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Sempre vai aparecer alguém dizendo que escutou uma voz divina assoprando ao seu ouvido, antes de uma guinada em sua vida.
Isto não vem de hoje e se manifesta de diferentes maneiras.
Imagino que os estudantes Eric Harris e Dylan Klebold, perpetuadores do Massacre de Columbine tenham escutado vozes.
O mesmo aconteceu com José Datrino, personalidade urbana carioca, que perdeu toda a sua família num incêndio do Gran Circo Norte- Americano, ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961.
No dia seguinte ao incêndio que culminou com a morte de cerca de 500 pessoas, José acordou alegando ter ouvido "vozes astrais" - segundo suas próprias palavras -, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual.
Foi assim que ele se transformou no Profeta Gentileza, personagem que inicialmente fazia pregações de cima de um caminhão, mas passou a fazer inscrições pacíficas sob o viaduto de Santa Tereza.
Cabelos e barbas longos, vestido sempre com uma túnica branca, tornou-se uma lenda na cidade do Rio de Janeiro.
"Gentileza gera gentileza" é a sua frase mais conhecida.
Este pode ser o caso de Harold Camping, líder de um ministério evangélico independente chamado Family Radio Worldwide, com sede na cidade de Oakland, Califórnia.
Ele leu o novo testamento, fez a sua interpretação e chegou à conclusão de que Jesus está chegando - no que escrevo esta crônica - daqui a quatro dias.
Sob a sua orientação foram espalhados milhares de outdoors pelas estradas do país, pôsteres em paradas de ônibus e postes.
E a mensagem é inequívoca: neste 21 de maio, seremos todos réus.
Este será o dia do grande julgamento e, sabemos, é larga a porta do inferno.
Fiz as minhas contas e meu caso não tem solução.
Quatro dias é muito pouco para eu me redimir, me purificar ou recomeçar.
Tenho pecados demais em minha conta corrente.
Abusei do corpo - este templo a mim presenteado - e tive pensamentos impuros que não cabem na palma da mão.
Bebi, fumei, praguejei, comi além do que deveria, cobicei, tive momentos de vaidade e cólera.
Menti para salvar a pele e tenho no currículo inúmeras mentirinhas comerciais.
Fiz uma ou outra coisinha boa que podem amenizar a minha pena, mas tenho consciência de que as agravantes são maiores que as atenuantes. Afinal, a mão da justiça divina é pesada e justa.
Só me resta esperar a passagem destes próximos quatro dias tentando corrigir algumas coisas, procurando realizar o que não realizei nestes últimos 48 anos.
Quero conhecer a Andaluzia e escutar flamenco tomando um porre de cidra.
Quero ficar sem ar em Matchu-Pitchu.
Quero celebrar mais um campeonato brasileiro vestindo o azul do meu glorioso Cruzeiro Esporte Clube.
Quero uma casa no campo e aprender a tocar violão.
Quero andar sobre patins.
Quero dançar um tango no Caminito, em Buenos Aires.
Quero voltar a escrever poesia e publicar um livro.
Quero fazer uma dieta e emagrecer oito quilos.
Quero caber dentro de um terno.
Quero a oportunidade de falar aos congressistas de Washington, da necessidade de se aprovar uma lei de imigração com urgência urgentíssima.
Argumentarei por aqueles que não veem pai e mãe há muitos anos, porque sabem que se forem, não conseguirão voltar para prosseguir na labuta diária por um pedaço de pão.
Defenderei os que não conseguem trabalhar porque não podem conduzir livremente pelas ruas do país.
Pleitearei pelas famílias que ficaram divididas, rachadas ao meio por deportações.
Falarei do terror proveniente do medo das cada vez mais constantes batidas do Ice.
Falarei do medo maior que a vontade de ser de ser feliz, de cada um dos imigrantes indocumentados.
Falarei da voz que sopra ao meu ouvido – agora -, a menos de quatro dias antes do fim.
E é a mesma voz que murmura ao ouvido de milhões de pessoas, que merecem dignidade e liberdade, como um desígnio de Deus.
A Música Que Toca Sem Parar:Gentileza, letra e música de Gonzaguinha.
Feito louco
Pelas ruas
Com sua fé
Gentileza
O profeta
E as palavras
Calmamente
Semeando
O amor
À vida
Aos humanos
Bichos
Plantas
Terra
Terra nossa mãe.
Nem tudo acontecido
De modo que se possa dizer
Nada presta
Nada presta
Nem todos derrotados
De modo que não de prá se fazer
Uma festa
Uma festa.
Encontrar
Perceber
Se olhar
Se entender
Se chegar
Se abraçar
E beijar
E amar
Sem medo
Insegurança
Medo do futuro
Sem medo
Solidão
Medo da mudança
Sem medo da vida
Sem medo medo
Das gentilezas
Do coração.
Feito louco pelas ruas...