Friday, May 21, 2010

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procuro-te no meio dos papéis escritos
atirados para o fundo do armário de vidrinhos
comias uvas no meio da página

a seguir era como se fosse noite
havia olhares que se cruzavam corpos
deambulações pela praia
era noite e alguém se aproximava

eu estava passeando os dedos
pelas nódoas frescas do vinho sobre a mesa o caderno
onde de quando em quando rabiscava um rosto
e listas de nomes que não queria esquecer

paguei o pão o vinho o queijo
levantei-me
tu cortaste-me a fuga vagarosamente preparada
pediste-me um cigarro

na outra página estávamos rindo
estendidos no pobre embarcadouro de madeira
planeávamos atravessar a noite mágica do rio

a página seguinte está em branco
mas lembro-me que te agarrei a mão e disse
todos os cigarros do mundo são para ti


(al berto)


A Música Que Toca Sem Parar:
o ator português Joaquim de Almeida (o Sherlock Holmes do filme baseado no livro O Xangô de Baker Street, de Jô Soares) escreveu este poema e o entregou ao seu compatriota Luiz Represas, um de meus cantores favoritos.
E desta parceria saiu a canção Enquanto Vivos, registrada aqui numa gravação ao vivo, durante espetáculo no centro Cultural de Belém.


Enquanto Vivos

(Joaquim De Almeida e Luís Represas)

Enquanto mortos e vivos
Enquanto
Enquanto vivos ou mortos
Nós somos
Os vivos que querem viver
Por enquanto
Temos os mortos que não tiveram tanto

Enquanto vivos
E vivos assim
Sentimos vozes
Por ti e por mim
Que a noite e o dia
Não cabem no sermos
De sermos o mesmo
De todos os dias

Enquanto caem palavras
Do cimo de torres
Gemidos do fundo de heróis
Vão calando a noite

Crianças de uniforme grande
Limparam o mundo de risos
Deixando espalhados nos cantos
Bocados de paz

Enquanto todos os dias
Nos vendem
O sofrimento de longe
Tão perto
Vão consumindo o azul
E as cores da terra
Sabendo nós que a paz
Não é só o contrário da guerra

Enquanto vivos
E enquanto formos
Grita a vontade
De deixarmos vivos
Os cheiros e as imagens
Que sentimos
E não só lemѢranças
Deixadas em arquivo

Enquanto morrem as arvores
O verde
Torna-se terra de corpos
De guerras.
Queremos tambores e guitarras
Voando nas ruas
Com a alegria da vida
Que não devia ter fim

Thursday, May 20, 2010

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Planejamento de férias


Estou indo de férias ao Brasil.
O tempo é curto, mas preciso correr trecho.
Se der, quero ir de uma ponta à outra em poucos dias e terei pouca ajuda.
Vou de carro, na asa de um passarinho, no lombo de um cavalo, vou até a pé, se preciso for. Mas eu vou.
Quero ir a São Paulo comer um pastel de feira, daqueles bem quentes e que, à primeira mordida, secam o topete da gente com o seu vapor.
Para acompanhar, um caldo de cana de cor duvidosa, quase uma água que acabou de lavar um pé sujo na poeira do estradão.
Em Sampa, ainda, passarei pelo Museu de Arte Moderna para ver um único trabalho: O Mulato.
Ficarei petrificado – me babando inteiro -, à frente de um dos quadros mais lindos que alguém um dia pintou.
Adoro Portinari.
De lá vou ao Rio de Janeiro.
Quero ver as moças bonitas – quase sereias - se refestelando nas areias da praia.
Sob o sol escaldante chuparei um picolé de limão, daqueles que refrescam até a alma do freguês.
Picolé de limão é mais gostoso no calor carioca.
Quando escorrer a tarde, vou fazer uma via-sacra pela Lapa.
Com um pouquinho de sorte, poderei conferir o violonista Yamandu Costa dando uma canja de final de noite num palquinho de um bar qualquer.
Numa viela do Pelourinho, em Salvador, ficarei observando uma baiana típica vendendo acarajé em seu tabuleiro.
Participarei, batendo palmas, de uma legítima roda de capoeira no Farol da Barra.
Tomarei banho em Itapoã.
Sentarei o corpo cansado nas escadarias da igreja do Bonfim, e de lá zarparei até Olinda.
Revigorado pela brisa de Olinda, subirei e descerei ladeiras vendo o verde do mar.
Em Recife reencontrarei amigos queridos e darei um cachê a dois violeiros que se destroem num furioso repente.
Após a peleja do diabo com o dono do céu, sentaremos, os três, para uma cerveja e mais prosa.
Irei dormir em Natal, após umas caipiróscas no Chaplin.
Mas irei amanhecer em Maceió, molhando meus pés nas águas da Pajuçara.
No mercado do Ver o Peso, em Belém, ficarei maravilhado com os frutos da Amazônia.
Peixes, frutas legumes, gente se esbarrando nos corredores, cheiros, matizes, texturas, tudo se misturando.
Tirarei uma fotografia na frente do teatro Nacional, em Manaus, lugar que sempre quis conhecer.
Deslizarei de canoa entre os igarapés de uma cidade pequena das cercanias da capital, e pescarei um peixe grande, daqueles que não cabem na fotografia, mas que realçam a mentira do pescador.
Adormecerei numa rede em Fortaleza, olhando a lua de uma varanda na praia do Futuro. Mas acordarei cedinho, com a volta dos jangadeiros do mar.
À Santa Catarina vou pra beber.
E pra comer marreco recheado.
Vou pra Blumenau, cidade de gente bonita – Vera Fisher nasceu lá - e acolhedora. Pernoitarei numa pousada de Serra e acordarei com o cantar dos galos.
Em Curitiba farei uma saudável caminhada no Parque Birigui.
De lá vou ao bairro do Pilarzinho, onde quero ser fotografado à frente da casa onde viveu Paulo Leminski, um de meus poetas favoritos.
Quero chegar a Cuiabá no meio da tarde.
Mas antes da chuva.
De lá esticarei até Campo Grande, onde apanharei um jipe que me levará a um pedaço do pantanal.
Presentearei meus olhos com as cores mais bonitas da fauna e da flora do Brasil.
Para Brasília eu não vou. O tempo anda sempre embaçado por lá.
Mas passarei em Goiânia para um arroz sem pequi, fruta da qual só me apetece o cheiro.
Em Vitória do Espírito Santo abraçarei meu amigo Tavares Dias.
E de lá seguirei para Minas Gerais, lugar onde nasci e até hoje bate o meu coração.
E o que eu vou fazer em Minas pode virar assunto para uma crônica inteira, aqui mesmo, neste minifúndio de papel.


A Música Que toca Sem Parar:
essa cantiga é "lugar" onde uma marimba toca dentro do meu coração.
Minha Sereia (gravação original de 1981), do alagoano Carlos Moura, na voz do próprio.

Wednesday, May 19, 2010


















Arte Poética

Se o poema não serve para dar o nome às coisas
outro nome e ao silêncio outro silêncio,
se não serve para abrir o dia
em duas metades como dois dias resplendecentes
e para dizer o que cada um quer e precisa
ou o que a si mesmo nunca disse.

Se o poema não serve para que o amigo ou a amiga
entrem nele como numa ampla esplanada
e se sentem a conversar longamente com um copo de vinho na mão
sobre as raízes do tempo ou o sabor da coragem
ou como tarda a chegar o tempo frio.

Se o poema não serve para tirar o sono a um canalha
ou ajudar a dormir o inocente
se é inútil para o desejo e o assombro,
para a memória e para o esquecimento.

Se o poema não serve para tornar quem o lê
num fanático
que o poeta então se cale.

António Ramos Rosa, in Sema, 1980

* António Ramos Rosa, fotografia de Gisela Rosa, Outubro de 2008

A Música Que Toca Sem Parar:

Do Songbook de Chico Buarque, de sua autoria e na voz de Eugénia Melo e Castro, Tanto Mar.
Ao piano, o trespontano Wagner Tiso.

Tuesday, May 18, 2010

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O presente maior


O que dar de presente a um menino no dia de seu aniversário?
Das minhas recordações da infância salta uma bola de futebol, presente de uma tia de Belo Horizonte.
Cresci achando ter ganhado menos presentes do que mereci.
Adulto, entendi que recebi muito mais do que puderam me dar.
O que dar a um filho, menino, no dia de seu aniversário?
Um futuro brilhante?
Um lugar garantido em Princeton, quando ele crescer?
Um poema?
Uma canção?
O gol da vitória numa final de campeonato na escola?
Um dez em matemática?
Um pai e uma mãe honestos e de bom coração?
Estes últimos são, a meu ver, um presente imprescindível. Tudo o mais, vem junto, a reboque, dentro dos limites de cada um.
Eu, se pudesse, daria uma professora carinhosa e meiga, quase uma extensão da avó.
E um carrinho de madeira, com capô de lata e rodas recortadas de uma velha sandália havaiana.
Um peão, uma pipa e um carrinho de rolimã.
Um embornal com um estilingue e muitas bolinhas de gude.
E frutas maduras, cheirosas, suculentas, tiradas diretamente do pé.
Daria ainda manhãs de grama orvalhada.
Uma estrela que nunca se apaga. E uma fogueira de São João.
Daria férias inesquecíveis na fazenda.
E um piau prateado, daqueles que dançam no extremo da linha que pende da ponta da vara de pescar.
Daria ainda um passeio no lombo de um cavalo troteiro.
E a visão confortante, ao longe, de uma chaminé fumegando na paisagem.
Construiria uma estrada margeada por flores silvestres, margaridas, cravos, lírios e jasmins.
Daria um conselho de avô.
Um biscoito da avó.
Um mergulho no riacho.
Uma ducha na cachoeira.
Uma lua cheia.
Noites sem pesadelos, sem bruxas malvadas ou dragões cuspindo fogo.
Chuvas?
Só se fossem as de verão, cantando “sol e chuva, casamento de viúva”.
E o ar com cheiro da terra molhada e um arco-íris, com seu pote de ouro, bem no fim.
Daria-lhe ainda uma festa de aniversário coalhada de balões coloridos num dia ensolarado, bem no começo da primavera.
E um bolo de chocolate com uma vela numeral em cima, além um coral de amiguinhos do peito, puxando um desafinado mas entusiasmado, ‘parabéns’.
Mas os tempos mudaram, eu sei.
E hoje só se fala em videogames, bicicletas cibernéticas, rollerblades, Ipods, celulares, roupas de grife, viagens a Disney e bonecos de super-heróis, daqueles que lançam raios laser de seus olhos.
Não existe nada de errado nisto.
Mudaram os tempos e as prendas que damos aos meninos.
O que não podemos mudar é aquilo que acredito ser o presente maior.
No meu relicário, que é onde guardo as coisas de maior valor, estão o respeito e a admiração por um cara que sempre me deu muito mais do que pôde dar:
O amor pelo filho, esse sim, é um presente que dura para sempre. Herdei do meu como lição.
O resto, todo o resto, também é importante.
Mas é coisa menor.
Bem menor.
Grande é a infância.


Fotografia de Bruno Ganz extraída de um momento do filme Asas do Desejo, de Wim Wenders.

A Música Que Toca Sem Parar:
Branca Lima e Chico Buarque, letra dele e melodia do saudoso Sivuca, João e Maria.

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

Monday, May 17, 2010

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TRADUZIR-SE
(Poema de Ferreira Gullar)

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?


*


A Música Que Toca Sem Parar:
Raimundo Fagner e Chico Buarque, esta mesma Traduzir-se, musicada com competência por Raimundo Fagner.

Sunday, May 16, 2010

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Um pequeno problema de DNA

José Luiz Bré é um dos maiores percussionistas brasileiros.
Acompanhando Renato Braz ou tocando projetos solos, ele é um dos mais inventivos músicos de sua geração.
É mineiro de Bicas, tem uma memória paquidérmica e um senso de humor admirável. Nossa amizade bissexta - só nos vemos uma vez a cada número xis de anos - nos permite muitas risadas toda vez que nos encontramos.
E o Bré, sabedor deste meu gosto pela nostalgia, deste pezinho meu preso no ontem, enviou-me na semana passada, um e-mail com algumas perguntas, que passo agora aos leitores deste blog, que estão convidados a também responder.
Ele escreveu:

Responda com sinceridade: você já tomou Q-Suco?
Você bebia Grapette?
Sua primeira bebida alcoólica foi Cuba Libre?
Já comeu goiabada cascão?
Você tomou leite que vinha em garrafa de vidro com tampinha de alumínio?
Já se tratou com Cibalena, Biotônico Foutoura e Leite de Magnésia Philips?
Você cuidou de suas espinhas adolescentes com pomada Minâncora?
Sua mãe usava Violeta Genciana para cuidar de seus machucados?
Seu pai usava aparelho de Gillete com lâminas removíveis?
Sua mãe tinha secador de cabelos com touca ?
Ela usava Leite de Colônia ou de Rosas?
Você jogava bilboquê?
Usava tampinha de guaraná para fazer distintivo de polícia?
Soltava bombinha de quinhentos, em época de festa junina?
Já andou de carrinho de rolimã?
Brincou de queimado?
Você lembra quando o Ronnie Von jogava a franjinha de lado cantando Meu Bem?
Você assistia Perdidos no Espaço e Bonanza?
Você sabia de cor a música de Bat Masterson ?
Sabe quem foi Phantomas?
Quem foi Ted Boy Marinho?
Você assistia ao Repórter Esso, ao Toppo Giggio?
Assistia Vila Sésamo?
Sabe quem foi Johnny Weismuller?
Assistiu ao Vigilante Rodoviário?
Conheceu Odorico Paraguassu?
Você se lembra o que era compacto simples e o que era um compacto duplo?
Você já teve um Bamba? Se lembra do Vulcabrás 752? Usava japona?
Quando estudava, os graus eram: primário, admissão, ginásio e científico?
Você chamava revista em quadrinhos, de gibi?
Sua mãe tinha caderneta no armazém ?
Você usou bomba de flit ? Já andou de Simca Chambord? Conheceu o Aero Willys, o Kharman Guia? Já andou de Vemaguete? Já usou gasolina azul no seu carro?
Sua mãe usava cera Parquetina? Ou, o sabão em pó Rinso?
Você se recorda da televisâo com seletor de canais rotativo?
Quando chovia você saía calçando galochas?
Se você respondeu SIM para pelo menos 30% das questões, está mesmo com um probleminha (mesmo que não admita) de DNA: Data de Nascimento Avançada.

Ao final, Bré mandou um abraço, mas não muito apertado, sugerindo que eu já deveria estar sofrendo de reumatismo, artrite, artrose e outros males.
Ele acertou.
Eu usarei esta meia-crônica para deixá-lo sabedor de que respondi afirmativamente a 100% das perguntas que enviou.



A Música Que Toca Sem Parar:

Todo Menino É Um Rei, tendo Zé Luiz Bré na percussão e Renato Braz ao vocal.

A composição é de e Nelson Rufino e Zé Luiz.


Todo Menino É Um Rei



Todo menino é um rei
Eu também já fui rei
Mas quá!
Despertei!

Todo menino é um rei
Eu também já fui rei
Mas quá!
Despertei!


Por cima do mar da ilusão
Eu naveguei! Só em vão
Não encontrei
O amor que eu sonhei
Nos meus tempos de menino
Porém menino sonha demais
Menino sonha com coisas
Que a gente cresce e não vê jamais

Todo menino é um rei
Eu também já fui rei
Mas quá!
Despertei!

A vida que eu sonhei
no tempo que eu era só
Nada mais do que menino
Menino pensando só
No reino do amanhã
A deusa do amor maior
Nas caminhadas sem pedras
No rumo sem ter um nó

Saturday, May 15, 2010

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Três Poemas de António Ramos Rosa



*

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob as montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


*

Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo

Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra

*

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.



António Ramos Rosa
Os Quatro Elementos
Edições Asa, 2004


A Música Que Toca Sem Parar:
Chico Buarque e Milton Nascimento compartilham Cálice, da autoria de Chico Buarque e Gilberto Gil.


Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...(2x)

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)