Saturday, December 21, 2013

Alencar, o rei da mentira


É claro que já menti nessa vida, mas nunca disse um ‘eu te amo’ que não tivesse sido verdadeiro.
Cazuza dizia que mentiras sinceras lhe interessavam.
Escorados nesse mote, muitos de meu convívio demoraram a acordar para uma realidade melhor.
Outros continuaram dormindo.
À medida que fui amadurecendo, passei a evitar os pequenos deslizes.
Mentir por mentir, jamais.
Mas tem gente que mente por costume e o faz de tal maneira, que as mentiras se transformam em doentias verdades. São os casos patológicos.
Estes não aprenderam ainda que a verdade é tinta permanente.
É cinzel esculpindo na pedra.
Já a mentira é um paliativo.
É o rabisco da vara na areia.
E não apenas o antônimo da verdade.
A verdade pode machucar, é ferro em brasa, que marca para sempre o couro do gado.
Mas a mentira vai mais fundo, tem vocação de punhal.
A verdade pode provocar dor, mas com o tempo traz alívio e luz.
A mentira, não.
Com a mentira vem o rancor, a quebra da confiança e o desprezo.
Que fique claro: mentir e omitir são duas coisas completamente diferentes.
A omissão pode ser uma atitude com resquícios de covardia.
Mas a mentira é 100% covarde.
Conheci muito mentiroso nessa vida. Mas nenhum com a eloqüência e a cara-de-pau de um caminhoneiro de São Raimundo, o Alencar.
Mentia para impressionar, ou para tirar vantagem de situações completamente irrelevantes. A maior parte do que falava era ficção barata.
Segundo seus relatos, havia percorrido o trecho Valadares - Belo Horizonte, 360 quilômetros de estrada esburacada e perigosa em fantásticas três horas.
E com o caminhão cheio de bois.
Num outro dia, aparecia no bar, pagava cachaça para todo mundo e dizia que estava comemorando os treze pontos feitos na loteria esportiva. O tempo passava e ele continuava vivendo de aluguel e comprando fiado no armazém de Zé Barbudo.
Segundo Alencar, o pára-choque amassado de seu caminhão era a prova material de que havia atropelado uma onça enorme, quase chegando a São Paulo.
   - Não deu para aproveitar nem o couro, fartava-se.

Se viajava ao Rio, dizia ter almoçado na casa de Roberto Carlos e era amigo de Zico, do Flamengo. Era o rubro-negro, o rapaz. E gostava de música romântica.
Com o passar do tempo, ficou estigmatizado e ninguém mais acreditava nele.
Como começaram a ignorá-lo, resolveu se assumir mentiroso e mandou pintar, com as cores do Mengão, nos dois pára-lamas traseiros de seu caminhão Mercedes 1113, os seguintes dizeres:
Alencar, o rei da mentira!
E foi acolhido de volta.

Em todo lugar onde estivesse, a roda se fechava em torno dele e as estórias fantásticas eram garantia de entretenimento. Afinal, Alencar tinha um tio astronauta que fora à lua duas vezes, um primo que namorara a miss Brasil (uma certa Marta Rocha), e um conhecido que estudara com o ex-presidente Getúlio Vargas.
Não raro, mentia atendendo a pedidos.

Numa destas ocasiões, cruzou com a viatura da polícia rodoviária na entrada de um posto de gasolina. Os dois carros ficaram lado a lado e um patrulheiro pediu:
- Ô Alencar, conta uma mentirinha aí.
Alencar pediu desculpas, mas disse que não podia.
- Estou indo pedir socorro em Valadares. Teve um acidente a 30 quilômetros daqui e tem gente ferida espalhada pelos dois lados da estrada.
Os patrulheiros nem se despediram. Ligaram as sirenes e seguiram, em alta velocidade, na direção do horrível acidente.
Duas horas depois retornaram ao posto de gasolina e lá estava o Alencar, comendo uma picanha e bebendo uma Brahma bem gelada com outros dois caminhoneiros.
Um dos patrulheiros foi até a mesa e, de dedo em riste, mandou o seu recado nervoso:
- Escuta aqui, Alencar! Dessa vez você passou dos limites! Que brincadeira de mau gosto foi essa de dizer que tem um acidente cheio de mortos e feridos perto daqui?!
Alencar deu uma garfada na parte gorda da picanha e respondeu, impávido:
Uai, mas você não pediu para eu contra uma mentira?
E todos caíram na gargalhada. Inclusive os guardas rodoviários.

Ninguém imaginou, no entanto, que Alencar ainda pagaria caro pelo seu estilo de vida.
Numa madrugada, acordou a mulher e disse que estava enfartando.
A patroa ajeitou melhor o travesseiro, resmungou qualquer coisa e continuou a dormir.
Dois dias depois ele foi enterrado, humildemente, sem as pompas normalmente reservadas a um rei.

Friday, December 6, 2013

Trinta coisas que esqueci sobre mim mesmo


(Para Suzana Guimarães, precursora da lista das 30 coisas)


A poeta baiana Tânia Contreiras lançou-me o desafio para que entrasse em uma espécia de corrente inicada nas redes sociais e enumerasse 30 coisas a meu respeito.
Eu jamais diria não a ela, que é uma pessoa muito presente em minha vida, amiga ímpar, a quem eu não diria não mesmo se estivesse me pedindo um rim.
Portanto, aí vão as 30 coisas das quais às vezes eu mesmo me esqueço:

1) Tenho que beber pelo menos três uísques antes de entrar em um avião.
2) Quando menino fui atropelado por um jipe e salvo de um afogamento por um ladrão. Que eu me lembre, em três outras oportunidades a morte passou de raspão.
3) Adoro pão com linguiça e arroz com rapa.
4) Gosto de cozinhar. Muitas vezes, cozinho para não pirar.
5) Adoro futebol. Cruzeirense de ir ao estádio. De "ver" o jogo pelo rádio.
6) Fui "vencedor" de um único concurso literário em minha vida.
    Foi uma 'tarefa' no grupo Escolar Maria Ortiz, em Barra do Cuieté-MG; a redação "Meu Brinquedo favorito" venceu "o ponto" para a equipe Azul, do terceiro ano primário.
7) Quando cheguei aos Estados Unidos trabalhei de pasteleiro (fazia pastéis de Belém em uma padaria portuguesa).
   Fui também lava-pratos, ajudante de cozinheiro, garçom, funcionário de empresa-de transportes e servente de pedreiro. Aliás, o pior servente de pedreiro que a construção civil de New Jersey já conheceu.
08) Comecei a escrever coisas visitando um pistoleiro de aluguel condenado a 380 anos de prisão, em um presidio de Juiz de Fora. Eu tinha 18 anos.
09) Meu pai não queria que eu vivesse de escrevinhações. Fez de tudo para que eu fosse militar, como ele. Na contra-mão mão de sua vontade, minha mãe presenteou-me com uma Olivetti portátil, que ela pagou em 12 “suadas” prestações na falecida Mesbla.
10) Sofro quando tenho que usar terno e gravata.
11) Não gostaria de ficar careca.
12) Fui pai pela primeira vez aos 16 anos de idade.
13) Tenho três filhas.
14) Casei-me com uma moça bonita.
    Casei ao meio dia, em Curitiba, o sol estava a pino e tive cãimbras durante o sermão do padre.
15) Toda vez que alguém me chama de “jovem”, acho que esta pessoa está tentando me vender um par de quixutes.
16) Adoro Portugal. Pudesse, iria várias vezes por ano a Portugal.
     Tenho vários ossos lusitanos em meu corpo.
17) Eu me sinto mais mineiro do que qualquer outra coisa.
     Muito mais do que brasileiro ou americano, eu sou mi-nei-ro. De Minas Gerais.
18) Se tivesse que fazer uma tatuagem, tatuaria o triangulinho vermelho da bandeira de Minas Gerais no bíceps.
19) Cheguei aos Estados Unidos aos 21. Tenho 51. Vivi toda a vida adulta no estado de Nova Jersey.
20) Quando comecei a escrever queria ser uma espécie de Augusto dos Anjos menos pessimista. Depois queria ser Drummond e depois, Roberto Drummond.
21) O livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond, é dedicado a mim. Também a mim, que fique claro. O que me honra da cabeça aos pés.
22) Tive uma produtora de shows de MPB com dois grandes amigos nos EUA. Fizemos coisas que julgo importantes por aqui.
23) Sofro quando entro em um lugar e está tocando axé, breganejo, pagode ou "fanque". Este é um dos motivos porque vou pouco aos restaurantes brasileiros de Newark.
24) Parei de fumar no dia 1º de dezembro de 2011, após escalar - de carro - um poste da South Street. Carro e cara se arrebentaram.
   Parei como forma de agradecimento pela oportunidade de continuar entre os vivos. Eu era fumante desde 1980.
25) Eu não gosto de ir a festas de crianças, nem de ir à Disney com minhas filhas.
   Não fui. Não vou. Não irei.
   É por estas e outras que ainda morarei no inferno.
26) Não gosto de praia. Nem de carnaval.
27) Acho as obras de Niemeyer uma bobagem. A forma não segue a função.
28) Tenho preguiça mental de falar inglês. Minha tecla SAP está quase sempre desligada.
29) Entre 2011 e 2013 tive muita vontade de voltar pra Minas Gerais e ir morar numa casa de montanha e ser feliz para sempre.
    Esta vontade está passando. Já passou.
30) Tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.


Sunday, November 17, 2013

Aquele dedinho


Quando estamos tristes, tudo fica pior.
É como quando estamos com um dedo do pé machucado e temos aquela impressão de que sempre o estamos batendo pelos cantos por onde passamos.
Não percebemos que sempre o batemos, mas que não o sentimos doer porque ele só dói quando realmente está machucado.
Infelizmente, quando entramos nestes dias plúmbeos em que o corpo inteiro se transforma num grande dedinho machucado, ficamos expostos demais, sensíveis demais, fragilizados demais.
Um engarrafamento no trânsito torna-se uma calamidade de proporções tsunâmicas, a derrota do time de coração trucida tanto quanto a perda de um ente querido, e por aí vai.
Só dói quando eu respiro, posso afirmar.
Por isso tento aprender a respirar mais miudinho.
Ando meio assim ultimamente, de braço dado com a tristeza, enamorado dela, mas pensando numa possibilidade de fugir do altar.
Dona Tristeza que fique solteira.
Meu médico falou em depressão. Recusei o diagnóstico.
Onde é que já se viu filho de soldado com dona de casa deprimido?
Depressão é coisa de bacana.
Ando triste. E pronto.
E não adianta culpar a descoberta de que Obama não é Superman, que os impostos aumentaram e as benesses escassearam, e que o verão foi um arremedo ou que ganhamos mais uma nova ruga e acumulamos fios brancos entre os cabelos que restaram.
Não tem jeito.
Às vezes penso que nascemos com esse gene da dor, e que passamos a vida inteira tentando dar-lhe um nó.
Inventamos paixões, as transmutamos em amor, fazemos filhos, depositamos neles a esperanças de que sejam tudo aquilo que jamais seremos, devoramos livros, viajamos pelo mundo, pregamos diplomas na parede, nos empanturramos de lagosta e vinho.
Quando não dá para tanto, mastigamos couve e arrotamos caviar.
Tudo para driblar o gene da dor. E nem sempre conseguimos, obviamente.
Quem não tem o suficiente para pagar o analista – ou não acredita nisto -, tenta arranjar um amigo.
Conversar faz bem, eu sei. Mas anda cada vez mais difícil encontrar alguém que nos escute mais do que tenha por dizer.
Na falta de grana para o analista ou de um amigo para chorar em seu ombro, dei de falar sozinho.
Mas nem eu mesmo tenho tido paciência para tantas lamentações.
Religião, não. Obrigado.
Deus deve estar com a agenda cheia. E a fila é enorme.
E, pegar fila é outra coisa que deprime qualquer cristão. Mesmo cristãos não tão cristãos assim, como esse do dedinho machucado que batuca no teclado deste computador.
Reaprendo, na marra, a ‘catilografar’ com o dedo indicador.
E assim termino mais um texto.
E assim eu venço mais um dia.
Pode ser que amanhã já não doa tanto.
Pode ser até que já não doa mais.

Tuesday, November 5, 2013

A Mão de Deus em Tibães




(Para Jorge e Anabela)

No aeroporto Francisco de Sá Carneiro, na cidade do Porto, uma voz conhecida faz um “boo” ao pé-do-ouvido, no que me toca o ombro.
Quase dou um pulo, gato velho, ainda sonolento pelas sete horas de travessia do Atlântico e visivelmente baqueado pelas cinco horas de con-fuso horário.
Abraço o parceiro Bispo Filho e ele diz que me reconheceu pelas costas e que eu estou ficando careca, com um cocoruto de frade.
Não foi um começo auspicioso.
Primeiro, meu parceiro de escrevinhações há três décadas, tenta me assustar com um “boo” ao pé-do-ouvido.
Em seguida, assusta-me, de fato.
Vou ao banheiro do saguão do aeroporto, olho-me no espelho assim, meio de ladinho, e constato: estou realmente perdendo cabelo, ali na região extrema do topo.

A caminho da cidade de Braga, na província do Minho, norte de Portugal, somos reminiscência e olhar na paisagem.
Instalamo-nos no hotel Mercure, no centro da cidade, e somos recepcionados à noite pelo poeta Jorge Pimenta e sua bela família.
Bom vinho, boa prosa, excelente comida.
Conheço bem esta casa.
Sinto-me parte deste clã desde que estive na cidade pela primeira vez,  em 2011,  com a esfarrapada desculpa de assistir a um concerto de reunião de uma banda portuguesa.
No que vamos devorando um delicioso arroz de camarão preparado por Anabela (precedido pela antológica alheira de caça, que se registre), vamos tomando conhecimento do nosso roteiro de atividades nos dias que se seguem.
Bispo Filho tem encontro marcado com médicos bracarenses dia sim, dia não. Precisa de acompanhamento em um procedimento iniciado no Brasil. E eu ainda tenho que escrever uns textos para o Brazilian Voice.
Nos intervalos, passeios inesquecíveis por Braga e Guimarães, entrevistas na imprensa local, vinho, presunto, pudim Abade de Priscos, água das Pedras Salgadas e dolce far niente.
O lançamento de Meninos de São Raimundo está marcado para as 21 horas da noite de sexta-feira, 13 de setembro, no Mosteiro de Tibães, em seu recém-inaugurado espaço cultural, no lugar onde um dia foi uma cavalariça.

Eder Asa, amigo mineiro que residiu em Braga, informa-me pela internet que fizemos uma escolha arriscada.
A livraria FNAC, dentro do maior shopping center da região, bem no centro da cidade, é garantia de público. E aquilo ficou martelando minha cabeça, como um sino de igreja anunciando um funeral.
Optamos pelo mosteiro ao invés da livraria e agora é tarde demais.

No dia do lançamento, passo a tarde em Tibães.
A antiga Casa-Mãe da Congregação Beneditina Portuguesa, situa-se a 6 kms a noroeste de Braga, rodeado por plantações de uva e milho. Trata-se de uma imponente construção de 900 anos e que enche os olhos, um lugar erguido para a devoção a Deus e seus silêncios.
Retono ao hotel no início da noite, tomo um banho demorado e encontro-me com Bispo Filho no saguão.

Chegamos ao mosteiro às 20:45, quinze minutos antes da hora marcada e apenas quatro carros ocupam o grande estacionamento.
Faço as contas: um carro é do padre, outro do sacristão, o nosso, e é provável que aquele último, um Renault com placa de Paris, seja de um turista.
Bate uma agonia imensurável e as palavras de Éder Asa reverberam cada vez mais alto, deixando-me resignado com o fato de que o lançamento de nosso tão esperado livro, está fadado ao fracasso logo em sua primeira noite.
Faltam apenas cinco minutos para a hora marcada e observamos um clarão bem ao longe.
Na estrada sinuosa, feita de pequenos sobe-desces, uma espécie de tobogã de asfalto margeado pela vegetação, o olhar se ilumina.
Vemos o primeiro farol de automóvel vindo em nossa direção.

E atrás daquele farol, vem um novo farol.
Seguido de um outro e mais outro e outro mais.
E outros tantos faróis.
Formam um comboio inesquecível, iluminando a noite até pararem, um por um, bem pertinho de nós.
Vamos entrando pela porta principal do mosteiro, revigorados, e as pessoas vão se sentando até que não sobra um único assento vazio na platéia preparada especialmente para a noite do lançamento de Meninos de São Raimundo em Portugal.
Tomamos nosso lugar à mesa e o pião começa a girar.
Um arrepio gostoso toma conta de nós.
Somos tratados como filhos da terra, meninos de Braga, que acabam de testemunhar e viver um pequeno milagre.
E o afeto se multiplica.
Como pães.




Thursday, October 10, 2013

Carta Não Enviada a Um amigo Distante



Newark, um dia qualquer do outono de 2007


 

Zé de São Raimundo,
hoje tive muita saudade de você.
E tive saudade da gente naquele espaço-tempo, e de tudo aquilo em que acreditávamos.

Saudade da nossa juventude e de você com aquele cabelo djavaneado, besuntado de creme japonês, formigueiro andante pelas ruas de Governador Valadares.
Saudade das minhas camisas floridas - vela aberta ao vento -, fita do Senhor do Bonfim no pulso esquerdo, e a incerteza pulsando naquele coração que flertava com o futuro mais oculto.

Num tempo em que vivíamos na poesia, ingênuos, incautos, verdes, nós acreditávamos que sobreviveríamos da palavra e que encontraríamos no ritual de esculpir verbos um meio de vida e sobrevida.
Ledo engano, Zé, como tantos outros.

Achávamos que um governo petista resolveria os problemas maiores do nosso país.
Víamos em Lula a figura de um novo Messias e por incontáveis momentos reconhecemos em José Dirceu a sabedoria de um rei Salomão.
Fomos logrados, meu caro amigo. Feliz ou infelizmente, o tempo é o senhor de todas as verdades.

O PT caiu na vala comum e sei que já não acendemos velas para a estrela solitária.
Perdemos a inocência ao sabor das decepções.
Viver é doce e é amargo, é esta a lição tirada.
E assim vamos somando e subtraindo, botando e tirando coisas do embornal.

Das coisas que me caíram do alforje, a sua amizade e presença constante, estão entre as que mais me fazem falta.
Perdi um referencial, um espelho no qual eu via refletir minha vontade de mudar o mundo. Baixei os braços, Zé.
Quixote sem Sancho, hoje eu toco na banda apenas pelo dever de cidadão. O que é louvável e me deixa honrado da cabeça aos pés. Mas transformei-me num contente.

Mais um.

Sinto falta de nossa amizade. Sinto falta de você em meu cotidiano conflituoso, briguento. Faz me falta o ofício de sonhar. Faz-me falta a luta.
Ao meu modo, venho vencendo a peleja pelo pão e pelo conforto. Tenho consciência disto. E gratidão.
Sempre tive certeza de que conquistaria isto (mesmo nos dias mais chuvosos!) e, apesar de minha preguiça, indisciplina e limitações mais gritantes, o fracasso já não é uma possibilidade, posto que estou no lucro faz muito tempo.

Mas, eu lhe confesso, caro amigo, que de vez em quando, adormeço com o céu azul de Minas Gerais nas retinas. E sonho com as muriçocas de São Raimundo, os lambaris da Biquinha, o ardido da pinga de Coroaci, a névoa aos pés da santa anunciando a chuva e a água cor de barro do 'rião' que ainda desliza em direção ao Espírito Santo e ao mar.

Quimera?
Quem me dera, amigo Zé.

Quero te ver em breve, se a vida assim nos permitir. Vá guardando a cachaça, que eu providencio o tira-gosto para a prosa da boa.

Vê se não some mais.

Abraço e amizade perene do

 

Roberto.

 

Wednesday, September 25, 2013

Bracara Augusta



(Como se lhe escrevesse uma carta)



Depois de tudo, amigo Jorge Pimenta, ficou este meu olhar "esbragaçado", bracarense e nada (nunca mais) será o mesmo.
Eu sei.
Não será mais o mesmo e nem esta nossa amizade, mesmíssima, que já existia muito antes do primeiro contato, do apertar de mãos.
Certas pessoas a gente não conhece.
A gente as re-conhece e elas ficam para sempre.
Como para sempre fica, também, aquela sensação de deja-vu logo à primeira mirada, 'un ange passe', e todas as tardes que se evaporam como éter desde então.
Porque as tardes foram feitas para os amigos compartilharem uma cerveja encostados ao balcão de um bar, dividindo uma fatia de presunto e pão saloio, como se fossem vinho e hóstia, de tão sagrada que é a amizade.
Mas o espaço é navalha.
Espaço e tempo.
E fica agora este oceano entre nós, a separar abraços, proibindo tremoços, secando chopes, enfumaçando a paisagem.
Eles emudecem até os nossos gritos de gol, guardando a camisa encarnada - aquela bandeira balançando ao vento lusitano - que trepidava no cume mais alto de nossas devoções.
O tempo é cruel, sim senhor.
Este tempo que nos irmanou, vida adentro, e que agora parece ter ido morar fora do relógio.
Nada permanece igual depois de mexido, disseste-o tão bem.
E nada - nunca mais - será o mesmo, porque é impossível arrancar este cheiro da Bracara Augusta que veio grudado em minhas retinas, epiderme e roupas.
O cheiro desta cidade que veio dentro de minhas malas e até da bagagem de mão.
Transformou-se o meu olhar turista.
Libertou-se o caminhar cigano.
Hoje reside em mim uma espécie de calma, que emancipa inevitáveis cansaços de homem ainda trabalhador e me remete ao Minho.
O cheiro desta cidade, que agora se incorpora ao meu cheiro, hálito e jeito de ver a vida.
Este cheiro de mofo e tempo, que vive dentro do mosteiro secular.
Este cheiro de cascas de tangerina.
Porque existe, agora, um cheiro bracarense no jeito com que leio a vida.
No jeito com que sinto as coisas.
Uma espécie de aroma de sardinhas se contortorcendo nas brasas ou o vento perfumado que foge da plantação de eucaliptos, na encosta do morro, e vem morar dentro dos nossos pulmões.
E é aqui que tudo fica claro como a memória desta luz perene, solene, luz no vitral atravessando o átrio e iluminando a estufa onde dorme, eterno, São Clemente.
Tudo fica definitivo, como aquela casa abandonada na curva à caminho de seu bairro, os azulejos portugueses sendo domados pela vegetação daninha, lenta e invasora.
Como a água seca da Fonte do Ídolo, as ruínas romanas que moram debaixo de seus pés.
E os seus pés.
E tudo ficou para sempre como as fachadas barrocas das igrejas, o orgulho de ser de Bracara Augusta, o olhar manso de suas gentes e o burburinho dos cafés.
Às vezes, tudo é para sempre, poeta de Mire de Tibães.
Sempre.
Ainda que só de vez em quando.
Foto da "Casa da Curva", de Jorge Pimenta, para quem escrevi e dedico esta crônica.

Sunday, September 22, 2013

O dublê



Dublê é aquele indivíduo que faz as cenas perigosas dos filmes de cinema e televisão.
Acho que toda pessoa deveria ter o direito a um, mocinhos e mocinhas que somos, dos filmes de nossas vidas.
As mulheres, por exemplo, poderiam ter sua dublê naqueles dias do mês.
A dublê sofreria as agruras da TPM e passaria todo o ciclo menstrual no pequeno inferno astral que acomete todas as Penélopes do mundo.
Na gravidez, a dublê seria fundamental.
Enquanto a dublê estivesse engordando, ganhando estrias e tendo desejo de comer doce de jaca às duas da manhã, a mocinha estaria se bronzeando em Bali.
Quando um político tivesse que ir a uma coletiva para explicar um escândalo como o do mensalão, o dublê iria em seu lugar.
O dublê responderia às perguntas irritantes dos jornalistas.
O dublê se constrangeria.
O dublê receberia as vaias na saída.
Enquanto isto, aquele que ele estiver representando poderá estar numa igreja rezando, pedindo perdão a Deus. Ou fazendo mais uma negociata, conforme for a sua vontade.
Ao dublê do goleiro que leva um frango, estariam reservados os apupos.
Ao similar do amante que falha na hora do amor, a frustração, as mãos à cabeça e a obrigatoriedade do bordão "isto nunca me aconteceu antes"...
Ele buscaria a sogra no aeroporto às cinco da manhã. E conviveria com ela pelos próximos cinco meses.
O dublê levaria o pé-no-traseiro, da namorada.
Ele encontraria, na cama, a esposa infiel e seu amante.
Dublê de sujeito casado com mulher feia, ou vice-versa, receberia em dobro.
Vida de dublê não é fácil.
Mas o meu não teria grandes assombrações. Não teria que se atirar de penhascos, saltar de paraquedas ou participar do capotamento de um veículo durante intensa fuga policial.
Mas seria a ele seguir as recomendações do meu médico.
Ele comeria os vegetais e as frutas diariamente.
Ele caminharia os 5 quilômetros receitados todas as manhãs.
Ele faria a dieta.
Ele ficaria abstêmio.
Enquanto isto, eu estaria em meu bar favorito, comendo picanha, lingüiça, bebendo chope gelado e fumando uns cigarrinhos.
Meu dublê amarraria meus sapatos, todas as manhãs.
Ele faria o tratamento de canal, no dentista.
Ele iria ao proctologista todos os anos, fazer ‘aquele exame’ de rotina.
Afinal, já passei dos quarenta.
Ele me representaria em almoços realizados em restaurantes vegetarianos e beberia cerveja sem álcool.
Ele assistiria todas as derrotas do meu time.
No show de Zezé di Camargo e Luciano em Jaguariúna, imposição de um compromisso profissional meu, ele injetaria breganejo nas veias.
Ele votaria em Lula.
Ele faria aula de dança de salão e saxofone, duas frustrações, dois desejos meus, não realizados por mera preguiça.
A coisa só se complicaria um pouco mais para o lado dele, quando chegasse a minha hora de partir dessa pra uma pior.
Enquanto Ele estivesse prestando contas a Deus pelos pecados que cometi, Eu estaria em casa, largadão no sofá, lendo um livro, ou simplesmente exercitando os dedos no controle remoto da televisão.