensamentos de todas as espécies se misturam em mim.
Lembranças de infância, incertezas infanto-juvenis, espinhas, cheiros, dores, sabores, arrepios, imagens, tudo muito embolado.
O rosto colado no plástico transparente da janela da aeronave, a tudo pressente.
Nele, vejo refletida uma metade da minha face, e consigo decifrar abundantes mechas de cabelos brancos brotando das têmporas.
Passaram-se 44 anos, desde que coloquei meus pés em Valadares pela primeira vez; 23 desde que saí da rodoviária para perseguir um sonho e não sei exatamente quantos outros, desde que pisei lá pela derradeira vez.
E, nesse momento, estou retornando à cidade para receber o título de Cidadão Valadarense, gesto generoso da Câmara Municipal para com este escriba de rasa estirpe.
Sinto-me animado e feliz.
A aeromoça oferece um refresco, peço um uísque.
Ganho um sorriso cúmplice e um generoso copo de Johnny Walker Red e duas pedras de gelo.
São 9:30 da manhã.
Da janela vejo fumaça saindo de uma chaminé numa casa de fazenda e pequenas nuvens gentis. Fecho os olhos e vejo um menino correndo atrás de uma bola de futebol.
É meio estranho, o menino.
Odeia matemática.
Aprecia os livros de literatura e as aulas de geografia e história.
Sobe e desce o morro do cemitério, banha-se nas águas do rio, pesca lambaris, rouba mangas, sobe no coqueiro, corre de camisa aberta – vela ao vento -, tem dor-de-garganta e delira de febre, o menino.
Joga bola com seus amiguinhos Meyer, Julinho, Mita, Gagau, Ney, Marquinhos, Beto Porquinho, Klinger, Ferreirinha, Balinha, Jerfinho...
O menino vê o E. C. Ibituruna jogar.
Vibra com os gols de Janjão e com as defesas do goleiro Nêga.
Ele come pastel de vento no ponto final da rodoviária, anda no último assento do ônibus da Viação Novo Cruzeiro, assiste às missas do padre João, mata passarinho com estilingue e tem medo de ir paro o inferno.
O menino vira rapaz num piscar de olhos, anda pelas ruas seguindo o perfume das moças e os acordes do violão nas serestas.
Era um tempo de serestas, sorrisos e festas e muita, mas muita, incerteza.
Na plataforma número oito da rodoviária o rapaz apanhou um ônibus para a capital.
De lá embarcaria para Nova York, no dia 8 de abril de 1984.
E tudo o que se passou a seguir - quase 24 anos - se resume nesse frio na barriga, neste arrepio, que percorre o corpo inteiro no exato momento em que o avião da Total faz manobra em frente ao pico do Ibituruna, nessa manhã mais que perfeita.

Desço do avião e (juro!) piso num tapete vermelho.
Eu sei que à frente, logo após cruzar o portão que leva ao saguão do aeroporto, estaremos nos reencontrando, nascente e ribeirão.


* Ilustrando a crônica, foto do Pico do Ibituruna, o Rio Doce aos seus pés.


A Música Que Toca Sem Parar:
de e na voz de Zé Geraldo, Rio Doce.
Zé Geraldo e eu, histórias tão parecidas e tão distintas, irmanados na vida, cidadãos adotados numa mesma noite.
A música, cuja letra posto aqui, foi feita em homenagem a Governador Valadares, cidade que nos adotou.
E foi finalista do Festival MPB 80, da Rede Globo, o último grande festival de canção popular em terras brasileiras.


Rio Doce

Deposito em suas águas meu grande segredo
Parto pra cruzar fronteiras, engrossar fileiras

Compor meu enredo
Deixo suas margens ricas sob a sombra lírica da Ibituruna
Una, pobre sabiá que perdeu seu canto de frases ligeiras

Por ver se apagar a ilusão ardente
Tão inconseqüente da paixão primeira

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Oh! Meu Rio Doce, doce são os seios da morena flor
Cor do seu Ipê
Que vive sob as gameleiras, pés de jenipapo

Junto de você
Leva essa morena no seu leito manso
Faz o seu remanso se vestir de azul
Que eu tô levando a minha mocidade

Pras velhas cidades e praias do sul
Tô levando a minha mocidade pras velhas cidades
E praias do su..ul

Que eu tô levando a minha mocidade
Pras velhas cidades e praias do sul

Friday, May 7, 2010

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Três Poemas de Daniel Faria


Poderia ter escrito a tremer de respirares tão longe
Ter escrito com o sangue.
Também poderia ter escrito as visões
Se os olhos divididos em partes não sobrassem
No vazio de ceguez
E luz.
Poderia ter escrito o que sei
Do futuro e de ti
E de ter visto o deserto
O silêncio, o fogo e o dilúvio.
De dormir cheio de sede e poderia
Escrever
O interior do repouso
E ser faúlha onde a morte vive
E a vida rompe.
E poderia ter escrito o meu nome no teu nome
Porque me alimento da tua boca
E na palavra me sustento em ti."


§


Procuro o trânsito de um homem que repousa em ti
Como se desvia um homem do seu coração para seguir viagem
Como deixa ficar tudo e acrescenta à sua herança

Procuro conhecer os símbolos, os marcos miliares
Diurnos, como se lêem
Sinais de fumo e o ângulo dos pombos – e todas as coisas
Que nos chegam da distância

Procuro saber como se fecham os pés dentro dos teus
Percursos
Como se põe descalço um homem que necessita
De atravessar-se
E desejo outra vez desdobrada a tua palavra cheia
De estrelas

Para que as recorte, para que as ponha no silêncio
Vivas
Na minha boca e nas minhas mãos
Em chamas


§


Ando um pouco acima do chão
Nesse lugar onde costumam ser atingidos
Os pássaros
Um pouco acima dos pássaros
No lugar onde costumam inclinar-se
Para o voo

Tenho medo do peso morto
Porque é um ninho desfeito

Estou ligeiramente acima do que morre
Nessa encosta onde a palavra é como pão
Um pouco na palma da mão que divide
E não separo como o silêncio em meio do que escrevo

Ando ligeiro acima do que digo
E verto o sangue para dentro das palavras
Ando um pouco acima da transfusão do poema

Ando humildemente nos arredores do verbo
Passageiro num degrau invisível sobre a terra
Nesse lugar das árvores com fruto e das árvores
No meio de incêndios
Estou um pouco no interior do que arde
Apagando-me devagar e tendo sede
Porque ando acima da força a saciar quem vive
E esmago o coração para o que desce sobre mim

E bebe



O poeta Português (Baltar, 1971) Daniel Faria morreu após um acidente doméstico no mosteiro de Singeverga(nas cercanas da cidade do Porto), onde era noviço, em 1999.
Tinha apenas 28 anos de idade.
É considerado por muitos o maior poeta português de todos os tempos.


A Música Que Toca Sem Parar:
Zé Miguel Wisnik canta, Tempo Sem Tempo, de sua autoria

vê se encontra um tempo
pra me encontrar sem contratempo
por algum tempo
o tempo dá voltas e curvas
o tempo tem revoltas absurdas
ele é e não é ao mesmo tempo
avenida das flores
e a ferida das dores
e só então
de sopetão
entro e me adentro no tempo e no vento
e abarco e embarco no barco de Ísis e Osíris
sou como a flecha do arco do arco-íris
que despedaça as flores mais coloridas em mil fragmentos
que passa e de graça distribui amores de cristais totais sexuais celestiais
das feridas das queridas despedidas
de quem sentiu todos os momentos

Wednesday, May 5, 2010

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Essas Mães Interioranas


Para minha mãe, Rute
Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe.
E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães.
Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.
Dona Marocas, dona Ercília, dona Dozinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas.
Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo, lugar onde me criei.
Dona Cilinha cantava no coro da igreja.
Dona Marocas - mãe das moças mais bonitas - era sábia, dava conselhos, e não carregava nenhuma tristeza no olhar.
Dona Ercília ajudava os pobres.
Dona Dozinha estava sempre de mau humor.
Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.
Dona Lola freqüentava uma igreja de crentes.
Dona Niquinha cuidava do jardim.
Dona Vilma plantava hortaliças.
Dona Esmeralda chorava às escondidas.
Dona Filhinha mentia compulsivamente.
Dona Socorro fazia biscoitos.
Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.
Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.
Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.
Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.
Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital.
Quando ela andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar.
Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.
Dona Ana era calada.
Dona Angélica alfabetizava meninos.
Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão scânia vabis.
Dona Rita organizava a novena.
Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor.
Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.
Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.
Dona Lourdes era viúva.
Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.
Dona Cássia foi abandonada pelo esposo.
Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.
Dona Selma lavava roupas para fora.
Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.
Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.
Dona Teresa dançava catira.
Dona Ivonete sabia bordar.
Suas filhas eram costureiras.
Seu marido, alfaiate.
Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.
Maravilhosas, aquelas mulheres.
Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?
Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa.
Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas.
E, como tal, merecem que todo filho lhes construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e ponteada de oferendas feitas da mais profunda gratidão.
Tenhamos, ainda que momentaneamente, poderes papais.
Santificadas sejam, portanto, as nossas mães.
Santifiquemos.
Santificai.




Foto:
Mães da Praça de Maio, em Buenos Aires, exigindo informação sobre seus filhos seqüestrados pela ditadura militar que governou o país entre 1976 e 1983.

A Música Que Toca Sem Parar:
Gal Costa canta Mãe, da lavra de Caetano Veloso


Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tem amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
e nunca chego a ti

Tuesday, May 4, 2010

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Os amigos


Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura


Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis


Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor"


O autor destes versos é José Tolentino Mendonça (Machico, ilha da Madeira, 15 de Dezembro de 1965), um Padre, Teólogo e poeta português.

A Música Que Toca Sem Parar:
Renato Braz (que aparece na foto), cantando de Zeca Baleiro, Bambayuque.

Monday, May 3, 2010

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Só mia quando eu respiro

Não consigo curar uma bronquite que me persegue há aproximadamente oito anos. Ela vem e vai, geralmente nos meses de maio e outubro e retorna, todo janeiro, esquecendo-se de que costumo estar de férias neste período, comprometendo o que deveria ser apenas total descompromisso e ameno desfrutar.
Este ano a bendita parece ter vindo pra ficar. Veio mais robusta, mais chata, mais inconveniente!
Chegou antes, no final de setembro, e me transformou numa companhia, no mínimo, incômoda.
Tenho tossido os brônquios, os bofes, e um pedaço da alma também.
Já troquei de atitude, de medicamento, de médico, mas há mais de dois meses me arrasto por aí. E isto tudo, sem falar do “gato” preso dentro do peito, felino invisível que produz um desagradável “miado”.
Mas ele só mia, quando eu respiro...
No último final de semana, a bronquite fez pacto com uma gripe e juntas me nocautearam. Dois contra um é covardia.
Foi uma gripe daquelas que desmontam o vivente.
Cama, febre, muita tosse e a incontida vontade de voltar à infância, buscando refúgio no colo da mãe.
Poucas coisas combinam tanto quanto gripe e colo de mãe. E canja de galinha. E um animal de estimação por perto, que pode ser um cãozinho vira-lata, daqueles que se deitam ao pé da cama e lambem a mão da gente.
Quando eu era menino, confesso, gostava de ficar dodói.
Ganhava mimos, cafunés e a atenção absoluta de Dona Rute.
- Este menino não está comendo direito.
- Chega a estar com olheiras, coitadinho.
E lá vinha o termômetro, o chá de laranjeira, a canja, os bolinhos de chuva, os abraços mornos e tudo de bom. Tem hora que dá vontade de entrar no túnel tempo e parar ali naquele ponto da infância, bem antes do primeiro cigarro.
Falando em primeiro cigarro, fumei a vida inteira. Parei faz pouquinho.
Comecei menino ainda, com cigarros feitos de papel, partindo depois para o Continental sem filtro, conhecido mata-rato daqueles felizes idos. Quando comecei a ganhar um dinheirinho, aderi ao Hollywood, cuja propaganda mostrava carros velozes, barcos esportivos e muita gente bonita. “Ao sucesso”, dizia o reclame na televisão.
Nestes dias do politicamente correto, devem ter mudado o anúncio para algo do tipo:
Hollywood: à bronquite!
À enfisema!
Ou, ao câncer.
É que, nos últimos tempos, o Ministério da Saúde do Brasil obrigou a indústria do tabaco a publicar em seus maços os perigos e conseqüências que o fumo traz.
E, como se não bastasse anunciar que o Ministério da Saúde Adverte que Fumar é prejudicial à Saúde, resolveram estampar fotografias absolutamente chocantes, de pessoas esquálidas no leito da morte, bocas irrecuperavelmente estragadas, e muito mais.
E o Ministério da Saúde Adverte ainda que fumar causa câncer no pulmão; Fumar causa mau hálito, perda dos dentes e câncer de boca; Fumar causa impotência sexual; Crianças que convivem com fumantes têm mais asma, pneumonia, sinusite e alergia; Nicotina é droga e causa dependência; Quem fuma não tem fôlego para nada; Fumar na gravidez prejudica o bebê; Fumar causa infarto do coração. E muito mais.
Em minha última ida ao Brasil, vi um sujeito, que perde os pulmões mas não perde a piada, devolvendo ao garçon o maço de cigarros, ao ver que nele havia a advertência de que fumar causa impotência sexual.
- Pode trocar por um que dá câncer, que não tem problema.
E o garçon foi lá e trocou.
***
A Música Que Toca Sem Parar:
Oração ao Tempo, de Caetano Veloso, na voz maranhense de Rita Ribeiro.