Wednesday, September 24, 2014

Uma invenção do demônio


(Para Fabio Portugal)
 
 
Comecei com um uisquinho sem compromisso.
Fim de expediente, dia chato no escritório, aquele drink serviria para relaxar e eu ainda chegaria à casa a tempo de jantar.
Não deu nem para o começo. A sede era funda e pedi mais um.
E depois outro. E mais outro.
Aí apareceu um conhecido, que falou de uma cerveja belga maravilhosa, pela qual ele acabara de se apaixonar.
Sabe aquela loura gelada? – ele perguntou.
- Então. Aquela!
E continuou como se fosse um vendedor de carros falando do último modelo da Ferrari a um aficionado:
- É ela.
Molhou a palavra na tal loura e prosseguiu:
- É ela, só que mais gostosa, perfumada, acetinada, e desce como se fizesse um carinho na pele da gente. Só que por dentro.
  
Decidi que tinha que conhecer a tal loura que fazia um carinho por dentro da pele.
Virei o uísque de uma talagada só, chamei o garçom e lá fui trocar uns carinhos com a loura.
Devia ser boa.
Afinal, nove dólares por uma garrafinha de 600 ml, ela tinha que ser.
E era realmente muito boa.
Aí me atraquei com ela, e ela comigo. Foi amor ao primeiro gole.
O calor insuportável clamava por mais dessa maravilha belga.
Reparei que os donos dos bares e restaurantes desligam o ar-condicionado e mandam os cozinheiros exagerarem no sal e na pimenta dos petiscos nestes dias mais quentes.
Pedi a saideira e um táxi, porque não me sentia apto a dirigir até em casa.
O jantar em família havia ido para as cucuias e tratei de ir logo para o quarto. O trajeto até o segundo andar fez com que eu me sentisse ligeiramente zonzo e nauseado.
Despi-me - isentado do banho - e horizontalizei.
Mal me deitei, a cama deu de rodar.
- Que diabo é este? - perguntei a ninguém.
E ela rodava como se fosse um relógio e eu o seu ponteiro. E numa velocidade de ventilador.
Não sei quando parou o homem-ventilador.
Mas demorou uma eternidade.
  
Acordei com a cabeça oca como um abacate, os miolos chacoalhando como se fossem a semente.
Pus-me de pé, heroicamente, e arrastei o cadáver até o banheiro.
Uma vez lá, deixei a ducha fria correr sobre a minha miséria.
Maldito sujeito que inventou tudo isto, pus-me a pensar.
Quem inventou a ressaca inventou as piores coisas desta vida.
Ele inventou o imposto de renda, o trânsito de São Paulo, a Festa de Barretos e Zezé di Camargo e Luciano.
Inventou o sertanejo universitário, a broxada,  a ejaculação precoce e o zero a zero no futebol.
 Ele inventou Galvão Bueno, o uísque paraguaio, o cecê no transporte coletivo, a calvície e o horário eleitoral na televisão.
Inventou os jogos do Campeonato brasileiro às 10 da noite, principalmente às quartas-feiras.
 Inventou ainda a fila de banco, a repartição pública e o mau-humor das pessoas que trabalham nestes departamentos.
E inventou também o gosto do boné do chapéu do maquinista do trem.
O gosto do cabo de guarda-chuva.
E da tábua de chiqueiro de porcos, que fica na boca quando acordamos ressacados, achando que um pedaço da gente prescreveu.
Quem inventou a ressaca inventou um verdugo e o soltou dentro de nossas consciências para que ele nos faça jurar, a cada pileque, que nunca mais beberemos.
Sim, eu juro.
Eu prometo.
Eu nunca mais beberei.
 
 
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Thursday, September 11, 2014

No dia 11 de Setembro


Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.

No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.

Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada avenida londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.

Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.


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Saturday, August 2, 2014

Vis perdões


Perdoar é dificílimo. Ser perdoado, uma dádiva.
E eu perdoo.
Saio por aí perdoando incondicional e deliberadamente numa tentativa de, talvez, ser perdoado também.
Portanto, eu perdoo você e suas pequenas mentiras.
Suas grandes mentiras.
Suas mentiras de todos os tamanhos.
Perdoo até as mentiras que você ainda não contou.
Portanto, todas as falácias estão devidamente perdoadas.
Assim como as promessas de campanha, promissórias afetivas, seus ‘eujuros’.
Perdoo a nudez fingida, os seios oferecidos na transparência de geometrias infelizes e seus trejeitos de Catherine Hepburn.
Perdoo suas ancas escandalosas e seus triângulos isósceles.
E seus gozos de festim.
Perdoo suas luas de Caran d’Ache, seus abismos de prata e cada estrela de papel.
Perdoo os seus vermelhos.
E todos os tons de azul.
Perdoo suas nuvens vazias de chuvas, os relâmpagos de araque e trovões de tambores sem terreiro.
Perdoo a fome e a injusta distribuição, como perdoaria Drummond.
Perdoo seus minuanos, seus tsunamis e cada terremoto de bolso.
Perdoo os raros dias de sol e sua ausência de verões.
Assim como o cheiro de bolor que vem dos seus armários e o hálito adormecido de cada fantasma da sua coleção.
Perdoo a brisa do nunca de Havana, o calor improvável de Varadero e as ruas sujas do Malecon.
Perdoo seus boleros, suas rumbas e suas dores de corno.
Perdoo os seus punhais.
Perdoo estas bandarilhas em minhas costas sangradas.
E esta sangria desatada.
Perdoo cada pecado capital e até o seu excesso de zelo.
Perdoo as suas carências.
A sua falência de caráter também está perdoada.
Como perdoados estão os seus cactos, os espinhos dos seus cactos e o deserto que mora dentro de você.
Perdoo cada beijo amargo, sua saliva de bílis, esta overture de jiló.
Perdoo você como quem perdoa Judas.
Perdoo, principalmente, seus pra sempre.
E seus jamais.


Foto de Ken Cedeno:
Casa destruída pelo furacão Sandy em Union Beach-NJ (Outubro de 2012).

Monday, July 28, 2014

Curiango


João-sem-braço
, gritam os moleques na rua.
Ele baixa a cabeça – envergonhado  -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.
O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.

A certidão atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia, quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a saber que  sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até fincar estaca em Valadares.
O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio. 
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele  caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava  em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela. 
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.

Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele não teve.
Namorada, não conseguiu.

Ele não havia nascido para o amor. 

Era tão feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca.

Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado  e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12 horas por dia ele  moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma cidade. Um país.

No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.

Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem -  por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
    
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
    
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
    
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
   
-          Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
    
Sozinho, não: com o “companheiro”.


    
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
    
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
   
-   Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
    
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
   
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
   
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.

Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
       A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria. 
Diabolicamente, como é de seu feitio.


* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório

Tuesday, June 10, 2014

Os recortes que guardo em mim

 
Guardo recortes de copas do mundo em minha memória. São imagens que fui acumulando através
dos tempos e que permanecem intactas, pristinas, imortais.
Alguns destes recortes eu vi naquilo que aconteceram, em tempo real. Outros, recorri aos arquivos da televisão.
Comecei a coleção na copa da Suécia, em 1958, quatro anos antes de eu nascer.
E o primeiro recorte traz o menino Pelé dando um chapéu, dois chapéus - uma chapelaria - dentro da área sueca e fuzilando o goleiro.
 A segunda traz o mesmo menino chorando, como se tivesse perdido alguém da família, mas era um choro de felicidade.
 Aos 17 anos de idade o menino de Três Corações era campeão do mundo. Ele já era rei.
Guardei também os dribles desconcertantes de Garrincha naquela copa, entortando joões de todas as raças.
Tudo o que veio depois destas imagens é cereja sobre o bolo, é azeitona em meu pastel.
 Como esta recolhida da copa de 1962, no Chile, toda a malandragem de Nilton Santos que, após cometer pênalti sobre o atacante espanhol, dá dois passinhos para fora da área, rápidos e discretos, ludibriando o árbitro, que marcou falta.
 De 1966, na Inglaterra, guardo pouca coisa.
 Guardei a entrada criminosa de Coluna em Pelé. Guardei o antifutebol, a violência daquela caçada em campo, antítese do que deveria ser o futebol.
 Pelé foi retirado do gramado e muitos portugueses comemoram aquele ato de violência como se fosse um gol do título.
 Não era. Não foi. Não é.
 Acabaram perdendo para os ingleses. No raso, achei bom. Nenhuma equipe merece vencer uma competição praticando o antijogo.
 Da copa de 1970 guardo tudo. Guardo os nomes Jalisco e Guadalajara, por exemplo. Guardo até gol que não foi gol. Três gols que não foram gols.
No primeiro deles, Pelé chuta do meio de campo, tentando encobrir o goleiro da Tchecoslováquia, que volta desesperado para a meta, a bola voando insinuante e perigosa, até cair detrás da trave.
No segundo não gol, Pelé dá um drible sem bola no goleiro uruguaio Mazurkiewicz e chuta cruzado, com o gol vazio, a bola caprichosamente passando ao lado.
 No terceiro, uma das defesas mais espetaculares e milagrosas que já testemunhei:
Pelé cabeceia certeiro, no chão, à queima-roupa, mas o legendário arqueiro Gordon Banks se espicha todo, puro reflexo e arrojo, evitando o gol.
Da copa de 1974 ficou a imagem da anarquia disciplinada da laranja mecânica de Rinus Mitchels, quebrando todos os padrões táticos jamais vistos até então.
Ao lado da seleção brasileira de 1982, o escrete de Johan Cruijff e Johan Neeskens entrou para a estória como o time de futebol mais bonito, aquele que convenceu, mas não venceu.
Ficaram na memória as mãos imensas do goleiro Sepp Maier, a elegância de Beckenbauer e a ausência do Rei.
 De 1978 ficou o branco do papel picado salpicado sobre o verde do gramado durante a copa que a Argentina ganhou no grito.
 E o vento que ventava raivoso, patagônico, vento encomendado por generais, como aquele placar dilatado da vitória dos anfitriões sobre o Peru, e que tirou o Brasil da final.
 Ficou a curva da bola no chute de Nelinho contra a Itália, no jogo que valeu o terceiro lugar. Dino Zoff se espichando todo, arqueando como um peixe, mas que de nada adiantou. A curva  feita pela bola foi um fenômeno impossível. Um dos gols mais inesquecíveis de um mundial.
De 1982 ficou tudo, e esta mistura de prazer e dor que ainda hoje me fazem contorcer, ora de gozo, ora de agonia e sofrimento.
 Ficou o frango de Waldir Perez diante da Rússia, as jogadas geniais de Zico e Júnior e os passes de Sócrates, usando o calcanhar.
 Ficaram os três gols de Paolo Rossi, esta eterna viagem a bordo de um trem fantasma, uma ferida aberta que o tempo não curou.
No retorno ao México, em 1986, foi mais do mesmo. Só que menos e menor.
 Principalmente, ficou o pênalti que Zico errou diante da França, minutos após ter entrado no jogo.
Em 1990, foi como se não tivesse havido Copa. Não ficou sequer o gol eliminador de Claudio Caniggia.
Da Copa seguinte, disputada aqui nos EUA, ficou a imagem de Bebeto, marcando gols e comemorando como se embalasse um bebê.
De 1998 guardei a convulsão de Ronaldo a poucas horas da final. E Roberto Carlos ajeitando o meião enquanto a anfitriã fazia 2 X 0.
Em 2002 aconteceu a primeira copa sediada por dois países. Ronaldo inovou com aquele topetinho à moda do personagem Cascão, de Maurício de Souza, e fez uma dupla preciosa com Rivaldo. Mas nada me marcou tanto quanto o jogo contra a Inglaterra.
Galvão Bueno anunciou no intervalo da partida a morte de Roberto Drummond, uma mistura de amigo e mentor meus.
O Brasil virou o jogo com um gol espírita de Ronaldinho, cobrando uma falta de muito longe, descrevendo uma curva de arco-íris e morrendo no fundo das redes de Seaman.
 Até hoje acho que teve uma mãozinha de Roberto Drummond naquela jogada. Quando nada, um sopro de seus pulmões.
Não guardei absolutamente nada da Copa da África do Sul e hoje, quatro anos depois, desta que se inicia em poucas horas pode ser que guarde uma ou outra gema garimpada da grama.
Aconteça o que acontecer, minhas roupas já cheiram a gás lacrimogênio e a alma parece ser feita de chumbo.
Ficarão esta vergonha, os elefantes brancos no norte e centro-oeste, obras inacabadas de cabo a rabo, sorrisos blasés, alguns gaiatos mais ricos e uma mancha perene na nossa história.
Muito mais do que na minha história.
Na história do meu país.

Tuesday, June 3, 2014

A janela mágica


 
A primeira vez que ouvi falar em copa do mundo foi em 1970. Tinha 8 anos de idade e em São Raimundo havia 4 aparelhos de televisão, ou televisores, como chamavam alguns.
Se não me falha a memória, foi o primeiro ano em que se transmitiu alguma coisa em cores no mundo, com aquela Copa  disputada no México.
Nenhum dos quatro aparelhos existentes era em cores, mas estava de ótimo tamanho, mesmo a imagem não sendo lá grande coisa e o vento mudando de vez em quando a qualidade da imagem.
‘Chuviscava’ muito nas telinhas de então.
Na Rua Topázio, na casa de Dona Núbia e seu Noca, passava Bonanza, Forte Apache, Terra de Gigantes, Túnel do Tempo, Perdido no Espaço e Viagem ao Fundo do Mar.
Passava um mundo feito de encantamento e magia, que não consigo descrever em palavras, por mais que tente convencer minhas filhas de que antes do videogame, existiu a televisão.

Não dava para colocar a rua inteira na casa dos Novais e Dona Núbia, generosa, abria a janela, para a molecada assistir, ainda que do lado de fora.
Amontoados uns sobre os outros, na ponta dos pés ou sobre tijolos catados em terrenos baldios, nós nos espremíamos por um pedacinho de tela.
Um cotovelo aqui, um ombro se esgueirando ali, ninguém brigava.
Ninguém reclamava, com medo de perder o lugar no futuro.
Um dia, menino de sorte que sempre fui, fui convidado a entrar e me sentar entre os filhos do casal. E nunca mais saí de lá. E nem aquela sala saiu de mim.
Eu já gostava de futebol, claro.
Jogava com os meninos na rua e queria ser Pelé.
Depois quis ser Tostão e Jairzinho, o Furacão. O time montado por João Saldanha era tão bom, que eu não me importava em ser Clodoaldo, Rivelino ou Gerson, o canhotinha de ouro.
Poderia ser até Wilson Piaza, capitão do Cruzeiro do meu coração.

Apesar de muito menino, lembro-me muito claramente de tudo o que me cercava naqueles dias.
Eu era obviamente muito novinho para entender que o país vivia sob uma ditadura militar e que o futebol, o ópio do povo, era uma eficiente ferramenta do regime para acalmar os ânimos. O futebol tem esse poder, pacifica e inflama.
E, no Brasil, não sei explicar o porquê, ganhou contornos muito diferentes mesmo dos lugares onde a paixão pelo esporte é igualmente inexplicável.

Lembro-me do foguetório a cada vitória, dos relatos no radio e do burburinho na mercearia, os adultos recitando jogadas, cantarolando gols que nem todos viram, mas ouviram pelas ondas do rádio.
A Copa seguinte eu veria em casa, praticamente sozinho, num aparelho preto e branco de segunda-mão, que tinha o auxílio luxuoso de uma tela degradê, que mais se pareciam a uma lasca do arco-íris.
E nunca mais parei de acompanhar o Brasil nas Copas do Mundo.
A de 1982 foi a que mais doeu, mas foi também a que me deu maior prazer.
O Sarriá é meu Maracanazo, mas é também meu estádio Azteca de 1970, palco da primeira vitória.
E é muito mais.
Só não foi a minha primeira. Isto é que não foi.
Quarenta e quatro anos depois daquele momento marcante em minha vida, o Brasil recebe uma Copa do Mundo e eu não vou estar presente.
Não vou por opção. Muito mais do que isto, não vou por convicção.
A janela da sala de Dona Núbia já não existe mais.
Onde um dia existiu uma casa, existe hoje uma loja de material de construção.

Tuesday, April 15, 2014

O primeiro Shopping Center


(Para Juliana Vinagre)

José Roque sofria de vitiligo e as manchas brancas já tinham consumidos as mãos morenas, espalhando-se pelos cotovelos e pela parte de inferior do pescoço, o que dava-lhe um aspecto de gato malhado, destes de rua.
Andava sempre arrumadinho, sapatos lustrados, cabelo penteado de lado e engomado com loção Trim.
Ele não era, definitivamente, um Zé qualquer.
A Venda do Zé Roque ocupava toda a parte da frente da construção, uma casa larga pintada de amarelo, com telhas cumbucas esparramadas como num acento circunflexo. Na parte de trás vivia uma viúva e seus filhos já graúdos, todos imprestáveis.
Duas portas de madeira, grossas, davam acesso para quem vinha da rua.
Ao lado de uma destas portas tinha um galinheiro onde ele, aos fins de semana, expunha garnizés e galinhas caipiras.
Na parede tinha um cartaz de propaganda dos cigarros Hollywood e a frase “Ao Sucesso”. E uma bexiga de salame do tamanho de um extintor de incêndio.
O balcão de quase cinco metros de largura tinha uma vitrine e guardava tesouros: marta-rochas, pães de sal, tatu, jacaré, sovado e doce, além de tarecos, bolos-estrela e de fubá, biscoitos de polvilho e quebra-quebra, e brevidades.
Para os que bebiam uma branquinha, havia sempre um torresmo, um chouriço de sangue, uma carne de panela ou um pedaço de dobradinha, que eram para ‘tirar o gosto’. Atrás da porta do lado direito era o ofertório, onde era despejada a parte “do santo”.
Em cima do balcão ficava uma balança Filizzola e pesos de diferentes tamanhos. E folhas de um papel pardo, que o Zé usava para embrulhar as compras.
Na prateleira atrás do balcão ficavam garrafas de conhaque de alcatrão de São João da Barra, Jurubeba Leão do Norte, cachaça das marcas Praianinha e Tatuzinho, cera Parquetina para lustrar o assoalho, água sanitária Globo e álcool.
Em cima do balcão – em forma de trapézio – havia um varal onde ele dependurava linguiças defumadas.
Nos sacos de estopa – ou algodão – colocados em um dos cantos da venda, eram expostos os grãos da casa, produção de agricultores ribeirinhos: milho, feijão, arroz, canjiquinha, fubá e açúcar.
Zé Roque tinha também fumo de rolo, palha de milho para cigarro e canivete com cabo de osso ou de chifre de boi.
Num gavetão do lado esquerdo do balcão ele estocava pedras de naftalina para combater traças, latas de creolina para desinfetar ferida de animais e tabletes de anilina, que as lavadeiras usavam para clarear as roupas.
Na venda havia ainda latinhas de pomada minâncora (uma maravilha no combate da velha sudorese, o conhecido “cecê”), polvilho antisséptico Granado (muito bom para combater chulé), talcos de três qualidades, sabonetes Lux e Gessy.
Para curar as dores do mundo ele tinha comprimidos de Cibalena, Neovalgina, Melhoral, Sonrizal, pílulas De Lussen e Regulador Xavier.
Zé Roque oferecia Neocid para exterminar piolhos e espirais e Detefon para espantar pernilongos. E, claro, bombinhas flit, artesanais, feitas de lata, como os carrinhos – brinquedos dos meninos – e seus pneus recortados de velhas sandálias havaianas.
De lata e artesanais também eram as lamparinas, os lampiões e os cortadores de feijão.
Para as donas de casa ele tinha vassoura de piaçava e espanador de penas.
Para outros fins ele tinha esteiras feitas de tabuá e varas de pescar, de bambu e ubá.
Tinha anzol, chumbada e linha de pescar e de costurar. E chumbinho para as espingardas de ar-comprimido, usados no caçar.
Num canto, à esquerda da venda, Zé Roque mantinha uma espécie de montra, onde ele expunha tomates, cenouras, laranjas, bananas, legumes quase sempre murchos e mosquitinhos.
E duas bacias de água sempre clarinha onde nadavam molhos de coentros, salsinhas, cebolinha, alface e couve.
Quem tinha dinheiro, comprava. Quem não tinha, comprava também.
Zé Roque anotava tudo na sagrada caderneta, um caderno de capa dura em que a despesa era anotada com honestidade, tintim por tintim.
E ninguém precisava assinar nada, pois desconfiança e desonestidade ainda não havia nascido.
Antes dos cartões de crédito existiu a caderneta.
E o fio do bigode, garantia de pagamento de todo homem de bem.
A venda do Zé Roque viria a ser o primeiro shopping Center de minha vida.
O primeiro. O definitivo.
 
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