Thursday, December 31, 2009

A certa altura da vida começamos a aprender
a esperar o tempo. A certa altura da vida o que
nos mata não são as horas. O que nos mata são
as palavras e a ausência de palavras.

Baptista Bastos

*

Wednesday, December 30, 2009

.



A solidão dos domingos

Ontem foi domingo. Um domingo plúmbeo, que nem de longe se deixou transparecer um domingo de verão. Quase enlouqueci.
Acho que o fato de ter sido véspera de feriado também ajudou, transformando as ruas de Kearny num pavilhão de escombros. Fiquei inconsolável com o panorama que se desenhou diante de meus olhos.
Da janela do apartamento, vislumbrei o manto cinza que cobria a tarde, trazendo a reboque a lembrança de muitos outros domingos melancólicos de minha vida.
Sempre vi o dia em que Deus descansou de uma forma morna, ressaqueada, como se algo tivesse se quebrado, ou reerguido das cinzas, dentro de mim.
Essa foi sempre a percepção.
Em alguns domingos, penso que o mundo vai se esvair em marasmo e melancolia.
Em 1986, aos 23 anos de idade, escrevi um livro de poesias, que batizei de “Tango Fantasma”, título de um dos poemas da obra.
No poema aludido, eu falava exatamente da solidão de um domingo qualquer, que nascia parido da solidão de outros tantos domingos, e de um sujeito que perdera a esposa e a amante durante um único ciclo de sete dias.
Lembro-me que escrevi esse poema num domingo à tarde, após retornar de um almoço na casa do poeta Marcos Pizano.
As ruas de Governador Valadares estavam desertas e, tão logo tomei o ônibus para o bairro de São Raimundo, tive uma forte impressão de que havia entrado num trem fantasma.
Apenas o motorista e o trocador fizeram-me companhia durante toda a viagem, o lotação saltando feito um cabrito ensandecido sobre a estrada esburacada.
No alto-falante do teto do ônibus, a voz de Chico Buarque cantava:
“Ó pedaço de mim ó metade arrancada de mim”...
Cheguei em casa aos frangalhos, sentindo o peso de uma barra pesadíssima que aquele domingo implacável havia jogado sobre mim. E nunca mais me curei.
E assim continua sendo, tanto tempo depois, os domingos se repetindo com os mesmos contrastes, escrevendo minha história com pedaço de carvão sobre uma superfície de pedra.
Para mim, o domingo será sempre feito do programa Globo Rural, tendo, na sequência, Rolando Boldrin apresentando modinhas de viola e contando “causos” no Som Brasil.
Meu domingo terá Ayrton Senna da Silva, incólume com seu macacão e capacete impecavelmente limpos, ultrapassando mitos, acelerando seu nome nas páginas do esporte.
Afinal, domingo sem Galvão Bueno cuspindo bairrismos ao microfone serão ilegítimos.
E é por isso - e por muito mais -, que meus domingos serão sempre de almoço em família.
Domingo de irmã chegando com filho pequeno no colo, de mãe mexendo a comida no fogão, e de sobrinhos indomáveis correndo pela casa, como se ali fosse o pátio da escola durante o recreio.
Meus domingos foram, são e serão, sempre, de macarronada, de frango assado com farofa, de empadão de camarão, e de salada de legumes cozidos com maionese.
Meus domingos terão Sílvio Santos na televisão:
- Quem quer dinheiro?
Terão, também, partidas de futebol, cerveja espumosa transbordando pelos copos e escorrendo em rios que jamais desaguarão em lugar algum.
Serão domingos de clássico no Mineirão, sem nenhum grito de gol que nos redima e reconduza à glória.
Domingos como os de sempre,com folhas de jornal previamente lidas, amassadas, levadas pelo vento no bojo das tardes abandonadas.
Esse abandono com cara de ‘nunca’, semblante de ‘jamais’ é igual para todos nós. E ele se repete semana após semana, e tem o gosto requentado do jantar de ontem.
Sabemos, sempre, que o próximo virá vestido de um até breve e, como este que agora escorre entre nossos dedos, terá trejeitos decadentes de fim de festa. E essa é a nossa única certeza.
O fim da festa, moça. O fim de tudo, rapaz.
O viver verdadeiro, pleno e feliz, esse quase-milagre, só chegará amanhã, com o clareamento do dia, o corre-corre dos transeuntes e as buzinas dos automóveis nos ensurdecendo pelas ruas.
Segunda-feira não é mais o fino da fossa.
Segunda-feira é o berço da ressurreição da raça humana.


*

Monday, December 28, 2009


Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony



Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964

Saturday, December 26, 2009

.

















Tramas de um tema fugidio

Nem sempre quem vive do ofício de escrever consegue traduzir em palavras as suas visões, obsessões e sentimentos. Já me frustrei em várias situações, vendo-me obrigado a enterrar temas que julgava bons.
Alguns eram de cunho pessoal, outros meramente circunstanciais.
Os circunstanciais costumam passar.
Os de cunho pessoal, não.
E ficam ardendo em quem não teve lastro para parir seu invento, marcando na pele da alma como se ferro quente fosse.
Quando minha avó paterna morreu, eu quis escrever uma crônica declarando a ela todo o meu amor.
Tínhamos uma história maior do que aquelas normalmente inerentes - e que já são imensas, por si - a uma avó e seu neto.
Eu, que nasci à luz de uma lamparina numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, tive em Ana Emília a parteira.
Foi por suas mãos que vim ao mundo.
Ela foi a primeira pessoa a me tocar e a embalar um choro meu.
Cresci apreciando seus frangos ao molho pardo, seus biscoitos de polvilho e a habilidade de alinhavar versos de encantadora pureza.
Acho que meu gosto pela poesia veio dali, daquelas singelas trovinhas de Ana Emília.
Mas Ana Emília se foi.
Ao contrário de tanta gente que pede a conta da vida, paga e sobe, contente, Ana Emília driblou, o quanto pode, o “garçom” da vida.
Tinha 104 anos quando se viu obrigada a assinar a fatura.
Deixou saudades, lições preciosas, e uma lacuna impossível de ser preenchida.
Senti tanto sua morte, que não logrei escrever absolutamente nada que traduzisse o que sentia - e sinto - por ela.
Sentava-me à frente do computador e não conseguia digitar mais do que meia dúzia de frases.
Lia em voz alta, relia, tentava costurar palavras às emoções e apagava tudo, logo a seguir.
Mais de um ano depois de Ana Emília nos ter deixado, vira e mexe, a vontade de escrever alguma coisa para ela renasce. E me ilude, uma vez mais.
Como uma brasa acesa pela brisa da saudade, a fogueira da inspiração até chega a se insinuar.
Mas aí bate um vento mais forte que a tudo apaga, bloqueando os sentimentos.
E uma chuvinha fina, a do desânimo, começa a respingar sobre as idéias, arrefecendo o desejo de homenagear minha avó.
E esta não é a única frustração que carrego neste, digamos, “departamento”.
Existem outros temas que também não foram bem resolvidos, mas que precisam ser.
Durante um bom tempo de um tempo bom de minha vida, pensei em escrever uma história de amor.
O palco: Santana dos Ferros, terra de Roberto Drummond, uma figura definitiva em minha trajetória de operário da palavra.
Como um pupilo que provocasse o mestre, eu queria surpreender Roberto, que tinha obsessão pela morte. Seus livros evocavam isto:
Quando Fui Morto em Cuba, A Morte de D.J. em Paris, O Dia em que Ernest Hemingway Morreu Crucificado, Os Mortos Não Dançam Valsa, sua última publicação, atestam bem essa obsessão.
E eu queria algo que evocasse e celebrasse a vida.
Uma estória que, ao contrário das suas, tivesse um final feliz.
Uma estória simplória como a água da chuva, cuja sofisticação residisse justamente nessa singularidade.
Não haveria eletrizantes perseguições policiais, mas uma charrete rodando numa estrada de pé-de-moleque, ao som da percussão das ferraduras batendo nos cubos de pedra.
Ao invés de ditadores e agentes de espionagem truculentos dos seus romances, crianças correndo pelo jardim forrado de margaridas, lírios e jasmins.
Ao contrário de seus assassinos de aluguel, seresteiros.
No lugar do estampido de tiros de pistolas, metralhadoras e revólveres dos seus livros, a suavidade de cavaquinhos, bandolins, violões e flautas.
Na contramão dos golpes de estado, saraus.
E uma lua cheia cuja luz atravessasse a vidraça e a cortina do quarto desta aludida casa das margaridas, e iluminasse um casal trocando beijos e juras de amor eterno.
Mas sei que Roberto Drummond acharia essa idéia ingênua demais.
"Não vai vender nem para a sua própria família", imaginei sua voz ao meu ouvido.
Ele certamente não me permitiria escrevê-la, até o fim.
Meu mestre sempre preferiu beber da água turva do caos.
Ou a morte pela sede, com a dramaticidade apropriada de um personagem seu.

Nota de rodapé:
Certa noite, em BH, comecei a falar desse impossível futuro romance para Roberto e ele me pediu que parasse de contar, imediatamente. E argumentou:
- Páre, ou você terá que me matar aqui mesmo. Se me contar mais uma palavra, começo eu mesmo a contar esta estória quando chegar em casa. E dou um jeito de avacalhá-la com algum incesto, alguma vingança de família, algum corruptor...
Menos de um ano depois, Roberto morreria, de ataque cardíaco, horas antes do jogo Brasil X Inglaterra, naquela copa do mundo disputada na Ásia.
Meu amigo, meu mentor e parceiro de chopes e quimeras também deixou uma lacuna impreenchível.
Ao contrário de minha avó, escrevi uma dúzia de crônicas relembrando momentos nossos, esmiuçando essa saudade que nunca terá um fim

*
Quem faz um poema abre uma janela.

Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.

Por isso é que os poemas têm ritmo

- para que possas profundamente respirar.

Quem faz um poema salva um afogado.

Mário Quintana

*

.


Ponto de Encontro

(Milton Nascimento e Zé Renato)

Corro ao portão
Que esperança
Correio já passou e não deixou nada
Segura essa coração
Vamos ver se amanhã a coisa...muda
O telefone diz
A voz é outra...
Fala do trivial
Não faz mal. Agrada...
Olhar não mente e se mostrou
Narrando uma ansiedade
Quase louca
É muito amor que se viveu
Pra se apagar na sombra
Da saudade... Que saudade

Onde se perdeu...
Onde se esqueceu...

Tudo tem seu momento, é tudo ou nada...
E lá no fundo sei talvez seja tarde
Só a imagem que ficou
Virá me visitar o pensamento
Virá me embriagar de fantasia
O teu perfume então estará na vida
A hora certa já passou
E o tempo não curou essa ferida
O muro cresce já subiu
E corro atrás da porta de saída...
A saída...

De te respirar...
De reconquistar...
De te respirar...
De reconquistar...

Corro ao portão, que esperança.
Correio já passou e não deixou nada
Segura essa coração, vamos ver se amanhã a coisa muda.

.

Friday, December 25, 2009

.

No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:
um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

(Mário Quintana)