Monday, August 28, 2017

Alô Sampa!



Estou muito feliz por ter fechado, hoje, o local de lançamento de Papoulas de Kandahar em São Paulo.

Será no dia 7 de Novembro, na belíssima livraria Blooks (Shopping Frei Caneca — Rua Frei Caneca, nº 569 – 3º Piso).
A noite fará parte do Sempre Um Papo (obrigado Afonso Borges!) na cidade e contará com a participação especialíssima de um amigo querido (surpresa, por enquanto), que certamente irá abrilhantar ainda mais a nossa noite.
Anuncio nos próximos dias detalhes das presenças em Goiânia, Poços de Caldas e FliAraxá.
Estou feliz.
Sei que estarei entre amigos.

Tuesday, August 22, 2017

Banquete animal



Célio Dimas Cordeiro da Silva: esse é o nome impresso na certidão de nascimento.
Nasceu em Governador Valadares e por lá deve estar vivendo.
Para sua mãe ele era Célio Dimas, e parecia sempre prestes a lhe passar um cerimonioso sabão:
- Célio Dimas, quem soltou o canário?
- Isto lá são horas de chegar em casa, Célio Dimas?
- Célio Dimas, você bebeu outra vez?
Para a turma na rua, no entanto, ele era Celim, um dos sujeitos mais divertidos que a vida já produziu.
Ficamos amigos no início dos oitenta, jovens e ingênuos. Nosso encontro era religiosamente dominical e, como tal, era chamado de missa.
- Te vejo na missa, domingo que vem.
- Combinado, o outro respondia.
O padre eu não sei quem era. Mas os santos de nossa devoção eram São Rafael, e São João da Barra, aquele "milagroso".
Eu era um dos viajantes na maionese de um certo Varal de Poesias, que acontecia todos os domingos na Feira Hippie da cidade.
Celim, por sua vez, vendia umas ‘tabuínhas’ em que desenhava a pirógrafo, motivos infantis e nomes de crianças.
Nós gritávamos "Óia o Varal"; ele respondia "Óia a ‘talbinha’".
Na saída, talbinhas (ou seria tabuínhas?) e varais saiam para beber cerveja.
E ficava-se ali no Bar Pedrão, as pernas esticadas na calçada, comendo pipoca com queijo ralado, olhando as moças passarem, as horas definhando na preguiça da tarde.
A medida que o tempo passava, a cerveja minguava nos copos, e apenas a incerteza de melhores dias transbordava das conversações. Muito injusto, o Brasil, pois aquele moço tinha muito talento. 
Era mestre da caricatura e do cartum, e criava personagens que dava pra montar uma Disneylândia só dele.
Ficávamos espantados com a firmeza de seus traços, levando em conta que ele tremia muito, como se sofresse do Mal de Parkinson. Excesso, talvez, de cachaça.
Celim não tinha um único osso maldoso em seu corpo.
Vim para os Estados Unidos e ele ficou por lá assinando uma charge no Diário do Rio Doce, diagramando textos e propagandas numa agência. Aos domingos, continuava vendendo ‘talbinhas’ na feira da Praça Serra Lima.
Anos depois recebi uma carta dele aqui em New Jersey. Estava vivendo na Califórnia, trabalhando com chicanos numa fábrica de fios de cobre.
Mandei uma resposta falando que queria fundar um jornal brasileiro. Dois meses depois ele apareceria por aqui, sócio da empresa, trazendo à tiracolo um esdrúxulo guarda-roupas, uma coleção de óculos de grau comprada num brechó.
Com a turma da República do Babujo vivemos dias e noites gloriosos, numa época em que esbanjávamos saúde e nossos fígados ainda resistiam.
Era o período do Scorpio’s, do grupo Brazilian Energy e dos shows de MPB na cidade. Fomos em todos eles: Gonzaguinha, Gilberto Gil, Alceu Valença, Sá & Guarabyra, Elba Ramalho, Fagner, Beto Guedes, Zé Ramalho... nossos ídolos.
Celim, como sempre, protagonizou estórias engraçadas, várias delas antológicas e nem sempre publicáveis, hoje temas de retóricas animadíssimas, toda vez que dois ou mais pensionistas do Babujo se encontram.
Era hilário vê-lo "traduzindo os diálogos da televisão americana para brasucas recém-chegados.
Ele, que não sabia nadinha de inglês, sentia-se na obrigação de traduzir a língua para os neófitos. E a todos enganava com seu sotaque estranho e palavras que inventava.
Recordo-me de uma noite em que ele não estava conosco no bar onde costumávamos nos encontrar. Havia ficado em casa dormindo.
Duas da manhã resolvemos retornar e, quando entramos na cozinha, o encontramos de pijama, com uma cara sonolenta, debruçado vorazmente sobre um prato contendo uma gororoba.
Sabedores de sua total inabilidade para cozinhar, tratamos de desvendar o que ele comia com uma boca tão boa.
Encontramos a resposta no cesto do lixo: uma lata da Purina.
Celim, que não soube o ler o que estava escrito na lata, tinha esquentado a comida de Rocky, o pastor alemão que meu irmão Toninho criava no quintal.
Para não comprometer o rebolado, Celim - que não perdia o amigo e nem a piada -, continuou jantando.
Ato contínuo, passou o que sobrou daquela noite sentado no parapeito da janela do quarto bebendo cerveja. Entre um gole e outro de budweiser, latia e uivava para a lua.

Friday, August 11, 2017

Assim se estreitam as margens do oceano


Esta é a segunda vez que vou à Europa mostrar um livro meu. A primeira foi em 2013, junto com o poeta Bispo Filho, divulgando “Meninos de São Raimundo”. Nós fomos muito bem recebidos em Portugal, Espanha e Inglaterra. Senti ali que ainda voltaria.
Quatro anos depois, retorno só, levando minhas Papoulas de Kandahar. Vou com o coração batendo miudinho, sabedor de que sentirei tremenda falta do Bispo Filho. Aquela viagem foi uma espécie de ponte, que nos irmanou novamente e levou a velha amizade a um lugar maior.
Começarei a pequena maratona pela Ilha de São Miguel, nos Açores. O livro será apresentado pela professora Leonor Sampaio Silva, no Instituto Cultural de Ponta Delgada, dia 7 de setembro. Trata-se de uma enorme responsabilidade, dada a importância e seriedade do trabalho desenvolvido naquela instituição. 
Na sequência, embarco para a Ilha da Madeira, que tem um dos aeroportos mais complicados do mundo. É público e notório o meu medo de avião e ainda não sei de qual uísque me valerei para chegar até lá. Mas é certo que chegarei.
Na ilha das flores terei uma agenda super agitada, com apresentação do livro em uma confraria de autores e recitadores madeirenses, na noite do dia 8 de setembro. No dia seguinte, 9 de setembro, terei contato mais direto com os madeirenses na livraria FNAC do Funchal.
Retorno à cidade do Porto na segunda-feira para um breve descanso e reminiscências. Rumarei em seguida em direção a Braga, que é uma espécie de segunda casa para mim. Na Bracara Augusta, o livro será apresentado pelos professores Jorge Pimenta e Margarida Figueiredo, amigos queridos e principais artífices de meu retorno ao Velho Continente. Acontecerá na Biblioteca Lúcio Craveiro de Souza, no dia 15 de setembro. 
Pegaremos a estrada bem cedinho, na manhã de sábado, rumo A Orense, na Galícia, onde um emocionado reencontro se anuncia. 
Caberá à escritora Concha Rousia e ao jornalista galego Joel Gomes a apresentação de Papoulas de Kandahar na cidade. A Arca da Noe, um centro cultural em uma taberna de Vilar de Santos nos receberá. Acabará em vinho, carinho, presunto e camarões ao alho esta nova passagem pela Península Ibérica.
Caso possam, compartilhem com os amigos, ajudem-me a divulgar este roteiro. Ficarei feliz em receber um abraço encomendado por qualquer um de vocês.
Admirável velho mundo, aí vou eu.
Grande beijo do 

Roberto

PS: Quero agradecer aos amigos Concha Rousia, Jorge Pimenta, Karla Alcântara, Eleonora Marino Duarte, Margarida Figueiredo e Joel Gomes por terem levantado esta bandeira e estreitado - com a força do amor e da amizade - as margens do Atlântico. 
São para vocês essas minhas papoulas.

Monday, August 7, 2017

O passageiro do silêncio



(Para José e Ana, no pra sempre e no jamais)

Tudo se torna um desassossego. A comida fica ruim, o apetite some. Os ponteiros do relógios são os maiores inimigos. Os dias não tem fim.
O local de trabalho se transforma em um campo de concentração e a casa fica do tamanho do Maracanã. As coisas perdem o sentido e reina a desordem.
Não há lugar no mundo para os que se desacertam, para os que se perdem do caminho por miudezas vãs.
A vida ensinará a dura lição do que é a tristeza.
E apontará o canto sombrio em que abraçará a solidão.
Mesmo que esteja rodeado por uma multidão, você se sentirá só. Miseravelmente só.
O sono evaporará e se mudará para outro código postal. E a cama se tornará imensa e fria, com seus lençóis de arame farpado e travesseiros de espinhos.
Os dèjavus se amontoarão.
O rosto dela se materializará na fumaça do cigarro ou no fundo de um copo de conhaque. Uma onipresença quase de Deus.
Assim como Einstein, que não sabia que a partir de sua teoria seria desenvolvida a bomba atômica, Deus não sabia que, quando inventou o silêncio, ele seria usado para magoar.
O silêncio é nuclear.
E o mundo, 'vasto mundo', vai se comprimindo, as paredes se fechando, tirando-lhe também o ar. Ficará difícil respirar.
O sol não voltará a brilhar amanhã, dirão-lhe os seus botões.
E nem depois de manhã.
Nunca mais, nunca mais, nunca mais, concluirá você.
Como se tornasse um cego, de repente, incapaz de ver a luz, você vegetará perenemente em um túnel sem fim.
É como se o carro tivesse acabado a gasolina no meio do nada.
Faltará combustível para seguir adiante, temerá.
A partir daqui, apenas a inércia, o carro parado no acostamento e a contagem modorrenta dos dias que ainda lhe restam. E nada mais.
É como se você fosse exilado em um país estrangeiro e não dominasse a língua.
E todos à sua volta falassem aramaico.
E tudo trouxesse a lembrança dela.
Como o casal que entra no táxi, a moça bebendo um capucino, o homem conversando com seu uísque no Café, nesta noite que cai sobre a cidade enchendo os bares de trabalhadores morrendo de sede e homens e mulheres no cio.
Os carros trafegam lentamente no engarrafamento e só a lembrança dela lhe fará companhia. Estão todos indo para uma grande festa em homenagem a ela.
Menos você.
Ela estará linda, com aquele vestido que você já despiu tantas vezes vindo de outras festas.
Ela, com o colar de pérolas que você presenteou. E os brincos tão sutis.
"Mudou o cabelo", você dirá.
"Remoçou".
Só você e a sua triste figura permanecerão inalterados.
O avião que cruza o céu está indo para Bruxelas, mas você acha que ele está indo para lá, onde se encontra o domicílio em que os telegramas são devolvidos e as cartas se extraviam.
O avião está indo para Dublin ou Milão.
Para a velha Lisboa.
Ou para Madri.
Mas você acha que ele está indo para Istambul, quando na verdade, o destino é outro. Tão outro.
Este avião está cruzando o céu em direção ao inferno. Está em piloto automático e você, cá de baixo, é seu único passageiro.

Wednesday, July 26, 2017

Memórias do Abcedário


(Para a Juliana Loyola)


Fui alfabetizado por uma velhinha que, diziam as más línguas, teria sido prostituta na juventude.
Baixinha, magra - daquelas bem ossudas - e de bigode, não consigo imaginar que tenha sido profissional do sexo.
Não teria sido das moças mais atraentes, a nossa dona Rita. Para piorar, tinha as pernas muito finas e peludas.
Como sei disto? Ora, ela me colocava para rezar, ajoelhado, diante da imagem de uma santa cujo nome me foge à lembrança. E eu via seus cambitos, quando ela se aproximava para anunciar o fim do castigo.
Não creio que seu método didático tenha funcionado comigo, pois até hoje tenho dificuldade de me lembrar quanto é sete vezes seis, o calcanhar de Aquiles nas arguições de tabuada.
Por mérito dela e medo meu (de rezar ajoelhado de novo e de novo e de novo), eu entrei no grupo escolar sabendo ler e escrever.
A primeira professora "oficial" chamava-se Dionete e me dei bem com ela. Terminei o ano com honras e só não gostava da hora da merenda, no recreio. 
A fila quilométrica de caneca plástica na mão para encarar uma gororoba - que chamavam de "triguilho" - não deixava tempo para brincar com a meninada.
Nas festas do Manoel Byrro eu fazia dupla com Maurício Zói de Gato, porque ele tinha os olhos azuis.
Nós cantávamos Era Um Garoto Que Como Eu Amava os Beatles e os Rolling Stones, do grupo Os Incríveis.
Começava ali uma carreira promissora na música.
Nosso palco era uma mesa de fundo bambo, suspeitíssimo e, na hora do refrão, imitávamos uma metralhadora com as mãos, apontando um para o outro e gritando ra-ta-ta-ta-ta-ta.
Ao final da performance, caíamos para trás, como que atingidos por balas vietnamitas. Choviam aplausos, mas como nosso repertório se resumia a uma única música, a platéia enjoou e terminou ali aquela promissora carreira musical.
Adultos, Maurício entraria para a polícia militar e eu viria lavar pratos nos Estados Unidos.
Cantar, para ambos, hoje, acho que nem no banheiro.
Quando completei oito anos minha família foi de mala e cuia para Barra do Cuieté, um lugarejo quase na divisa com o Espírito Santo e para onde meu pai havia sido transferido.
Vivemos lá durante um ano e meio e foi um período muito feliz de minha vida. Nadava na foz do Rio Caratinga com o Rio Doce, tomava banho de cachoeira, pescava e caçava passarinho.
E foi lá, no Grupo Escolar Maria Ortiz, que iniciei a 'trajetória nas letras'.
Todos os anos acontecia uma concorrida gincana em que os alunos tinham que executar tarefas que dariam os pontos para a sua equipe. Os vencedores iam em cima de um caminhão de leite a Conselheiro Pena  tomar sorvete e passear na pracinha.
Na tarefa de redação, cujo tema era "Meu brinquedo favorito", conquistei o ponto para a equipe azul ao enumerar os gols que faria (e não fiz) com a bola de futebol que minha tia Terezinha ainda haveria de me dar.
E aquele sorvete sentado num banquinha da Praça da Matriz em Conselheiro foi meu Jabuti, meu Nobel de literatura, meu Oceanos, meu Camões.
Era de creme, o prêmio.
E até hoje eu consigo sentir o seu gosto doce.


.

Tuesday, July 18, 2017

Eu tinha muito de caminhoneiro em mim

 O ouvinte compra uma ficha telefônica e liga para a rádio. Na sequência, inicia um diálogo com o apresentador, que indaga algumas coisas a seu respeito. De onde ele é, com o que trabalha, perguntas recorrentes. Para fechar a conversa, o ouvinte pede uma canção e a dedica a alguém. 
Com a ajuda do apresentador - que emposta a voz e capricha nos floreios - ele chega ao ouvido e coração do homenageado:
"Alô, Dona Maria, sua filha Carmen dedica-lhe ‘Tranquei A Vida’, de Ronnie Von." 
As empregadas domésticas eram grandes apreciadoras desses programas. Os motoristas de praça e caminhão, também. O rádio de pilha era um grande companheiro, remédio eficaz no combate à solidão.
Rapazes apaixonados também telefonavam, e cada canção era uma espécie de rosa tremulando na mão.
"Para a Josiana, com votos de amor eterno do seu admirador secreto, 'Os Seus Botões', do rei Roberto Carlos."
"Para o José Carlos, da Drogaria Pague Menos, com o carinho da sua noiva Priscila, que oferece 'Lábios de Mel', na voz de Ângela Maria."
Às vezes dava até em casamento. Também atenuava mágoas e encerrava brigas entre casais. 
Quando isso?
Segunda metade do século passado, início dos anos 1970.
Eu era menino e tinha muito de caminhoneiro em mim. Cresci escutando rádio. Todas as noites levava o Philco portátil para a cama e esperava o programa Noturno, da Rádio Jornal do Brasil. Às 23h em ponto começava o deleite.
Dormia escutando Milton, Elis, Alceu, Belchior e Caymmi, o pai. 
E tinha Gonzaguinha e Gonzagão, Nara Leão, Edu Lobo, melodias de um terceiro Luiz e tantas baladas, sambas, bossas e chorinhos, que ficavam fazendo cosquinha em minhas orelhas até o sono chegar.
Não cheguei a pegar a fase de ouro do rádio, que reinou absoluto antes da chegada da televisão.
Não escutei Ary Barroso, que, além de comentarista esportivo e apresentador, era um talentoso compositor, autor de clássicos como “Aquarela do Brasil”, “No Tabuleiro da Baiana” e “Na Baixa do Sapateiro”. Com o primeiro concorreu ao Oscar de melhor canção-tema de filme. Era o rei do samba-exaltação.
Não convivi com Marlene e Emilinha, as rainhas de uma era que hoje parece inverossímil como os dinossauros.
Cheguei depois das novelas radiofônicas, que, como as partidas de futebol, ofereciam uma poderosa parceria em que a imaginação do ouvinte dava cores ao cenário onde as tramas ganhavam vida.
Imaginar um campo de batalha ou um Maracanã lotado em dia de Fla x Flu incendiava o imaginário do espectador, algo que acontecia naturalmente. Por mais que cada um enxergasse do jeito que quisesse, algo ali os irmanava, tornando-os iguais.
Os narradores inventavam bordões e verbetes, eram profetas de um tempo que parecia melhor. Cada partida de futebol era um espetáculo, um recital, como quis nos fazer crer Fiori Gigliotti, que começava as narrações decretando que se 'abrissem as cortinas' do velho Pacaembu.
Entre as lembranças ainda reverbera a Rádio Relógio, que passava o dia inteiro dando a hora certa. 
Sediada no Rio de Janeiro, ela ainda opera no dial AM, na frequência 580 kHz, mas rompeu há muito com as suas tradições. Conhecida por tocar ao fundo das suas transmissões a hora certa vinda do Observatório Nacional, hoje ela é mais uma ferramenta de divulgação da igreja do bispo RR Soares, o quarto pastor mais rico do país, segundo a revista econômica Forbes.
Não dá para falar de rádio no Brasil sem abordar aspectos nostálgicos.
Às seis da tarde, em ponto, era a hora do Ângelus.  
De dentro das casas vazava o som de um coral relembrando aos católicos, mediante meditação e orações, o momento da Anunciação - feita pelo anjo Gabriel à Virgem Maria - da concepção de Jesus Cristo, que diziam estar livre do pecado original. As ruas ganhavam um ar solene.
E tinha a famigerada “A Voz do Brasil”, que os empoderados militares tornaram obrigatória em todas as emissoras. Dessa época de tortura e ufanismo ficaram canções como “Você Também É Responsável” e “Eu te Amo, Meu Brasil”, dos irmãos cearenses Dom e Ravel, queridinhos dos generais.
Sem falar nos programas policiais, ainda hoje em voga, que relatavam o cotidiano das delegacias. Os boletins faziam escorrer sangue dos alto-falantes, saciando uma necessidade estranha da raça humana. 
Os noticiários, às vezes com fatos requentados de todas as partes do globo, eram temas de animadas conversas entre os homens e as mulheres daquele Brasil. Era comum alguém comentar um assunto e o interlocutor responder que "viu no rádio".
E tinha visto mesmo.