Monday, July 9, 2012

reza











Meu pai nasceu

e viveu

ateu.


no que envelheceu,

deu de cochichar

todas as noites

no ouvido

de Deus.



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Tuesday, June 19, 2012

As 26 moléstias de Argemiro


Ele é portador – segundo suas próprias palavras – de 26 doenças catalogadas, e todas elas mortais.
Bebe, fuma, se excede, mas as 26 moléstias só lhe incomodam quando a mulher aparece com algum tipo de restrição:
- Não posso ser contrariado. Lembre-se: sou um homem valitudinário!
Valitudinário?
Corri pro dicionário – outra de suas muitas manias. Ele adora descobrir palavras esdrúxulas nos Aurélios e Houaiss desta vida – e não encontrei absolutamente nada.
Apelei a ele, e aprendi que um indivíduo valitudinário é um sujeito doente.
- Olha que moça calipígia, ele diz, apontando para a voluptuosa morena que atravessa a rua.
Nova consulta e descubro que calipígio é aquele, ou aquela, que possui belas nádegas.
Todas as manhãs, quando ele se levanta com seu pijama de aposentado, calça as pantufas e vai ao banheiro praticar os gestos universais inerentes ao ser humano, quem estiver do lado de fora, saberá imediatamente, qual dos Argemiros sairá por aquela porta.
Existem dois Argemiros: o sorumbático e o ditoso.
Querem saber o que quer dizer isto?
Façam como eu. O Aurélio é logo ali.
Ou, perguntem ao Argemiro.
Tudo bem, esqueçam o Aurélio!
O Argemiro feliz canta trechos de ópera enquanto se barbeia ou lê, sentado no trono.
Ele sabe tudo de ópera, canta árias inteiras, e parece se alimentar de réquiens e Enrico Caruso. Se não tivesse nascido Caruso e italiano, teria nascido Argemiro e brasileiro, o célebre concertista.
Nosso Argemiro contente é expert em Caruso.
E em Maria Callas.
E em René Fleming.
E disserta como poucos sobre os Pavarottis e Carreras desta vida.
O outro Argemiro, aquele que parece ter torturado a própria mãe em seus piores dias, fica mudo durante todo o banho e dele nada se escuta.
Nessa segunda situação, quando sai pela porta do banheiro e seus olhos cinzentos o acompanham até a mesa do café, já sabemos.
Diante das frutas – que faz questão de que estejam descascadas e cortadas em tamanhos uniformes – , sentencia:
Sinto-me plúmbeo.
Estou macambúzio.
Maldita paúra.
Indizível banzo.
Sou um homem embezerrado.
E valitudinário!
Qualquer das expressões denotam que ele não acordou do lado certo da cama.
Saudade de algo ou alguém, ou a simples sensação de frio podem mudar seu estado de espírito por períodos que podem durar até uma semana.
Gosta de bons vinhos.
Bom champagne.
Bom malte escocês.
Mas à mesa não possui o mesmo requinte.
Se pudesse, comeria arroz e bife em todas as refeições.
Já o vi trocar uma ida ao melhor restaurante francês da cidade por um pão com ovo cozido. E não me pareceu arrependido.
Argemiro é assim, um poço de contradições. E manias.
Pena vê-lo agonizar às vésperas de uma viagem. Pesa a bagagem duzentas vezes. Trezentas vezes.
Tem paranóia com agentes alfandegários e entra em pânico diante da mera menção de que uma de suas malas possa ser aberta na saída ou na chegada.
Não que ele leve nelas algum objeto ou produto proibido, mas a possibilidade de ver espalhadas pela bancada de revista suas cuecas e meias – que ele enrola e acondiciona de maneira artesanal – , causa-lhe fobias, mal estar, uma quase demência.
Toda vez que sai para comprar roupas, leva para a loja ou boutique uma fita métrica e mede, peça por peça, uma por uma, antes de experimentá-las.
Ele conhece suas medidas antes, durante e depois das refeições e jura sentir coceiras, caso leve para casa alguma calça pega frangos, ou uma camisa larga ou justa.
Outra mania esquisita é a de colecionar caixinhas. Tem milhares delas.
Quadradas, ovais, triangulares, brancas, pretas, multicolores, grandes, pequenas, fundas, rasas... Ele precisaria de um novo cômodo da casa só para guardar sua coleção. Na falta de ter o que armazenar dentro delas, guarda caixinha dentro de caixinha, e passa dias inteiros organizando o acervo.
Usuário de sabe-se lá quantos tipos de remédio, pouco faz para acompanhar o tratamento médico com algum tipo de dieta.
Já enfartou duas vezes. Sofre de diabetes. Tem pressão alta.
E torce para o Coritiba Football Club.
Informado pelo médico, de que deveria abrir mão de alguns pequenos prazeres, caso quisesse viver mais, retrucou ao doutor que havia acabado de escolher, naquele instante, o epígrafe que iria adornar sua lápide:
- Argemiro parou de fumar!
E é isto mesmo.
Argemiro, nosso incorrigível Argemiro, só vai para de fumar ou beber ( ou de fazer qualquer outra coisa que apeteça ou lhe dê prazer), no dia em que pedir a conta e partir desta para uma (muito) melhor.


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Tuesday, June 12, 2012

A Prainha do Xuá


Aqui, quando faz frio é de rachar a mamona.
E quando faz calor é de cozinhar os miolos.
Sendo assim, de clichê em clichê, vamos nos queixando da vida.
Memória curta, temos nós, eternos insatisfeitos.
Se faz frio, é porque faz frio.
Se neva, é porque neva.
Se chove, é porque chove.
Se faz calor, é porque faz calor.
Criei-me em Governador Valadares, que julgava ser o lugar mais quente do mundo.
Era um Saara sem beduínos, sem camelos, palmeiras, nem tempestade de areia.
No meu coração, Valadares será para sempre um oásis de brisas benfazejas, belas odaliscas e xeiques de riquezas invisíveis.
Como era bonita e quente, aquela minha Gevê!
Tão quente, que um jornalista de passagem pela cidade escreveu um texto de onde chamou “sucursal do inferno”.
Em Valadares vi um sujeito fritar um ovo no capô de um fusca.
Vi o Rio Doce emagrecer, todo ano, sua cintura afinando e produzindo dezenas de praias ao longo de seu curso. A mais famosa delas era a praia do Xuá, agregada a uma ilhota próxima à ponte São Raimundo.
Era para lá que íamos.
Foi naquela ilhota que, menino ainda, vi um índio.
Aliás, um bugre, que é como os adultos a ele se referiam.
No meu desconhecimento de geografia, imaginava que um bugre era alguém vindo de um país distante, talvez na Cordilheira dos Andes, talvez na fronteira da Indonésia ou no Aconcagua.
Bugrelândia?
Bugrária?
Seria um bugre, o mesmo que um búlgaro?
Criança, ainda, pensei ter desvendado o mistério: o homem seria de Campinas, terra do Guarani, clube de futebol que tem um bugrezinho como mascote.
E o meu bugre ficava acocorado na porta de um palheiro, debulhando milho e bebendo cachaça, que os brancos davam para ele.
Aquele índio era uma espécie de guardião da ilha, e ali ele plantava algumas coisas e criava galinhas.
Não tinha mulher nem filhos.
Não tinha nada, aquele pobre homem de cabelos lisos e desgrenhados.
Era ali que ele dormia sozinho escutando apenas a música das criaturas da noite e o barulho da correnteza bolinando as pedras.
Era ali o seu reino de um homem só.
E sua prisão rodeada de águas.
Quando o calor aumentava na cidade ao ponto de quase explodir os termômetros, o rio ia definhando e formando suas prainhas, o Xuá era o destino de muitos de nós.
Tinha muito de paraíso naquelas areias brancas.
Do fundo de nossas precariedades, aqueles prazeres temporões saciavam uma sede muito maior que a nossa de mar e de amor.
De quebra, ainda nos oferecia uma oportunidade única de socialização.
Farofa geral, meus senhores.
Garrafa de pinga, meio engradado de cerveja em encardidas caixas de isopor, refrigerantes, frango assado e farofa.
Muita farofa.
Confesso que fui useiro e vezeiro. Confesso…
Homens jogavam carteado, mulheres tricoteavam sobre a vida alheia, enquanto as crianças jogavam futebol com uma bola de plástico da marca Pelé. Uma pobreza de não dar dó.
Muitas vezes nos afastávamos dos adultos e saíamos explorando as margens, roubando manga, jambo, jenipapo e ingá dos quintais ribeirinhos.
Não raro, éramos expulsos a tiros de sal.
Uma vez mais, confesso.
Alguns de nós aproveitavam a oportunidade e lançavam a sorte nas pescarias.
Tinha muito piau, lambari, tucunaré, curimatã, bagre e corvina.
Nadávamos, mergulhávamos, pescávamos e passeávamos de pedra em pedra como se não existisse o amanhã.
E, para alguns, não existia mesmo.
Muita gente perdeu a vida se refrescando nas águas traiçoeiras daquele rio.
E se, as mortes ocasionais serviam como alerta para os perigos das águas, elas não eram amedrontadoras o suficiente para nos afastarem de lá.
O medo de morrer afogado terminava antes da missa do sétimo dia.
Tenho imensa saudade das prainhas do Rio Doce.
Tanta saudade que, hoje, vendo o sol e o calor nos transformarem nessas insuportáveis bolas de mau humor, carne e suor, daria qualquer coisa para aportar numa prainha como aquela do Xuá.
Ficaria quietinho, sobre uma pedra lodosa, sentindo as águas do tempo passeando tranqüilas sobre meu corpo, levando meus cansaços, meus pecados, minhas culpas, minhas dores.

Tuesday, June 5, 2012

O derradeiro canto do cisne

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A imprensa brasileira só fala neste assunto.
Do Oiapoque ao Chuí ele é tema obrigatório nas rodas especializadas no rádio e na televisão.
Nas ruas, as opiniões são distintas:
Uma minoria - em preto e branco - o elogia, quer abraçá-lo.
Uma maioria esmagadora - em verde e amarelo - o execra, quer crucificá-lo.
Falou-se muito.
Bradou-se.
Alguns de dedos em riste.
Muitos o rejeitam.
Tantos o trucidam.
São milhões.
Eu me pergunto:
Por que Ronaldinho Gaúcho é tão odiado?
Por que motivo grande parte do Brasil quer vê-lo de joelhos, rastejando?
Seus melhores dias como futebolista estão no passado, certamente.
Seus dias de glória parecem distantes, como a invenção da internet ou o surgimento da mulata globeleza.
Mas ele não fez mal nenhum a ninguém.
Não matou. Não roubou. Não sequestrou.
Não corrompeu ou foi corrompido, agindo falsamente em nome do povo.
Pelo contrário: Ronaldinho Gaúcho sempre foi bom filho, bom irmão.
Fora do Brasil, durante muito tempo, foi motivo de orgulho nacional.
No retorno - tantos anos depois -, optou inicialmente pelo clube de maior torcida, como se quisesse, nesta volta, os afagos, os abraços, os braços do povo que ele nunca deixou de amar.
Mas o tiro lhe saiu pela culatra.
No futebol, um atleta com idade superior a 30 anos está na reta final da carreira.
Ele sabe. Sabemos. A diretoria rubro-negra, também.
E não é culpa de Ronaldinho se o Flamengo viu nele a possibilidade de lucros estrondosos de bilheteria e em venda de camisas.
Deu certo durante um tempo, mas bastou o time começar a não vencer, para que ele se transformasse numa espécie de bode espiatório, num Judas Escariotes, malhado impiedosamente pela diretoria e torcida.
A partir das derrotas, Ronaldinho virou pagodeiro, baladeiro, mulherengo e cervejeiro, comportamento absolutamente comum da grande maioria de seus colegas de profissão.
Mas Ronaldinho é alvo fácil.
Afinal, Ronaldinho Gaúcho ganha mais de um milhão por mês.
Ganha?
Não, não ganha.
Há mais cinco meses sem receber salário, queria ver qual o empregado que iria feliz para o trabalho.
E que cumprisse de bom grado a sua função.
O Flamengo e sua pífia diretoria quer tapar o sol com a peneira.
E só quem é absolutamente cego de consciência é que não consegue perceber, e fazer esta conta tão fácil de se fazer.
O Ronaldinho da Gávea não é o Ronaldinho dos tempos de Barcelona.
O mundo inteiro sabia (e sabe) disto.
É mais fácil arrastar sua carreira em decadência e sua moral de cidadão em praça pública - numa absurda inversão de valores -, do que assumir que se fez um péssimo negócio e, mesmo assim, honrar os compromissos assumidos, como qualquer pessoa de bom caráter tem a obrigação de fazer.
Torço muito para que Ronaldinho Gaúcho arrebente no Atlético-MG, grande arquirival do meu time de coração.
Que eu sofra com suas boas atuações e que chore com os seus gols.
Que ele jogue muito e cale seus críticos.
Que retome o caminho da vitória e que a bola continue lhe chamando por "tu", com a intimidade e carinho de sempre.
E que ele, com a carreira e a reputação reabilitadas, venha jogar aqui no Red Bulls, bem pertinho de nós.
Como fez David Backham no Los Angeles Galaxy, antes de seu derradeiro canto do cisne.
Ronaldinho merece. O bom futebol merece.
Esta estória merece um final feliz.

Tuesday, May 15, 2012

O absurdo das febres


Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil. Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Ater-me-ei ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?

Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moletom e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existem.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredom de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.

Saturday, May 12, 2012

Porque Hoje é o Dia Delas


Poema à Mãe


No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.





Eugénio de Andrade, in "Os Amantes Sem Dinheiro"

Thursday, May 3, 2012


Um grande menino

Hoje eu acordei com saudade de Fernando Sabino, um dos escritores mais injustiçados do Brasil.
Sabino escreveu coisas lindíssimas e possui uma das mais brilhantes carreiras das letras brasileiras, mesmo não sendo lembrado com o respeito que lhe é devido.
Dizem que começou a definhar depois de ter vendido a alma ao diabo, quando aceitou escrever Zélia, uma paixão, mistura de romance-biografia, em que abordava a trajetória de Zélia Cardoso de Melo, ex-ministra do alto escalão do governo Collor.
Tudo uma grande bobagem.
Puro preconceito.
Preconceito contra um profissional da palavra escrita que pode e deve escrever sobre o que bem entender.
E contra uma brasileira que chegara a uma das posições mais importantes naquele Brasil pós-ditadura militar e onde, até então, nenhuma outra mulher havia chegado.
Se o livro, em si, não representou para mim um marco literário, a trajetória de Fernando Sabino, não.
Para mim, Fernando Sabino foi mais que vital.
Esta manhã, fiz uma pesquisa e separei alguns momentos do escritor, que compartilho aqui com vocês:

"Liberdade é o espaço que a felicidade precisa."
“Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um.”
“No dia em que a mulher descobre que o homem, pelo simples fato de ser seu marido, é também seu cônjuge, coitado dele”.
“Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm”
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”.
“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro”.
“Para os pobres, é dura lex, sed lex. A lei é dura, mas é a lei.
Para os ricos, é dura lex, sed latex. A lei é dura, mas estica”
“No fim tudo dá certo, e se não deu certo é porque ainda não chegou ao fim.”
“O menino é o pai do Homem”
“Façamos da interrupção um caminho novo".
“Brigamos com os outros porque são exatamente aquilo que queríamos ser e não somos”.
“Em arte não há nada mais velho do que o futurismo”.
“O diabo desta vida é que entre cem caminhos temos que escolher apenas um, e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove”.
“O ar não é silencioso? O vento não faz barulho? E que é o vento senão ar? A música é o silêncio em movimento”.
"Tem gente que é só passar pela gente que a gente fica contente. Tem gente que sente o que a gente sente e passa isto docemente. Tem gente que vive como a gente vive, tem gente que fala e nos olha na face, tem gente que cala e nos faz olhar. Toda essa gente que convive com a gente, leva da gente o que a gente teme passa a ser gente dentro da gente. Um pedaço da gente em outro alguém."
“São vidas. Sendo vidas, nada mais nos resta fazer senão irmos vivendo”.
“Viver devagar é que é bom, e entreviver-se, amando, desejando, sofrendo, avançando e recuando, tirando das coisas ao redor uma íntima compensação, recriando em si mesmo a reserva dos outros e vivendo em uníssono. Isso é que é viver, e viver afinal é questão de paciência”.
“A gente sofre muito: o que é preciso é sofrer bem, com discernimento, com classe, som serenidade de quem já é iniciado no sofrimento. Não para tirar dele uma compensação, mas um reflexo”.
“Só é sincero aquilo que não se diz”.
“Mas a convivência é feita também de silêncio, e distância”.
“O importante não é dizer, é saber. Certas coisas não se dizem, porque dizendo, deixam de ser ditas pelo não-dizer, que diz muito mais”.
“A consciência é inútil, sem uma convicção adquirida.”
“Há pessoas que têm o dom de inspirar-me uma fulminante simpatia à primeira vista - quase sempre aliás, injustificada”.
“Vou escrever alguma coisa que não sei o que seja, justamente para ficar sabendo. E que só eu posso me dizer, mais ninguem”.
“Quando eu era menino, os mais velhos perguntavam: o que você quer ser quando crescer? Hoje não perguntam mais. Se perguntassem, eu diria que quero ser menino”.
“Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso."

O autor faleceu dia 11 de outubro de 2004 na cidade do Rio de Janeiro.
A seu pedido, seu epitáfio foi esculpido na lápide:
"Aqui jaz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino".


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