Tuesday, January 15, 2013

Ele não era um Zé qualquer




José Roque sofria de vitiligo e as manchas brancas já tinham consumidos as mãos morenas, espalhando-se pelos cotovelos e pela parte de inferior do pescoço, o que dava-lhe um aspecto de gato malhado, destes de rua.
Andava sempre arrumadinho, sapatos lustrados, cabelo penteado de lado e engomado com loção Trim.
Ele não era, definitivamente, um Zé qualquer.
A Venda do Zé Roque ocupava toda a parte da frente da construção, uma casa larga pintada de amarelo, com telhas cumbucas esparramadas como num acento circunflexo. Na parte de trás vivia uma viúva e seus filhos já graúdos, todos imprestáveis.
Duas portas de madeira, grossas, davam acesso para quem vinha da rua.
Ao lado de uma destas portas tinha um galinheiro onde ele, aos fins de semana, expunha garnizés e galinhas caipiras.
Na parede tinha um cartaz de propaganda dos cigarros Hollywood e a frase "Ao Sucesso". E uma bexiga de salame do tamanho de um extintor de incêndio.
O balcão de quase cinco metros de largura tinha um vitrine e guardava tesouros: marta-rochas, pães de sal, tatu, jacaré, sovado e doce, além de tarecos, bolos-estrela e de fubá, biscoitos de polvilho e quebra-quebra, e brevidades.
Para os que bebiam uma branquinha, havia sempre um torresmo, um chouriço de sangue, uma carne de panela ou um pedaço de dobradinha, que eram para 'tirar o gosto'. Atrás da porta do lado direito era o ofertório, onde era despejada a parte “do santo”.
Em cima do balcão ficava uma balança Filizzola e pesos de diferentes tamanhos. E folhas de um papel pardo, que o Zé usava para embrulhar as compras.
Na prateleira atrás do balcão ficavam garrafas de conhaque de alcatrão de São João da Barra, Jurubeba Leão do Norte, cachaça das marcas Praianinha e Tatuzinho, cera Parquetina para lustrar o assoalho, água sanitária Globo e álcool.
Em cima do balcão - em forma de trapézio - havia um varal onde ele dependurava linguiças defumadas.
Nos sacos de estopa - ou algodão - colocados em um dos cantos da venda, eram expostos os grãos da casa, produção de agricultores ribeirinhos: milho, feijão, arroz, canjiquinha, fubá e açúcar.
Zé Roque tinha também fumo de rolo, palha de milho para cigarro e canivete com cabo de osso ou de chifre de boi.
Num gavetão do lado esquerdo do balcão ele estocava pedras de naftalina para combater traças, latas de creolina para desinfetar ferida de animais e tabletes de anilina, que as lavadeiras usavam para clarear as roupas.
Na venda havia ainda latinhas de pomada minâncora (uma maravilha no combate da velha sudorese, o conhecido "cecê"), polvilho antisséptico Granado (muito bom para combater chulé), talcos de três qualidades, sabonetes Lux e Gessy.
Para curar as dores do mundo ele tinha comprimidos de Cibalena, Neovalgina, Melhoral, Sonrizal, pílulas de Lussen e Regulador Xavier.
Zé Roque oferecia Neocid para exterminar piolhos e espirais e Detefon para espantar pernilongos. E, claro, bombinhas flit, artesanais, feitas de lata, como os carrinhos – brinquedos dos meninos – e seus pneus recortados de velhas sandálias havaianas.
De lata e artesanais também eram as lamparinas, os lampiões e os cortadores de feijão.
Para as donas de casa ele tinha vassoura de piaçava e espanador de penas.
Para outros fins ele tinha esteiras feitas de tabuá e varas de pescar, de bambu e ubá.
Tinha anzol, chumbada e linha de pescar e de costurar. E chumbinho para as espingardas de ar-comprimido, usados no caçar.
Num canto, à esquerda da venda, Zé Roque mantinha uma espécie de montra, onde ele expunha tomates, cenouras, laranjas, bananas, legumes quase sempre murchos e mosquitinhos.
E duas bacias de água sempre clarinha onde nadavam molhos de coentros, salsinhas, cebolinha, alface e couve.
Quem tinha dinheiro, comprava. Quem não tinha, comprava também.
Zé Roque anotava tudo na sagrada caderneta, um caderno de capa dura em que a despesa era anotada com honestidade, tintim por tintim.
E ninguém precisava assinar nada, pois desconfiança e desonestidade ainda não havia nascido.
Antes dos cartões de crédito existiu a caderneta.
E o fio do bigode, garantia de pagamento de todo homem de bem.
A venda do Zé Roque viria a ser o primeiro shopping Center de minha vida.
O primeiro e derradeiro.





Friday, January 11, 2013

Um poemaço de Mia Couto























Fui Sabendo de Mim


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia


 

Mia Couto,


in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"
Foto de Sebastião Salgado, gênio do olhar


 

Sunday, January 6, 2013

A Febre Que Só Eu Sinto

 

Erasmo Carlos escreveu brilhantemente num de seus grandes sucessos que é uma mentira absurda, a disseminação da informação de que a mulher é o sexo frágil.
Concordo com ele e nem me estenderei demasiadamente nesse tema.
Aterei-me ao fato de que as mulheres são mais resistentes à dor, que os homens.
Já imaginaram se homem parisse um filho?
Não consigo sequer imaginar. Entro em pânico.
Eu, que nesse dia plúmbeo e cruel de segunda-feira, sinto-me extremamente fragilizado por uma gripezinha de nada.
Eu, que passei o final de semana no estaleiro, de moleton e pantufas, bebendo chazinho, tomando caldinhos quentes e desejando voltar pra dentro da barriga de minha mãe.
A gripe é uma das coisas mais desmoralizantes que existe.
Retorno à infância, sempre que gripo.
Quanto maior é a gripe, maior é a viagem no tempo. Maior é o inferno portátil, esse inexplicável purgatório de bolso.
Abandono-me ao recolhimento de um edredon de espinhos, construo uma espécie de casulo, quase um cocoon e fico ali, recolhido, encolhido, delirando de febre, desejando que minha genitora apareça pela porta, trazendo um prato de canja de galinha bem quentinho, ou um chá de flor-de-laranjeira, fumegando na xícara.
Escrevo essas mal-traçadas e consigo sentir o perfume do chá, quase queimando a língua, o palato da lembrança.
A febre me queima a face e penetra a pele, impiedosamente.
É sempre assim. Deliro.
Vejo monstros saídos dos lugares mais fundos da minha alma.
Saem dinossauros, dragões, aquela professora primária que tinha uma palmatória implacável, e que aparecia sempre que eu aprontava alguma traquinagem ou desaprendia as lições de tabuada.
Nesses momentos de febre e reminiscências, recolho-me a dias de chuvas intermináveis em que eu ficava na soleira da porta soltando barquinho de papel nas águas da enxurrada.
Dias em que o barulho dos passos das pessoas no assoalho de madeira dos demais cômodos da casa, entravam em meus ouvidos como sinfonias fantasmas.
Dias de arrepios, calafrios, suadouro, pijamas de flanela, cedros escurecidos, mangueiras indecifráveis, caminhos incompletos, a desenvolver o imaginário num traçado incomum.
Dias que se prolongam em longas quarentenas de imagens desenhadas em um oásis amanhecido, num erguer de asas, a face rubra a brasa, o coração em desalinho...
Dias em que tento encontrar no anjo perdido de minha infância, os sorrisos largos, o olhar inocente e iluminado de menino, com a ingênua vontade de entrar na floresta de João sem medo, e não andar espantado por meramente existir, adulto.
E pintar com as minhas cores o momento fugaz de uma experiência nova, fazer-me dono da luneta mágica, construir meu próprio castelo, tocar com as mãos o pote mágico de ouro no final do arco-íris, como quem acaricia um poema.
Mas a febre continua profunda, dominante, esmagadora.
As lágrimas desse abandono correm soltas em algum lugar de mim – homem feito -, num incômodo que me consome a alma, como os áridos campos que clamam pela chuva providencial.
Cai o pano escuro da noite. Descortina-se o sol.
Nesse novo dia de janelas abertas sobre a minha vontade, levanto-me com as cores que uso nas noites claras de quando estou bem e uma canção, uma imagem, saúda-me com as cores inconfundíveis da Primavera.
Sim, é primavera na América do Norte.
É Primavera, de novo, no meu coração.
Raios de sol. Um pequeno milagre.
Renasço das cinzas e do absurdo das febres.
Açucenas bonitas brotam da palma da minha mão.


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Thursday, December 27, 2012

Eu entendo, porque também sou mãe



Eu entendo a sua dor porque também sou mãe.
Assim como você, eu sou aquela que esperou com ansiedade a chegada deste filho que encheu a casa de felicidade quando nasceu.
Se ele foi o primeiro, se foi o único, pouco importa.
Para uma mãe todos os filhos são únicos, todos são o primeiro, todos são iguais no amor que ela sente desde o primeiro momento.
Uma mãe começa a amar o filho antes mesmo de sua chegada, no que o guarda dentro da barriga e por ele espera.

E eu o guardei e desejei que nada lhe faltasse, que nada (nunca!) lhe doesse, que nada lhe afligisse desde que respirou fora de mim pela primeira vez.
E eu o amamentei até que ele não precisasse mais.

Estive com ele em suas noites de febre, trocava suas fraldas, saciava fome e sede e o acompanhei enquanto ele crescia.
Caía a noite e eu ficava olhando para aquele menino bonito, a face inocente descansando de nadas, e desejando que ele tivesse um sono tranqüilo, cheio de sonhos leves.
Eu implorava para que ventos ligeiros levassem para longe eventuais pesadelos.

Vi quando ele deu os primeiros passos e quando perdeu o primeiro dentinho.
Ainda guardo na memória cada pedacinho nosso, a imagem no porta-retratos, o sorriso ingênuo, o olhar de ave, o cabelinho de nuvem.
Eu estive sempre com o meu menino.
(E gostaria de ter estado mais, mesmo depois que ele cresceu.)

Eu quis para ele futuros brilhantes, tão maiores e melhores que o meu.
Quis que ele salvasse vidas como um médico, que educasse o mundo como professor, que fosse piloto de avião, artista ou atleta de profissão.
Que ele fosse o que escolhesse ser. Acima de tudo, que ele fosse feliz.
Portanto, eu sou aquela que não sabe onde errou e que preferia que tudo fosse de outra maneira.
Eu sou a mãe daquele menino que se tornou rapaz e se perdeu de mim.

E é por isto que entendo a sua dor de mãe que teve a trajetória do seu filho interrompida pelo meu.
Aquele meu menino que foi adotado pelo crime e que hoje chama a violência de senhora.
Sou a mãe do pivete que lhe assalta fumado de crack e que coloca a sua história de cidadão a um clique de revólver, a sua vida por um triz.

Sou a mãe do homem-bomba que entra num mercado e leva dezenas de inocentes com ele, sabe lá Deus para onde.
Sou a mãe do sequestrador que lhe priva dos seus, daquele que pede resgate e que talvez nem devolva o que não lhe pertence, o que nunca lhe pertenceu...
Eu sou a mãe de Mark Chapman, aquele jovem que matou John Lennon e roubou do mundo a luminosidade de novas canções de paz.
Apareço como genitora na certidão de nascimento de Charles Manson.
Osama Bin Laden me chama de mãe.
Meu DNA está em Hitler, em Franco, em Gaddafi e Sadam Hussein.
Está nos policiais dos grupos de extermínio da Baixada Fluminense e nos estropiados do Talibã.
Está nas artérias de George Bush, nos cabelos de Manuel Noriega e na arcada dentária de um outro tirano qualquer.
Meu filho é aquele que entra no cinema vestido de Batman e abre fogo contra inocentes, filhos de outras mulheres como você.

Eu sou a mãe de todos estes meninos enlouquecidos que se armam até os dentes e promovem carnificinas nos Colombines e Realengos desta vida.
Portanto, pode chorar nos meus ombros que eu entendo a sua dor, minha senhora.
Entendo, porque também sou mãe.
E porque toda vez que um filho meu mata o seu, eu morro um pouquinho junto com os dois.



Monday, December 24, 2012

Deus me Proteja de Mim


(Letra de Chico César; Melodia de Dominguinhos)
 
Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim
Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa.
Da bondade da pessoa ruim
Deus me governe e guarde ilumine e zele assim

Caminho se conhece andando
Então vez em quando é bom se perder
Perdido fica perguntando
Vai só procurando
E acha sem saber
Perigo é se encontrar perdido
Deixar sem ter sido
Não olhar, não ver
Bom mesmo é ter sexto sentido
Sair distraído espalhar bem-querer
 
 
Feliz Natal a todos.
Que Deus proteja todos vocês.