Wednesday, January 14, 2015
Trabalho de Dentista
(Para a Margarida)
Fui lançar meu livro em portugal e aceitei o convite para jantar na casa de Jorge Pimenta, um intelectual minhoto, gente finíssima, fã de Guimarães Rosa e Milton Nascimento.
Jorge é mais jovem que eu, tem um casal de filhos e é casado com a bela Anabela, uma das pessoas mais doces que Deus emprestou ao mundo.
Enquanto esperávamos o jantar, tomamos umas cervejas Sagres geladas, "ao ponto", daquelas impossíveis de beber uma só.
Segurei o quanto pude, mas no final tive que pedir para usar o toilete.
Apontaram para a escada que levava ao segundo andar, pois o de cima era 'melhor equipado', palavras do professor.
No que subi, vi que a porta do quarto de Margarida, a filha pré-adolescente do casal, estava aberta.
No "verso da porta" estava Justin Bieber, sorridente e descamisado, metade da cueca fazendo propaganda da Calvin Klein, a calça caindo e aquele bonezinho dos Yankees com o bico meio de lado. Intuí que, quando ela fechava a porta, a imagem do poster ficava pra dentro do quarto, bisbilhoteiro e sedutor.
Não resisti.
- "Delinquente e desinquietador de família", disse-lhe com ar severo.
Ato contínuo, tirei do bolso uma caneta e extraí dois dentes de seu sorriso, sem a menor dó.
Depois desci, jantei normalmente e fui para o hotel dormir.
Não sei o que aconteceu quando Margarida descobriu e cheguei a ficar preocupado por ter cometido o imperdoável ato de vandalismo.
Fiquei temeroso da reação dos pais quando confrontados pela filha, e medo da Margarida, sempre tão carinhosa comigo, este visitante intruso e inconveniente.
Mas não tinha como voltar atrás.
Estava feito.
Mau feito.
Cheguei a pensar em botar a culpa na Sagres.
Sofri a noite inteira, quase não dormi.
No dia seguinte, Jorge chegou ao hotel com aquela cara boa dele, todo sorridente, dando-me um abraço dos seus. Antes que eu falasse algo, adiantou-se:
- Eu também nunca gostei daquele rapaz.
- E a Margarida? quero saber, preocupado.
E ele:
- Ah, a Margarida disse que tus és um tremendo gozador. Ela já está em outra.
Paguei um almoço no Paulo Padeiro e tudo terminou em bacalhau.
Margarida virou sobrinha, uma de minhas favoritas.
E eu continuo um tio daqueles bem chatos, bem ciumentos e exageradamente protetores.
O One Direction que se cuide.
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Monday, December 15, 2014
As visões reveladoras de Geraldo
(Para o Geraldo Corredor da Paz,
que está sendo operado do coração neste momento e precisa de boas energias)
Geraldo Carlos, o Corredor da Paz é um velho amigo.
Não fosse tão bagunçado e tivesse que se desfazer, de tempos em tempos, de seu acervo de fotografias, ele seria, sozinho, o museu da imigração brasileira nos Estados Unidos.
Vira e mexe, alguém joga fora caixas de fotos que ele pede pra deixar na casa por alguns dias, mas que nunca volta para apanhar.
Ah, Geraldo...
O danado era atleta, acreditem. E dos bons.
Vem daí o apelido 'Corredor da Paz'.
Geraldo corria maratonas e ganhou muitas provas pelo Brasil afora.
Sempre foi um espírito leve, uma alma boa que gosta de fazer o bem, sem olhar a quem.
Um homem livre.
Um indivíduo que não gosta de ter chefe. Que não pertence a ninguém.
Lembro-me de que há cerca de vinte anos, ele começou a aparecer na redação todos os dias. E ajudava em tudo o que podia.
Chamei-o à minha sala e fiz-lhe uma proposta de trabalho. Queria pagar por aquilo que ele fazia voluntariamente.
Ficou de pensar.
Reapareceria seis meses depois dizendo que, "do jeito que estava, estava bom".
Não queria patrão. Não queria horário de trabalho e nada que o prendesse. Nem salário.
Continuou ajudando. Ajuda até hoje.
E não é só a mim que Geraldo ajuda.
Sempre que sabe de alguma criança precisando de um computador ou de livros para a escola, realiza trabalhos remunerados até conseguir o dinheiro necessário.
Ele tem o costume de passar numa padaria todas as manhãs recolhendo pães. E sai pela cidade procurando mendigos, principalmente os que vivem às margens do Rio Passaic, entre Newark e Harrison.
Geraldo é um super-herói pós-moderno. Um herói meio santo. Meio Rock n'roll.
E é neste papel que já ajudou a polícia a prender muitos "bad guys", ainda que isto significasse colocar em risco a própria vida.
O nariz torto no 3x 4 da identidade é um atestado disto, cortesia de uma gang de rua que ajudou a colocar atrás das grades.
Mas é a fotografia a sua grande paixão.
Desde que chegou , abandonou as pistas de corrida para se dedicar ao hobby, fotografando e posando ao lado de celebridades, artistas, atletas consagrados e chefes de estado. Nunca precisou de credencial ou crachá.
Excêntrico, vai chegando devagarinho, com aquele visual que é só seu.
Já o vi vestido de Tio Sam, mas ele pode aparecer de São Francisco de Assis ou Abraham Lincoln. Depende da lua.
Sua cabeça é uma tela onde, de vez em quando, reluz uma estrela de Davi.
- Você é judeu, Geraldo?
- Eu não, mas Jesus foi.
Possui este ar místico, gosta de contar sonhos estranhos que quase sempre falam de uma luz branca e figuras bíblicas.
De vez em quando, tem revelações.
Soube no sábado que ele estava internado em um hospital da cidade. Comprometi-me a vê-lo e recordei de uma outra internação de emergência, em que saí voando do escritório para visitá-lo no St. James.
Encontrei-o ligado a tubos eletromagnéticos, tinha uma agulha de soro enfiada na veia e aquele ar de quem está partindo para uma outra dimensão.
Assim que me viu, chamou-me para perto e falou com uma voz misteriosa:
- Não sei o que vai acontecer comigo, mas se eu morrer, enterre meu coração em Governador Valadares.
- "Deixa de bobagem, homem", respondi.
Geraldo retomou o ar misterioso, chamou-me para ainda mais perto e murmurou ao pé do ouvido:
- "Pega este papel. Guarde-o. Tive uma visão claríssima com estes números que estão escritos nele. Passe na lotérica e jogue. Somos sócios", sussurrou.
Saí do hospital e passei na lotérica, claro. A visão foi "claríssima",e a loteria correria na mesma noite.
Cheguei em casa, dormi e me esqueci.
Dois dias depois, o Corredor da Paz apareceu na redação vendendo saúde e perguntando se eu havia jogado os números que me dera.
- "Claro", respondi.
Fomos juntos até a lotérica conferir o resultado, mais sócios do que nunca:
13, 20, 22, 32, 40 e 44.
A visão de Geraldo havia nos dado:
1, 9, 14, 29, 30 e 34.
O que me faz concluir que as visões reveladoras de Geraldo costumam falhar.
Ele, não.
.
Thursday, November 13, 2014
Anunciação
Acordei,
calcei o coturno com bico de aço,
peguei o taco de baseball
e o soco inglês.
Tomei dois Engovs.
Mastiguei um Rivotril
E bebi meu café.
calcei o coturno com bico de aço,
peguei o taco de baseball
e o soco inglês.
Tomei dois Engovs.
Mastiguei um Rivotril
E bebi meu café.
Estou prontinho.
Pode vir, vida!
Wednesday, September 24, 2014
Uma invenção do demônio
(Para Fabio
Portugal)
Comecei com
um uisquinho sem compromisso.
Fim de
expediente, dia chato no escritório, aquele drink serviria para relaxar e eu
ainda chegaria à casa a tempo de jantar.
Não deu nem
para o começo. A sede era funda e pedi mais um.
E depois
outro. E mais outro.
Aí apareceu
um conhecido, que falou de uma cerveja belga maravilhosa, pela qual ele acabara
de se apaixonar.
Sabe aquela
loura gelada? – ele perguntou.
- Então.
Aquela!
E continuou
como se fosse um vendedor de carros falando do último modelo da Ferrari a um
aficionado:
- É ela.
Molhou a
palavra na tal loura e prosseguiu:
- É ela, só
que mais gostosa, perfumada, acetinada, e desce como se fizesse um carinho na
pele da gente. Só que por dentro.
Decidi que
tinha que conhecer a tal loura que fazia um carinho por dentro da pele.
Virei o
uísque de uma talagada só, chamei o garçom e lá fui trocar uns carinhos com a
loura.
Devia ser
boa.
Afinal,
nove dólares por uma garrafinha de 600 ml, ela tinha que ser.
E era
realmente muito boa.
Aí me
atraquei com ela, e ela comigo. Foi amor ao primeiro gole.
O calor
insuportável clamava por mais dessa maravilha belga.
Reparei que
os donos dos bares e restaurantes desligam o ar-condicionado e mandam os
cozinheiros exagerarem no sal e na pimenta dos petiscos nestes dias mais
quentes.
Pedi a
saideira e um táxi, porque não me sentia apto a dirigir até em casa.
O jantar em
família havia ido para as cucuias e tratei de ir logo para o quarto. O trajeto
até o segundo andar fez com que eu me sentisse ligeiramente zonzo e nauseado.
Despi-me -
isentado do banho - e horizontalizei.
Mal me
deitei, a cama deu de rodar.
- Que diabo
é este? - perguntei a ninguém.
E ela
rodava como se fosse um relógio e eu o seu ponteiro. E numa velocidade de
ventilador.
Não sei
quando parou o homem-ventilador.
Mas demorou
uma eternidade.
Acordei com
a cabeça oca como um abacate, os miolos chacoalhando como se fossem a semente.
Pus-me de
pé, heroicamente, e arrastei o cadáver até o banheiro.
Uma vez lá,
deixei a ducha fria correr sobre a minha miséria.
Maldito
sujeito que inventou tudo isto, pus-me a pensar.
Quem
inventou a ressaca inventou as piores coisas desta vida.
Ele inventou
o imposto de renda, o trânsito de São Paulo, a Festa de Barretos e Zezé di
Camargo e Luciano.
Inventou o
sertanejo universitário, a broxada, a
ejaculação precoce e o zero a zero no futebol.
Ele inventou Galvão Bueno, o uísque paraguaio,
o cecê no transporte coletivo, a calvície e o horário eleitoral na televisão.
Inventou os
jogos do Campeonato brasileiro às 10 da noite, principalmente às
quartas-feiras.
Inventou ainda a fila de banco, a repartição
pública e o mau-humor das pessoas que trabalham nestes departamentos.
E inventou
também o gosto do boné do chapéu do maquinista do trem.
O gosto do
cabo de guarda-chuva.
E da tábua
de chiqueiro de porcos, que fica na boca quando acordamos ressacados, achando
que um pedaço da gente prescreveu.
Quem
inventou a ressaca inventou um verdugo e o soltou dentro de nossas consciências
para que ele nos faça jurar, a cada pileque, que nunca mais beberemos.
Sim, eu
juro.
Eu prometo.
Eu nunca
mais beberei.
.
Thursday, September 11, 2014
No dia 11 de Setembro
Como aconteceu no dia 8, no dia 9 e em muitos outros dias que o antecederam, o mundo irá acordar com o sol neste 11 de setembro.
No Tibete, um monge se levantará e fará sua primeira oração da manhã.
Em sua prece, pedirá à divindade que derrame sobre o mundo um manto de luz.
Luz para enxergar na escuridão da intolerância.
Luz para caminhar na retidão dos justos.
Luz para fazer transparecer as almas aflitas deste mundo.
Luz para aqueles que não conhecem outro caminho que não o do ressentimento.
Em Estocolmo, na civilizadíssima Suécia, uma moça loura como uma princesa viking, abrirá a janela para permitir que a brisa fresca de final de verão, entre em seu quarto e se espalhe pelos quatro cantos, trazendo fluidos bons.
Na Espanha, numa casa de pedra da Andaluzia, uma menina cigana cantará um canto místico, um canto gitano da mais pura magia.
Em Varadero, Cuba, uma senhora de setenta anos de idade, confidente dos Orixás, irá a uma cachoeira com uma oferenda de agradecimento.
Tranquila, entenderá a linguagem dos peixes e conversará com as plantas num idioma que só os graduados da umbanda sabem entender.
Numa savana do Quênia um grupo de meninos sairá correndo, peito nu de encontro ao vento, livres e leves, sentindo na pele uma carícia da natureza.
Nos pampas argentinos, um vaqueiro levará o seu gado para pastar num vale verdejante e o minuano soprará ao seu ouvido uma confidência:
- Algo de bom está acontecendo neste instante, aqui no lugar em que habitas.
No limite das duas Coreias, dois camponeses, um de cada lado da História, estarão sentados no espaço imaginário onde, provavelmente, foi desenhada a linha da fronteira e, juntos, dividirão um prato de comida.
Um padeiro francês, na volta de sua derradeira entrega da madrugada, esfacelará os pães que não foram vendidos no dia anterior, e os dividirá com os esquilos famintos da praça.
Numa igreja siciliana, um padre se porá de joelhos evocando a figura perene de Deus e, numa emocionada oração, pleiteará para que o Todo Poderoso derrame sua bondade sobre a humanidade, tocando a cada cidadão, independente de credo ou cor.
Nas ruas de Belfast, na Irlanda, um grupo de católicos e protestantes conversará normalmente, como se todo o ódio e amargura fizesse parte de um passado que deve ser esquecido.
Em Sidney, na Austrália, um aborígine trafegará pelas ruas da cidade sentindo-se parte daquele quadrado de concreto e progresso.
Na Cidade do Cabo, no extremo da África do Sul, negros e brancos estarão fazendo uma passeata pacífica, uma via-sacra de agradecimento pelo progresso obtido na convivência entre ambos nos últimos tempos. E pela promessa de harmonia de tempos que ainda hão de vir.
Juntos, combinarão que a palavra Apartheid será excluída do dicionário. E sairão dançando pela cidade como se fosse carnaval.
Num bairro distante da zona norte de São Paulo, um grupo de meninos jogará futebol durante o recreio escolar.
Uma moça bonita e bem vestida, saída provavelmente da capa de alguma revista de moda, auxiliará uma anciã a atravessar uma movimentada avenida londrina.
Em Santiago do Chile, um motorista mostrará ao turista suíço um grupo de mães numa praça do centro da cidade.
Ao contrário do canto de tristeza pelo desaparecimento de seus filhos durante a ditadura de Pinochet, hoje elas entoam uma marcha folclórica, saudando a chegada da colheita nos campos do país.
Numa mesquita da faixa de Gaza, um rapaz que queria ser homem-bomba muda de ideia e promete plantar um jardim.
Nesse mesmo instante, em Jerusalém, Benjamin Netanyahu receberá uma comitiva árabe para uma reunião que decretará um cessar-fogo definitivo.
E nós, que vivemos nas cercanias de Nova York, olharemos para o céu cristalino de setembro e nele não haverá nenhum sinal de perigo.
Apenas um bando de pombas brancas, sinalizando a existência de um mundo em paz.
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Saturday, August 2, 2014
Vis perdões
Perdoar é dificílimo. Ser perdoado, uma dádiva.
E eu perdoo.
Saio por aí perdoando incondicional e deliberadamente numa tentativa de, talvez, ser perdoado também.
Portanto, eu perdoo você e suas pequenas mentiras.
Suas grandes mentiras.
Suas mentiras de todos os tamanhos.
Perdoo até as mentiras que você ainda não contou.
Portanto, todas as falácias estão devidamente perdoadas.
Assim como as promessas de campanha, promissórias afetivas, seus ‘eujuros’.
Perdoo a nudez fingida, os seios oferecidos na transparência de geometrias infelizes e seus trejeitos de Catherine Hepburn.
Perdoo suas ancas escandalosas e seus triângulos isósceles.
E seus gozos de festim.
Perdoo suas luas de Caran d’Ache, seus abismos de prata e cada estrela de papel.
Perdoo os seus vermelhos.
E todos os tons de azul.
Perdoo suas nuvens vazias de chuvas, os relâmpagos de araque e trovões de tambores sem terreiro.
Perdoo a fome e a injusta distribuição, como perdoaria Drummond.
Perdoo seus minuanos, seus tsunamis e cada terremoto de bolso.
Perdoo os raros dias de sol e sua ausência de verões.
Assim como o cheiro de bolor que vem dos seus armários e o hálito adormecido de cada fantasma da sua coleção.
Perdoo a brisa do nunca de Havana, o calor improvável de Varadero e as ruas sujas do Malecon.
Perdoo seus boleros, suas rumbas e suas dores de corno.
Perdoo os seus punhais.
Perdoo estas bandarilhas em minhas costas sangradas.
E esta sangria desatada.
Perdoo cada pecado capital e até o seu excesso de zelo.
Perdoo as suas carências.
A sua falência de caráter também está perdoada.
Como perdoados estão os seus cactos, os espinhos dos seus cactos e o deserto que mora dentro de você.
Perdoo cada beijo amargo, sua saliva de bílis, esta overture de jiló.
Perdoo você como quem perdoa Judas.
Perdoo, principalmente, seus pra sempre.
E seus jamais.
Foto de Ken Cedeno:
Casa destruída pelo furacão Sandy em Union Beach-NJ (Outubro de 2012).
Monday, July 28, 2014
Curiango
João-sem-braço, gritam os moleques na rua.
Ele baixa a cabeça – envergonhado -, come a poeira do chão com os olhos, aquelas duas ilhotas de jabuticaba cercadas de sangue pisado por todos os lados.
Falta-lhe o braço esquerdo. Sobra-lhe arrependimento.
O homem prossegue desequilibrado em sua rota, ziguezagueante, o corpo pendendo para os lados, metade gravidade, metade alumbramento. É assim todos os dias.
E o nome dele nem é João.
A certidão atesta que Antônio José Dos Santos nasceu num dia de Santo Antônio, em Galiléia, quase na divisa do Espírito Santo.
Daria a saber que sua família foi subindo à margem direita do Rio Doce, até fincar estaca em Valadares.O pai morreu novo, afogado, durante uma pescaria, neste mesmo rio.
Dizem que ele estava bêbado, e que a cachaça corre nas veias da família há várias gerações.
Desde então, Maria Quitéria foi virando aquele caquinho de mulher, viúva jovem ainda, com a má-sorte amalgamada num barraco de terra batida na encosta do morro, e com um filho para criar.
Trabalhava em casas de pessoas pouco menos miseráveis do que ela.
Sabia fazer biscoitos e cozinhar trivialidades.
Lavava, passava, consolava as patroas.
Todas as noites chorava a ausência de seu homem e a única diversão que conhecia era ir à igreja aos domingos, onde passava horas a fio confessando pecados que não eram seus.
Antônio cresceu fazendo bicos.
Escola, ele não teve.
Namorada, não conseguiu. Ele não havia nascido para o amor.
Era tão feio, que passou a ser chamado de Curiango, uma ave de plumagem pardo-amarelada finamente pintada de preto e com manchas pretas maiores, rêmiges pretas com fita branca.
Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
Durante 12 horas por dia ele moldava telhas do tipo cumbuca e tijolos lajota, que os caminhões levavam e o deixavam pensando que estava ajudando a construir uma cidade. Um país.Curiango capinava um quintal aqui, fazia um serviço de servente de pedreiro ali, caiava muros, ajudava nos carretos em troca de qualquer coisa.
Chegou a fichar na Cerâmica: um salário-mínimo , meio expediente no sábado e o domingo de folga pra rebater as dores no corpo, porque o serviço era pesado.
Muito pesado.
No sábado, quando saía da Cerâmica - a pele negra ainda esbranquiçada do pó de argila -, ele encostava o umbigo no balcão da venda do albino Zé Roque e pedia uma branquinha, e um pedaço de chouriço de porco.
E pedia outra dose, e mais outra e outra mais.
Após a décima pinga, Curiango começava a conversar com um amigo imaginário, que ele próprio dizia ser o diabo.
Seus olhos ficavam esbugalhados, o semblante se encarguilhava e ele balbuciava frases incompreensíveis, gesticulando, explicando, fazendo-se se entender e entendendo, maneando a cabeça positiva ou negativamente, conforme a prosa se desenrolava entre os dois.
Os clientes da casa se acostumaram à cena. Havia até quem - por educação - cumprimentasse os dois.
Foi no balcão daquele vendeirim, que Curiango escutou a estória de um homem que sobreviveu a um atropelamento e nunca mais precisou trabalhar.
“A indenização da Vale do Rio Doce foi maior que o prêmio da loteria mineira”, teria sussurrado o diabo.
O diabo, aquela má-influência, aquela péssima companhia.
Desde que começaram a andar juntos, Curiango não quis mais trabalhar. Só queria saber de beber com o amigo. E, como não tinha mais salário e o diabo anda sempre duro, esmolava por cachaça:
- Ô, me paga uma pinga aí ? – pedia a qualquer um que entrasse no estabelecimento.
Todos os dias, com ou sem dinheiro, chegava na venda logo pela manhã e começava a beber e a falar sozinho.
Sozinho, não: com o “companheiro”.
Naquele sábado, porém, Curiango chegou desacompanhado.
Havia feito a capina de um quintal da Rua Ametista e ganhado o do vício.
- Bota uma branquinha aí, Zé Roque!
E mais uma. E mais outra. E outras tantas mais.
Olhou para as mãos calejadas e franziu a testa. Duas bolhas haviam arrebentado pelo peso da enxada. E ele foi ficando incomodado.
A todo instante, olhava para a porta, mas o amigo não chegava.
Devia ser umas duas horas da tarde, um calor infernal, o sol a pino, quando ele pediu a saideira.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.
Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
Vazou pela porta, a camisa branca e suja completamente desbotoada, sumiu na curva da rua em direção ao caminho do trem.
Respirou fundo, fez um nome do pai e deitou-se paralelamente à linha férrea, abrindo os braços como um Jesus Cristo embriagado e negro, o braço esquerdo trespassando um dos trilhos até a altura do sovaco.
A locomotiva foi se aproximando em altíssima velocidade, crescendo aos olhos, o maquinista perplexo, gritando desesperado, puxando os freios e apitando na esperança de que Curiango saísse daquele transe e se levantasse.
Tudo em vão.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria.
Do outro lado dos trilhos, o amigo imaginário sorria.
Diabolicamente, como é de seu feitio.
* Ilustração, "O Escravo - Personagem de Paraty", de Luciano Osório
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