
(meu primeiríssimo conto, escrito em 7 de março de 2012)
Eu achava o bouganville a flor mais bonita deste mundo.
Olhava por cima dos muros das chácaras e casas da zona sul e tinha até uma ponta de inveja.
Eu não invejava as casas, grandes e arejadas.
Os muros é que me fascinavam.
Eu sempre quis ter um muro assim: caiado de branco, florido, como o daquelas casas da zona sul.
Mas meu marido não gosta de planta que só dá flor.
Meu marido gosta de planta que dá fruta.
E é por isto que, quando compramos a chácara na periferia, ele ficou um homem mais feliz.
Todos os dias ele se levanta bem cedinho, dá de comer às galinhas e ao pato Genésio, alimenta os cachorros, pega a enxada e vai pra capina.
Chega terra no pé das verduras e hortaliças, aduba com esmero, conversa com as plantas,acaricia troncos e folhas, todo carinhoso.
Às vezes, acho que meu marido gosta mais de planta do que de gente.
E as plantas também gostam dele. Afinal, tudo o que ele planta cresce e frutifica.
Que o digam as mangueiras, os limoeiros, o abacateiro ao lado da varanda e todas as outras árvores frutíferas que ele plantou como se construísse uma cidade.
Até a pitangueira gosta dele.
Meu marido tem a mão boa.
Ele é um homem fértil.
Um homem que me deu os dois filhos, que a vida tocou para bem longe de nossa casa.
Bernardo, o mais velho, mora no estrangeiro.
O mais novo vive em São Paulo e trabalha numa construtora que faz estradas e pontes.
Todos os anos eles vem nos visitar.
Há dois anos me queixei com Bernardo de que o pai dele não me deixava plantar flores no terreno.
No mesmo dia, Bernardo passou no horto florestal e comprou uma muda de bouganville vermelho.
Mal chegou em casa, pediu ao pai que a plantasse rente ao muro.
Um pouco confuso e a contragosto, o pai lhe perguntou que fruta era aquela, que ele não conhecia.
E o nosso filho respondeu: bouganville. Uma fruta que se come com os olhos.
Meu marido plantou a muda no lugar recomendado, e rapidamente ela já era uma árvore feita.
A planta cresceu escalando o muro e, no ano seguinte, ja sangrava a paisagem de uma maneira tão bonita, que eu gostava de sair para fora da propriedade só paravê-la em toda a sua glória e esplendor.
Encarnada como o batom de uma atriz, esparramava-se por boa parte do muro, sangrando a visão de quem viesse descendo a rua.
Na madrugadade ontem, no entanto, escutei dois pipocos.
Dois estampidos bem pertinho de nossa casa. E um carro que saiu cantando pneu.
Acordei assustada.
Meu marido, que tem o sono muito pesado, continuou dormindo.
Os cachorros da casa começaram a latir. Assim como os cães das casas vizinhas.
Dali a pouco tudo serenou.
Os latidos cessaram e o único barulho que se ouvia era o dos caminhões rodando, furiosos, na Fernão Dias.
Mal o dia clareou, pude ouvir, do lado de fora, um burburinho.
Marilda, a vizinha da casa em frente, gritava de dor, como se lhe retalhassem a pele com uma faca bem afiada.
Abri o portão e saí para a rua.
Na calçada de minha casa, um grupelho se aglomerara.
Duas vizinhas tentavam controlar Marilda, que descabelara-se e parecia querer se livrar de seu vestido verde-pantanal.
Marilda chorava e gritava.
Trocava de mal com Deus.
Praguejava.
Ao pé do muro de minha casa, debaixo do bouganville que meu filho me deu, o filho de Marilda jazia com dois buracos de bala.
Um na testa.
Outro no peito.
E doeu em mim, aquele vermelho do bouganville que escorria pelo muro.
Doeu mais ainda o vermelho do sangue de Fernando, filho de Marilda.
Os filetes,agora de um vermelho-escuro, quase vinho, praticamente secaram desde a hora em que ele caíra ali, algumas horas antes, sem que ninguém desse por conta e lhe socorresse.
"Foi dívida de tráfico", ouvi alguém dizer.
Meu marido finalmente saiu à porta, olhou a cena e voltou para dentro de casa,rapidamente.
Fui atrás.
Vi quando ele foi ao quartinho onde guarda as ferramentas, saindo de lá com o machado.
Passando por mim, na porta da cozinha, murmurou, raivoso:
- Não gostei da fruta que a sua planta deu.
A Música Que Toca Sem Parar:
Alceu Valença roubou a imagem de um flamboyant sangrando na tarde e a fez caber em sua bela toada Chuvas de Cajus.
Ela virá no verão
Com as chuvas de cajus
Os flamboyants estão sangrando
Nessas tardes tão azuis
Pastores da noite
Meu São Jorge amado
Livrai-me do ódio
Dos apaixonados
Pastores da noite
Meu São Jorge amado
Livrai-me do ódio
Dos abandonados





